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O primeiro blog brasileiro com notícias e comentários diários sobre o que acontece na política. No ar desde 2004. Por Ricardo Noblat. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Persistência é a chave 

Empresários otimistas

Por Beth Cataldo
28 dez 2019, 09h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 14h42
  • Os índices de confiança dos empresários e consumidores mostram que a economia brasileira chegou ao final deste ano cercada pelo mesmo ambiente de otimismo que apresentava há pouco mais de um ano, quando o novo presidente eleito se preparava para tomar posse. Naquela altura, o governo Bolsonaro era apenas uma projeção baseada em promessas de campanha. Agora, a onda de otimismo tem uma base mais realista e palpável.

    Um dos termômetros mais seguros para essa avaliação é o Índice de Confiança do Empresário Industrial (Icei) que reflete o ânimo da iniciativa privada em um setor particularmente penalizado nos últimos anos por um desempenho sofrível. Calculado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), o índice do último mês de novembro é praticamente equivalente ao resultado registrado no mesmo mês do ano passado: 62,5 e 63,2, respectivamente. Sempre que ultrapassa o patamar de 50 pontos, o Icei indica confiança do empresariado.

    A curva formada nesses doze meses acompanha os percalços enfrentados para a travessia do primeiro ano de mandato do presidente Jair Bolsonaro, quando predominou na agenda econômica a reforma da Previdência, em meio aos desencontros políticos que geraram instabilidade e incerteza. Em maio deste ano, o Icei chegou ao nível de 56,5 pontos, cravando a marca de quatro meses seguidos de queda na pontuação. Ainda assim o resultado ficou um pouco acima da média história de 54,5 pontos anotada no índice.

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    Esses números indicam que, mesmo no pior momento do nível de confiança dos empresários da indústria depois da posse do governo atual, o Icei manteve-se em terreno positivo. É um quadro bem diferente do pessimismo agudo que predominou entre os empresários do setor nos anos do governo da ex-presidente Dilma Rousseff, a partir de 2013 até o impeachment que a afastou do cargo. Naquele período, o Icei chegou a bater em 36,4 pontos, em novembro de 2015 – muito abaixo, portanto, da média histórica do índice e da fronteira que mede a confiança dos empresários.

    Cenário

    A perspectiva positiva que anima a iniciativa privada neste momento é corroborada pelas estimativas para o próximo ano divulgadas pela CNI nesta terça-feira (17), com destaque para a projeção de crescimento de 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Nessa linha, o PIB industrial deve se elevar em 2,8% enquanto os investimentos – cruciais para a expansão da atividade – podem crescer 6,5%. A avaliação da entidade é que haverá crescimento mais sólido nos próximos 12 meses.

    O cenário benigno completa-se com a previsão de que a taxa de inflação fique em torno de 3,7% em 2020, abaixo da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) pelo quarto ano consecutivo. A Selic, depois de renovar o piso histórico de forma também sucessiva, deve ser mantida na faixa de 4,5% pelo Comitê de Política Monetária (Copom), de acordo com o documento divulgado pela CNI. O contraponto é a modesta previsão de melhoria no índice de desemprego, que deve cair de 11,9% para 11,3% na média anual.

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    Os dados sobre mercado de trabalho, em que pesem as previsões de aumento no rendimento médio real da população e na massa salarial, são os mais desconfortáveis para o governo do ponto de vista político. A permanência de largos contingentes de desempregados desafia o governo a conviver com a insatisfação de segmentos também amplos da sociedade ao longo do ciclo de recuperação da economia – o nível de emprego é justamente o último indicador a ser retomado nesses processos. Não por acaso, a oposição aposta nesse ponto para acirrar o embate com o governo e desgastar a política econômica oficial.

    O ritmo da recuperação será ditado também pelos riscos que se apresentam ao comportamento da inflação, outro aspecto decisivo para a popularidade dos governantes. Ainda nesta terça-feira, a ata divulgada pelo Banco Central sobre a última reunião do Copom adotou um tom cauteloso em relação ao patamar da Selic, levando em conta que o atual grau de estímulo monetário “atua com defasagens sobre a economia” em um contexto de “transformações na intermediação financeira”. Somados, esses fatores podem “elevar a trajetória da inflação no horizonte relevante para a política monetária”.

    Na linguagem cifrada em que as atas do Copom costumam ser redigidas, é possível dizer que o recado foi bastante claro desta vez, tanto que provocaram a rápida elevação das taxas de juros dos títulos públicos negociados no Tesouro Direto. A leitura do mercado financeiro, portanto, é que não se deve esperar novos cortes mais agressivos na taxa básica diante da postura cautelosa adotada pelo Banco Central. Nesse fio da navalha, a condução da política monetária será um dos principais focos de atenção em 2020, condicionando a ambição da aceleração econômica à contenção da inflação dentro dos limites das metas fixadas.

    Mantra
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    A ata do Copom e o documento da CNI com as projeções para o próximo ano reforçam, por fim, o diagnóstico que se tornou um mantra nessa virada de ano: é preciso persistir na agenda de reformas para que seja possível construir um horizonte positivo e duradouro para a economia brasileira. Nas palavras do Banco Central, o risco de elevação da inflação se intensifica no caso de deterioração do cenário externo para economias emergentes ou “eventual frustração em relação à continuidade das reformas e à perseverança nos ajustes necessários na economia brasileira”.

    Para a CNI, mesmo que as expectativas em relação a 2020 comecem em alta, “reformas adicionais precisam ser realizadas para conter, de forma definitiva, o crescimento do gasto público e promover um equilíbrio fiscal duradouro, sem o qual não se alcança o crescimento sustentado”. Na conclusão da entidade, “é fundamental continuar com a marcha das reformas, sobretudo as que visam a eliminação dos entraves que dificultam ou impedem o investimento produtivo”. Nesse ponto, o foco principal é a reforma tributária.

    Beth Cataldo é jornalista do site Capital Político (capitalpolitico.com)

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