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Bombas de balde: quando o terrorismo “funciona”; ou não

Fanáticos que exigem o absoluto, como o domínio mundial do Islã fundamentalista, não conseguem nada, mas são mais disseminados

Por Vilma Gryzinski Atualizado em 30 jul 2020, 20h45 - Publicado em 16 set 2017, 09h48

O quarto atentado do terrorismo islamista do ano na Inglaterra foi praticamente um fracasso. A bomba tosca, com explosivos colocados num balde de plástico e detonador de luzinhas de natal, não atingiu o potencial desejado.

Deixou “apenas” 29 pessoas com ferimentos comparativamente leves, entre os que tiveram corpos e cabelos queimados na explosão ou foram pisoteados na correria no metrô lotado.

Quebrando o protocolo e a lei do silêncio habitual nesses casos, Donald Trump disse que os autores eram conhecidos da Scotland Yard.

É muito provável que esteja certo: existem atualmente 600 investigações sobre terrorismo em andamento. A informação foi dada no começo do mês por Neil Basu, o chefe de operações de contra-terrorismo da polícia londrina, conhecida como Met Police.

Falando com franqueza além da costumeira, talvez por estar numa palestra a colegas, Basu, que é de família indiana, disse que houve uma mudança de paradigma, não um pico fora da curva, no terrorismo autóctone.

No resumo dele, o jihadismo doméstico vem do ensino não regulamentado, eufemismo para escolas islâmicas à margem dos controles oficiais, floresce em “comunidades isoladas” e deve continuar no futuro próximo.

MÃO NEGRA

O que leva a uma questão mais ampla: o que leva o terrorismo refluir?

De modo geral, os exemplos históricos indicam que o terrorismo praticado em nome de causas nacionais, portanto exequíveis na maioria dos casos, é o que mais tende a “funcionar” e, depois, desaparecer. Alcançado o objetivo de independência ou autonomia, perde a razão de ser.

O atentado terrorista com mais consequências foi o que matou o herdeiro do Império Austro-Húngaro, desencadeando a I Guerra Mundial e a transformação do mapa da Europa.

Foi praticado por nacionalistas sérvios guiados por uma das mais sinistras organizações secretas de todos os tempos, a Mão Negra.

O autor dos tiros fatais, Gavrilo Princip, condenado a prisão perpétua, morreu de tuberculose pouco antes do fim da guerra que, ironicamente, com seus 40 milhões de mortos, redundou na independência da Sérvia. O nacionalismo e o desejo de independência iam além da Mão Negra.

Os carbonários portugueses que mataram o rei Carlos I e o príncipe herdeiro Luis Filipe em 1908 também não viveram para ver a monarquia acabar e a causa republicana vencer apenas dois anos depois. É claro que as circunstâncias histórias já estavam prontas para a mudança e o movimento republicano tinha um apelo forte.

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Nos Estados Unidos, ao contrário, o assassinato do presidente William McKinley, em 1901, fora o choque nacional, não mudou nada. Não era exatamente viável derrubar a república americana.

O homem que acertou dois tiros no presidente, Leon Czolgosz, foi um dos muitos autores de atentados a bala ou bomba cometidos em nome do anarquismo entre o fim do século 19 e o início do 20. Os casos mais momentosos incluíram os assassinatos do czar Alexandre II, do presidente francês Sadi Carnot e de Elizabeth, a imperatriz da Áustria conhecida como Sissi.

Por defender uma causa de ambição quase sem limites, incluindo a extinção dos entes estatais e das hierarquias político-sociais (além da propriedade), o anarquismo, que chegou a competir com o comunismo como ideologia revolucionária, murchou e desapareceu.

ALTO IMPACTO

Mas manteve o apelo, de grande poder justamente por exigir o impossível, durante décadas. A ideologia que move o fundamentalismo muçulmano tem um poder de mobilização comparável com seus propósitos maximalistas: unificar todos os países muçulmanos num grande califado regido pelas leis religiosas originais e um líder só.

E, em última instância, levar o Islã triunfante a conquistar militarmente “cruzados” e “idólatras”: Estados Unidos, Europa, Rússia, Índia e China.

O aspecto delirante explica a tendência do extremismo islâmico a recrutar militantes desajustados, desequilibrados e marginais, muitas vezes saídos do mundo da criminalidade, entre os descendentes de imigrantes muçulmanos nos países ocidentais, onde são minoritários.

Fabulam revanches atropelando famílias na calçada ou explodindo crianças num show de música. É um terrorismo de alto impacto pelo choque civilizacional que representa, mas que nunca vai “funcionar”.

As bombas em balde ou os esfaqueadores, por mais que se repitam e até provoquem retaliações como o atropelamento perto da mesquita de Finsbury Park, não vão fechar o Parlamento. Nenhum califa vai residir no palácio de Buckingham.

Os terroristas de nível educacional superior, com maior capacidade de operar em organizações complexas e concatenar atentados sofisticados, costumam ser originários de países muçulmanos.

Disputam partidários numa plataforma majoritária e lutam pelo poder real. Funcionam como o equivalente a partidos políticos. Por isso, os conflitos internos em países muçulmanos como Síria, Iraque e Líbia, entre outros, envolvem grandes contingentes humanos e são de violência extrema e generalizada.

Enquanto a conquista dos infiéis não chega, há muitos candidatos a califas regionais. O terrorismo “funciona”. Tanto o interno, para apavorar a população e mostrar a fraqueza do inimigo, quanto o externo, equivalente a uma projeção de poder.

Adolescentes ressentidos que explodem bombas caseiras em Londres ou atropelam pedestres em Barcelona são a carne de canhão desses califas de araque.

 

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