Os desdobramentos da operação Acaba Lava Jato
Depois de várias tentativas de enfraquecer a força-tarefa, Aras, o procurador-geral de Bolsonaro, finalmente acaba com a força tarefa

O procurador-Geral de Jair Bolsonaro finalmente fez o que o presidente queria: acabar com a Lava Jato. Uma portaria da Procuradoria Geral da República (PGR) transferiu cinco procuradores da operação para o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), enquanto outros dez atuarão em casos específicos. Com isso, a força-tarefa que mais realizou prisões e recuperou recursos públicos desviados em esquemas de corrupção, mas que também teve uma longa lista de polêmicas, chega ao fim.
Um desdobramento da operação Lava Jato é o de tentar tirar do ex-ministro Sergio Moro o que ele poderia vir a explorar como legado, em caso de disputar a presidência da República. O encerramento da operação sempre foi o objetivo de Augusto Aras, sinalizado por ele ainda quando era candidato ao posto de procurador-geral. Bolsonaro comemora porque, na verdade, o combate à corrupção ameaça seus filhos e aliados. Ele usou a bandeira anticorrupção de forma eleitoreira.
Por ter sido o principal juiz atuante na Lava Jato, acabou escolhido pelo presidente para ser ministro da Justiça, para assim reforçar a farsa eleitoral. No entanto, ao ver de perto as intenções de esvaziamento da operação e as tentativas de interferência na Polícia Federal, Moro pediu demissão e passou a ser cotado como um possível candidato para 2022, o que pode tirar parte do eleitorado de Bolsonaro.
Ainda que não declare abertamente as intenções de disputar a presidência da República em 2022, e que suas últimas escolhas profissionais tenham atrapalhado o projeto, o ex-magistrado sempre aparece nas listas de apostas de futuros candidatos. Seu nome surge justamente pelo trabalho desenvolvido na Lava Jato. O ápice de sua atuação foi a prisão do ex-presidente Lula, fator decisivo para o cenário eleitoral de 2018.
Agora, com o fim da operação e o peso que a força-tarefa dava a Moro, é possível que ele perca capital político. Afinal, sem a Lava Jato realizando novas prisões, apreensões e recuperando recursos públicos desviados, o tema se esvai.
Há quem avalie, no entanto, que o ato de Aras pode soar justamente de forma contrária. Demonstra o quanto o procurador de Bolsonaro (Aras odeia ser chamado assim, mas faz por onde) trabalha para desfiar a bandeira anticorrupção e revelar ainda mais sua subserviência ao presidente. O procurador-geral da República acaba conivente com atitudes que enfraqueçam o papel da própria instituição.
A Lava Jato começou em 2014 e se desdobrou em 79 fases. Mais de 130 denúncias foram apresentadas contra 533 acusados, sendo 174 pessoas condenadas pela Justiça. Foram recuperados mais de R$ 4,3 bilhões.