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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

Governo Obama conspira contra o Brasil! Lula e Dilma têm de fazer alguma coisa!

A entrevista coletiva que Lula concedeu ontem em companhia de Dilma Rousseff, a presidente eleita, tem tudo, de fato, para entrar para a história. Entre outras coisas, ele criticou o governo dos Estados Unidos e da China por causa da tal “guerra cambial”. E anunciou a reunião do G-20 como uma espécie de solução para […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 21 fev 2017, 09h25 - Publicado em 4 nov 2010, 07h15

A entrevista coletiva que Lula concedeu ontem em companhia de Dilma Rousseff, a presidente eleita, tem tudo, de fato, para entrar para a história. Entre outras coisas, ele criticou o governo dos Estados Unidos e da China por causa da tal “guerra cambial”. E anunciou a reunião do G-20 como uma espécie de solução para todos os males. Há dois dias, no Jornal Nacional, Dilma já havia feito uma sensacional salada conceitual, segundo a qual o Brasil continuará, sim, com câmbio flutuante (e ninguém está dizendo que não deva) porque devemos a esse regime as fartas reservas brasileiras (é falso), o que nos protegeria da especulação — o que só seria verdadeiro se a tal especulação não estivesse ocorrendo ao contrário: em vez de fuga de dólares (contra a qual as reservas seriam uma garantia), tem-se é uma entrada maciça de dólares em busca dos juros mais altos do planeta. Mais: reservas estratosféricas costumam servir a quem, como a China, tem câmbio flutuante só de brincadeirinha justamente para manter a moeda depreciada.

Horas depois da entrevista, em que nadava em céu de brigadeiro, satanizando quem bem entendesse e arrancando risos de seus interlocutores, os EUA anunciaram que vão injetar a bagatela de US$ 600 bilhões na sua economia para ver se conseguem tirá-la do buraco. Vão imprimir dinheiro mesmo, resgatar títulos que estão com os bancos, inundá-los de dólares para que eles emprestem a juro quase zero. Resumo da ópera: a reunião com o G-20 é uma desnecessidade. O Brasil vai receber uma montanha de dólares. Resultado: a moeda, que havia ensaiado uma recuperação, voltou a cair. Para as exportações e para a indústria brasileiras, é uma tragédia. E aí?

Os instrumentos, nos marcos com os quais opera o governo, já estavam quase se esgotando antes desse pacote. E agora, qual é o busílis? O Real está entre as moedas que mais se valorizaram, mas não é a única. A desvalorização do dólar é hoje uma realidade mundial. Qual é a nossa jabuticaba? A taxa de juros, que é de 5,3% ao ano, A MAIS ALTA DO MUNDO MUNDIAL, como diria o pessoal do Casseta & Planeta! Na Rússia, é de 0,7%; na China e no México, ZERO! Quando os bancos receberem aquela montanha de dólares  —  US$ 75 bilhões ao mês até junho do ano que vem —, o que vocês acham que eles farão? Emprestarão tudo às empresas e aos consumidores a juro quase zero ou investirão parte dele no cassino do Pai e da Mãe do Brasil?

Eu não estou entre aqueles que acham que os juros são altos só porque o governo é perverso. Sem um plano de austeridade, que corte gastos públicos para valer, eles não vão baixar a uma taxa que desestimule a entrada de dólares no país para especular. Atenção! Se o governo desse um murro na mesa e cortasse a taxa à metade, ela ainda continuaria gigantesca na comparação com outros emergentes. Se o juro aqui e ali é zero ou até negativo e se o Brasil oferece 5,3%, os dólares virão para cá; mas, se ele continua zero ou negativo acolá, virão para cá do mesmo jeito ainda que sejam de 2,6%, entenderam?

Notem que a decisão do Banco Central americano é de prazo relativamente longo. Nesse ambiente, as reservas de que Dilma tanto se orgulha são parte do problema, não da solução, a menos que ela esteja contando com elas para enfrentar a sangria da balança comercial. Até quando? E eu duvido um pouco que o governo brasileiro consiga convencer a China e os EUA a mudarem as suas prioridades porque a indústria brasileira está indo pra cucuia.

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Ontem, na entrevista coletiva, alguém perguntou a Lula se havia medidas impopulares a serem tomadas — corte de gastos, necessário caso se queira baixar os juros. Ele negou veementemente e ainda disse, naquela sua linguagem muito peculiar, que isso era o nome que se dava quando alguém pretendia fazer “sacanagem” com o povo. Num muxoxo, Dilma chegou a citar a expressão “saco de maldades”, como a dizer que eles não são gente desse tipo. Pois então tá. Talvez Guido Mantega, na sua proverbial sabedoria, tenha a receita.

Uma coisa é certa. Obama vai tentar de tudo. Afinal, na democracia americana, ele tem de se haver com os republicanos, a oposição, que é quem legitima a democracia. Lula, no Brasil, acha que oposição só atrapalha e que falar em corte de gastos é coisa de  quem quer fazer “sacanagem”. Quem sabe o grande advento do governo Dilma não seja a descoberta da quadratura do círculo?

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