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Paraná Por VEJA Correspondentes Política, negócios, urbanismo e outros temas e personagens paranaenses. Por Guilherme Voitch, de Curitiba

Leiloeiro aposta em disputa acirrada pelo tríplex do Guarujá

Afonso Marangoni prepara-se para o leilão mais esperado da operação Lava Jato

Por Guilherme Voitch Atualizado em 30 jul 2020, 20h32 - Publicado em 14 mar 2018, 18h11

“Acho que vai ter bastante disputa. O pessoal não vai querer perder.” A avaliação é do leiloeiro Afonso Marangoni sobre o imóvel de veraneio mais conhecido do país e cuja venda está sob sua responsabilidade: o tríplex do Guarujá (SP) que levou à condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a doze anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

O apartamento de 297 m² na praia das Astúrias está avaliado em R$ 2,2 milhões (valor do lance inicial) e foi considerado prova da propina paga pela empreiteira OAS ao petista. A “grande disputa” Marangoni atribui ao significado do imóvel. O palpite de que ninguém vai querer perder o negócio ele reputa à “psicologia do ser humano” — “uma coisa engraçada” para ele, que passou a entender a cabeça de quem compra.

“Leilão é oportunidade. Tem imóvel que é bom, vale a pena. Mas tem o cara que dá o lance pelo orgulho, porque não quer perder para outro. E isso que eles não se conhecem. Os compradores usam apelidos na sala. Só eu e o juiz sabemos as identidades”, conta, em seu escritório de 30 metros quadrados em um prédio comercial no centro de Curitiba.

O tríplex já está anunciado no site de Marangoni e, por volta de 18h30, já somava 1400 acessos de interessados. O leiloeiro diz que visitas no tríplex podem ser agendadas, mas ressalta que todas as informações estão descritas no site. “Está tudo lá, bem completo. Vamos tentar poupar os moradores de muito agito.” Os lances estão abertos até o dia 15 de maio. Antes de cadastrar o imóvel no site, ele diz já ter recebido quatro mensagens de interessados.

Confiança

Aos 65 anos, o catarinense Marangoni é o principal leiloeiro indicado pelo juiz Sergio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, para os bens de envolvidos na operação Lava Jato. Conheceu o mundo dos leilões por intermédio de um amigo, depois de se aposentar, em 2008, da companhia de saneamento do Paraná, onde chegou ao posto de gerente regional. Os planos de continuar na área de saneamento, como consultor, foram deixados de lado. Marangoni tomou gosto pelo rito das disputas online. “É tudo muito transparente e seguro”, garante. Por cada transação, o leiloeiro recebe comissão de 5% calculados sobre o valor da arrematação e pagos por quem venceu a disputa.

  • Em 2012, Marangoni tornou-se um leiloeiro registrado na Junta Comercial do Paraná. Com o currículo debaixo do braço foi à Justiça Federal de Curitiba bater de gabinete em gabinete atrás de trabalho. A estratégia deu certo. No início, Maragoni pegou alguns leilões pequenos. “O pessoal pensa que só leiloamos grandes imóveis e carros de luxo, mas eu fiz leilão até de cerca de arame. A metodologia é a mesma.”

    Já em 2013, Marangoni saltava das cercas de arame para um dos maiores leilões da Justiça Federal no Paraná. O leiloeiro ficou responsável pela venda de um conjunto de imóveis e fazendas confiscadas do traficante mexicano Lucio Rueda Busto. A soma dos lotes chegava a R$ 14 milhões. O leilão dos imóveis de Busto também foi determinado por Moro.

    Marangoni diz ter visto o juiz pessoalmente “pouquíssimas vezes”. Na maioria das situações, o leiloeiro trata com os funcionários do gabinete. A diretora da secretaria, Flavia Maceno Blanco, é quem resolve alguma questão mais séria. O juiz só é chamado em último caso. “Acho que esse é meu trabalho. Eu me orgulho de trabalhar com ele, de ter alguma participação em todo esse processo. Mas faço os leilões e não trago problemas. E por isso ele confia no meu trabalho.”

    Na Lava Jato, sua empresa foi responsável pelo leilão dos imóveis do doleiro Alberto Yousseff em Aparecida (SP), Salvador, Londrina (PR) e no Rio de Janeiro. Em Aparecida, Marangoni vendeu 74 imóveis e conseguiu um incremento de até 10% no valor inicial determinado pela Justiça. A empresa leiloou também a lancha do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, vendida na quarta tentativa. “Leilão difícil. Os compradores estavam receosos com as condições do barco.” No momento, também sob responsabilidade de Marangoni, estão quatro imóveis do ex-ministro José Dirceu, avaliados entre R$ 750 mil e R$ 6 milhões.

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