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Lava Jato quer se eternizar (por Helena Chagas)

Serra e Lula no foco

Por Helena Chagas - Atualizado em 30 jul 2020, 18h48 - Publicado em 23 jul 2020, 10h00

Em guerra com a PGR e enquadrada pelo Supremo Tribunal Federal, a Lava Jato parece querer voltar a um passado glorioso, aos tempos em que o chefe do Ministério Público se encolhia diante das ameaças de demissão dos procuradores de Curitiba quando eles eram contrariados e em que a maioria dos ministros do STF não tinha coragem de contrariar sentenças do juiz 13a Vara Federal, Sergio Moro. Mas as coisas mudaram. Nos últimos dois anos, a operação sofreu seguidos desgastes — da revelação de mensagens impróprias dos procuradores e do juiz pelo site The Intercept e outros veículos ao questionamento de métodos lavajatistas pelo próprio STF. Teve também sua credibilidade abalada com a ida de seu principal comandante para o Ministério da Justiça de Jair Bolsonaro.

Coincide com a estrepitosa saída de Moro do governo, e as especulações sobre sua possível candidatura à presidência, essa tentativa de ressurreição da Lava Jato. A força tarefa de Curitiba e suas filiais passaram a desenterrar investigações antigas que, no auge da operação, foram deixadas de lado — ou por envolverem personagens que não se queria fulminar no momento, ou por tratarem de crimes considerados menores, como o caixa 2.

A operação que atingiu o senador e ex-governador José Serra pela segunda vez em menos de um mês é exemplo disso. Mobilizou 70 agentes da PF na manhã da segunda para correr atrás de elementos sobre o suposto pagamento de R$ 5 milhões para a campanha de Serra ao Senado em 2014. A Lava Jato já tinha informações que deram base à operação há cerca de três anos, desde a delação premiada do empresário Joesley Batista. Por que resolveu só ir a campo agora é um mistério. Também não se sabe o que os investigadores esperavam encontrar nas diligências nas residências e no gabinete do senador, onde acabaram barrados. Registros de uma campanha de seis anos atrás?

Vai ficando claro, contudo, onde a Lava Jato quer chegar com a prisão do empresário José Seripieri Filho, o Junior, fundador do grupo Qualicorp, suspeito de ter doado o dinheiro a Serra. Fiel aos métodos que implantou — como a prisão para pressionar o sujeito a falar — parece ambicionar nova e bombástica delação premiada, já que as antigas se esgotaram. A Lava Jato quer munição nova, e não apenas contra o PSDB, alvo dos últimos dias — possivelmente para tentar mostrar que não, não perseguiu o PT. Junior, sabe-se, sempre teve também boas relações com os governos petistas. Às vésperas do julgamento, pela Segunda Turma do STF, de um recurso do ex-presidente Lula pedindo anulação da sentença do triplex do Guarujá sob alegação de parcialidade de Moro, não seria mau, para Curitiba, botar as mãos em nova delação mencionando o ex-presidente — apontado pelo também delator Antônio Palocci como próximo do empresário.

Não é provável que consigam. A prisão de Seripieri por crime de caixa 2 dificilmente se sustenta. E já não há, entre as instituições, aquele medo generalizado da Lava Jato. O presidente do Supremo, Dias Toffoli, mostra isso quando autoriza o PGR Augusto Aras a recolher os dados das investigações que os procuradores de Curitiba se recusavam a compartilhar. Reafirma com a liminar que, a pedido do presidente do Senado, impediu a busca e apreensão no gabinete de Serra.

O tempo não volta. A Lava Jato tenta ocupar espaço e eternizar-se — e, quem sabe, fazer parte do patrimônio eleitoral de Moro —, mas não terá mais aquele apoio que levou muita gente às ruas para defendê-la nos idos de 2015 e 2016. Até porque todo esse pessoal, hoje governado por Jair Bolsonaro, viu no que deu.

 

 

Helena Chagas é jornalista

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