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Matheus Leitão Blog de notícias exclusivas e opinião nas áreas de política, direitos humanos e meio ambiente. Jornalista desde 2000, Matheus Leitão é vencedor de prêmios como Esso e Vladimir Herzog

Quarentena malfeita atrasa reabertura de escolas, afirma educadora

A volta do comércio trouxe a sensação de normalidade, mas como a pandemia ainda não acabou, quem pagará a conta será a educação 

Por Matheus Leitão - Atualizado em 10 set 2020, 07h59 - Publicado em 10 set 2020, 07h56

A quarentena malfeita no Brasil, que permitiu a reabertura do comércio sem o controle da curva de contágio do coronavírus, atrasou ainda mais a volta segura às escolas, provocando uma imensa perda para a educação no país. Essa é a visão de Priscila Cruz, presidente da ONG Todos pela Educação. Para ela, a questão não é apressar a reabertura das escolas, mas adotar medidas eficazes de contenção à pandemia e permitir que os alunos possam retornar às aulas.

Em entrevista à coluna, a especialista alerta para o fato de que algumas escolas simplesmente “jogaram” o trabalho para o ano que vem. Ela ressalta ainda que é preciso manter o ensino remoto, principalmente em função de alunos de baixa renda, que já estão distantes, em termos educacionais, de estudantes de classes mais altas. Leia o que diz Priscila Cruz nesta entrevista:

Veja – Você afirmou que o país vai pagar caro por ter aberto primeiro os bares e manter as escolas fechadas. O que quer dizer com isso?

Priscila Cruz – Aqui é preciso esclarecer que a premissa para a volta às aulas é o controle da pandemia. Ao termos optado pela reabertura do comércio ainda com a pandemia em crescimento, atrasamos a queda na curva epidemiológica e, portanto, a reabertura das escolas ficou despriorizada. Países com boas notas no PISA abriram as escolas antes, como Singapura e Dinamarca, ou simultaneamente ao comércio. Em comum, em todos eles, a opinião pública apresentou resistência moderada ou alta. Assim, não se trata de aligeirar a abertura. Nesses países mais desenvolvidos, a reabertura das escolas se deu com a curva de contágio em fase decrescente ou estabilizada em níveis não elevados. Quando houve abertura com curva ascendente (África do Sul) foi necessário novo fechamento. Na quarentena malfeita do Brasil, e consequente atraso no enfrentamento da epidemia, estamos ganhando no ranking de países com mais tempo de escolas fechadas.

Veja – Na sua visão, está na hora de abrir as escolas? O que tem custo social maior: manter fechadas ou abrir?

Priscila Cruz – Como a variável fixa é o controle da epidemia, é baixar muito ainda o patamar de contágios e mortes, o primeiro a fazer é justamente um controle mais rigoroso dos meios de contaminação; uma quarentena mais eficiente. Mas uma vez que o comércio está todo aberto, que a vida está tomando, cada vez mais, um ar de normalidade, a pandemia vai demorar para entrar num patamar bem mais baixo. A conta será paga pela educação, com a suspensão das aulas presenciais e insegurança de famílias e professores de retornarem para a rotina escolar. Isso não significa, entretanto, que planejamento para o retorno, que os esforços de preparação, protocolos, medidas sanitárias e pedagógicas devam ficar em segundo plano ou até adiados para 2021, como anunciado por alguns municípios e estados. Alguns deixaram até de trabalhar por conectividade dos alunos e aulas remotas. Simplesmente jogaram para o ano que vem, anunciando que 2020 será compensado em 2021. Ora, não me parece nada razoável desistir dos alunos, especialmente dos mais pobres, que estão numa situação de insegurança alimentar muito maior, com menos (ou nenhuma) exposição à aprendizagem, distanciando-se ainda mais em termos educacionais dos alunos de renda mais alta, com altíssimo potência de evasão.

Veja – O que pais e educadores devem pensar com o fato de as escolas estarem fechadas há seis meses? 

Priscila Cruz – O melhor a fazer agora é colocar muita energia no ensino remoto (para mitigar, não resolver esse tempo de afastamento físico), garantir que chegue a todos com subsídios necessários para a aquisição de conexão e equipamento; planejar o retorno às aulas presenciais: avaliação de aprendizagem, formação de professores, medidas sanitárias (especialmente higienização constante da escola e das pessoas), medição de temperatura, distanciamento social (distanciamento físico, diminuição do número de estudantes por sala e alternância de horários de entrada e saída) e uso obrigatório de máscaras. Se possível, prevalência de testagem em massa nas escolas, bem como da vacinação. Também é importante o preparo para o monitoramento, contenção dos casos isolados e planos de contingência. Na Alemanha e França houve fechamento pontual de escolas, um percentual pequeno da rede. Um ponto importantíssimo é a comunicação e transparência dos governos. Comunicação como instrumento de gestão e engajamento, não apenas pronunciamentos públicos. A boa comunicação tem sido um elemento presente em todos os países com retorno satisfatório. Por fim, políticas específicas para os profissionais que estão nos grupos de risco (Dinamarca e Nova Zelândia são bons exemplos). Como é possível observar, são muitas as providências a serem tomadas. O simples anúncio de retorno em 2021 distensiona a gestão para a elaboração e cumprimento de tantos protocolos, acordos e providências. A perda para a educação será gigantesca. Não podemos admitir bandeiras simplistas em questão tão complexa e definidora do futuro desses alunos e também do país.

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