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Reinaldo Azevedo Por Blog Blog do jornalista Reinaldo Azevedo: política, governo, PT, imprensa e cultura

A MARCHA DO RIDÍCULO

Uma coisa não se pode negar: “eles” são profissionais e contam com uma rede estruturada, azeitada e que atua com método. E têm a vantagem de se confrontar com um impressionante amadorismo. Estou me referindo, claro!, aos petistas. E não! Não vou desistir de torrar a paciência dessa gente. E mesmo que a crítica que […]

Por Reinaldo Azevedo - Atualizado em 21 fev 2017, 18h05 - Publicado em 23 maio 2010, 07h59

Uma coisa não se pode negar: “eles” são profissionais e contam com uma rede estruturada, azeitada e que atua com método. E têm a vantagem de se confrontar com um impressionante amadorismo. Estou me referindo, claro!, aos petistas. E não! Não vou desistir de torrar a paciência dessa gente. E mesmo que a crítica que aqui se faz fosse irrelevante, isso, por si mesmo, não definiria seu erro ou seu acerto. Vamos ver. Lula e a diplomacia megalonanica de Celso Amorim acabam de colher a sua mais formidável e inequívoca derrota, certo?

Bastaram três dias, no entanto, para que renovadíssimos jornais – não há reforma gráfica ou editorial que dê conta de conferir nova aparência ao adesismo – mudassem de rumo e convertessem o vexame numa vitória arrasadora. O cardápio só varia no molho, com mais ou menos teor de lulismo: você prefere o Lula do Jornal A, que teria se credenciado para ser o porta-voz dos emergentes, ou o Lula do Jornal B, candidato a secretário-geral da ONU – mas, consta, ele exige uma ONU diferente dessa para fazer ao mundo esse favor – ou a presidência do Banco Mundial?

Sim, senhores! O PT mudou completamente a pauta e, para espanto do mundo se o mundo se interessasse por aquilo que se publica aqui, Barack Obama – ninguém menos! – passou a ser tratado como uma espécie de besta-fera na luta contra um mundo multipolar. Junto quem! Um dos porta-vozes de sempre nos informa que o presidente brasileiro está decepcionadíssimo com seu colega americano… É como se o víssemos a menear a cabeça em sinal de reprovação: “Este rapaz não aprendeu nada! Precisa passar uns dias comigo aqui”.

O desastre das negociações com o Irã se transformou numa suposta luta dos países emergentes contra os cinco do Conselho de Segurança da ONU, que refletiriam, então, um mundo velho, saído dos escombros da Segunda Guerra. E, no entanto, a questão é extremamente simples: bastaria que o Irã permitisse amplo acesso da AIEA a suas instalações nucleares, pondo um fim a seu programa secreto na área. Diga-me, aqui, pelo amor de Deus: se Mahmound Ahmadinjead tivesse aceitado, junto com a troca de urânio, os outros termos da agência, existiria essa conversa de “países emergentes” contra os “donos do poder”?

Mais ainda: trata-se o Irã como se fosse um país qualquer, que estivesse sendo usado pelas potências como mero pretexto para tentar se agarrar ao que lhes resta de seiva, em seu suposto declínio. O Irã? Não há nenhuma causa melhor do que essa no mundo? Lula foi adotar justamente aquele que financia o terrorismo muito além de suas fronteiras, de maneira clara e decidida? Se bem que é preciso reconhecer: o Irã não é única “causa” de Lula. Há também Venezuela, Cuba, Manuel Zelaya…

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A brutalidade da análise não se esgota aí. China e Rússia passaram a defender as sanções, embora não tenham motivos especiais para se subordinar aos EUA, o que, de fato, não fizeram. Os chineses, diga-se, usaram – lá vou eu com um clichê, mas que parece pertinente – a sua milenar sabedoria e defenderam as duas coisas ao mesmo tempo: sanção e negociação. Sabem que a primeira integra o leque de alternativas da segunda.

Que multipolaridade virtuosa seria esse que, na prática, tornaria o mundo menos seguro à medida que abriria caminho para uma corrida nuclear? Ou alguém imagina que os demais países do Oriente Médio se contentariam em ter um vizinho como o Irã com a bomba? “Sanções não vão adiantar”, esperneiam alguns. Talvez não! Então o que seria eficaz? Não sendo a guerra, trata-se de se conformar com a bomba – e com todas as outras que a seguirão. Por que o Brasil tem de ser um “mediador de conflitos” encarregado de demonstrar que o bandido não é assim tão bandido, já o mocinho também tem os seus pecados? Não seria melhor puxar as orelhas do mocinho, então, sem, no entanto, se converter à causa dos bandidos?

Celso Amorim é quem é, mas reconheço a sua competência para pautar energúmenos, que ou caem na sua conversa ou, na hipótese menos virtuosa, dedicam-se à prestação de serviços. E foi ágil, Vazou uma carta de Obama a Lula em que o presidente americano incentiva, sim, a busca do acordo, mas na qual deixa claro que não há saída de o Irã não se submeter às decisões da ONU. E o Irã já disse que não se submete. A carta, no entanto, foi tratada na imprensa nativa como como evidência de uma contradição do presidente americano!

Lula na ONU ou no Banco Mundial? Ele faz, sem dúvida, por merecer. No front externo, a sua grande obra foi ter transformado um pária como Ahmadinejad numa personagem da luta por um mundo multipolar. Mais: se sua iniciativa pró-Irã der certo, estaremos mais perto de uma corrida nuclear. Ele é mesmo o máximo!

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