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Justiça às favas

Ainda que tenha potencial para barrar a pretensão de Lula, o processo que o TRF-4 julga agora dificilmente o impedirá de disputar as eleições de outubro

Por Mary Zaidan 7 jan 2018, 10h00 | Atualizado em 7 jan 2018, 10h00
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Nelson Marchezan prefeito de Porto Alegre
Nelson Marchezan prefeito de Porto Alegre (PSDB/Divulgação)

Inconstitucional e impróprio, o pedido feito pelo prefeito Nelson Marchezan Júnior de proteção das Forças Armadas diante das manifestações previstas para Porto Alegre no dia 24, quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) inicia o julgamento do recurso contra a condenação do ex Lula, empolgou o PT.

Deu vida e publicidade a um calendário de atos que ficaria restrito a fiéis e aos movimentos autodenominados populares, permitindo mais eco ao que o partido faz de melhor: construir verdades que contrariam os fatos e fomentar o ódio como se pregasse a paz.

A reação do PT à asneira do alcaide tucano é um dos pontos de destaque de um comunicado oficial, divulgado na quinta-feira. “Se paira alguma ameaça sobre os cidadãos de Porto Alegre, é o autoritarismo do prefeito, evocando fantasmas de um tempo de exceção e de arbítrio”. Um exagero de forma e conteúdo, ainda que o prefeito eleito no ano passado tenha tropeçado feio.

A interpretação forçada é de pequena monta se comparada com outros trechos do documento, cujo mote é a convocação para as “jornadas” em defesa do ex-presidente Lula. Já na primeira linha o PT expõe sua visão particular de democracia, limitando-a aos apoiadores do ex.

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No mesmo parágrafo, o partido desacata o juiz Sérgio Moro, que condenou Lula a nove anos e meio de prisão no caso do triplex do Guarujá, considerando a “sentença injusta e ilegal”. Como parte das repetidas investidas na falácia de que Moro persegue Lula, que a Lava-Jato persegue Lula, que todos conspiram contra o ex.

Mais do que desrespeito a um juiz, trata-se de uma nova demonstração de desapreço à Justiça.

Assim como querem fazer crer que eleição sem Lula seria fraude, a ideia que insistem em emplacar é a de que a Justiça só será usta se livrar Lula. Do contrário é tribunal de exceção, nos moldes da ditadura, etc. e tal.

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O trecho mais intrigante do comunicado é o que explica os objetivos das manifestações. Todo o cronograma foi montado “em defesa da democracia e do direito de Lula ser candidato a presidente da República, até porque ele não cometeu nenhum crime e porque sua candidatura expressa a vontade da maioria do povo”. Ora, que democracia é essa que, antes das urnas, diz que um candidato já teria conquistado a vontade da maioria?

TRF4 julgamento ao vivo
Tribunal Regional Federal da 4 Região (Divulgação/Divulgação)

Ainda que tenha potencial para barrar a pretensão de Lula, o processo que o TRF-4 julga agora dificilmente o impedirá de disputar as eleições de outubro.

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Mesmo que seja confirmada a sentença de Moro – e a intensidade do cronograma montado pelo PT parece indicar que poucos creem em absolvição -, há a fase de embargos. E ainda existe a possibilidade de que o Supremo reverta a sua decisão anterior de que a pena pode ser cumprida a partir da condenação na segunda instância. O tema volta a ser debatido após o Carnaval.

Isso posto, a Justiça, instituição que Lula e o PT demonizam agora, seria a única capaz de salvar a pele do ex. Então, qual o sentido e o porquê da insistência em desmoralizá-la?

Uma lógica destoante da alegada inocência, em especial para quem ainda tem outros cinco processos em curso.

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O documento termina com a convocação de uma reunião ampliada da Executiva Nacional do PT para o dia 25, com o intuito de reafirmar a candidatura de Lula à Presidência. Previamente, anuncia-se que o partido não tem intenção de acatar uma eventual sentença dos juizes João Pedro Gebran Neto, relator da Lava Jato no TRF-4, Leandro Paulsen e Victor Luiz dos Santos Laus, membros da 8ª Turma da Corte.

Se for absolvido nesta etapa, Lula continuará disputando votos dependurado em processos criminais. Se confirmada a condenação, vai se somar às tristes estranhezas deste país, único que tem no cargo um presidente duplamente denunciado por corrupção e um candidato a presidente condenado pelo mesmo crime. E que manda a Justiça às favas.

Mary Zaidan é jornalista

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