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Os quatro motivos que fazem Abraham Weintraub balançar no cargo

Aproximação de Bolsonaro com o Centrão, polêmica com o Enem, má relação com o Congresso e xingamentos ao STF enfraquecem ministro da ala ideológica

Por André Siqueira - Atualizado em 19 maio 2020, 14h48 - Publicado em 19 maio 2020, 11h36

A nomeação de um assessor do PL, partido do chamado Centrão e sigla do ex-deputado federal Valdemar da Costa Neto, condenado e preso no escândalo do mensalão, para comandar um posto importante do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), uma das mais importantes do órgão, é o capítulo mais recente do processo de enfraquecimento do ministro da Educação, Abraham Weintraub, no cargo.

Além disso, a discussão sobre o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), a relação conturbada do titular da pasta com o Congresso e a divulgação do vídeo da reunião ministerial do dia 22 de abril são outros fatores que explicam por que Weintraub balança em seu posto. Veja abaixo quatro fatores que enfraquecem o ministro no cargo.

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1. Cargos cedidos ao Centrão

Nesta segunda 18, o Diário Oficial da União (DOU) trouxe a nomeação de Garigham Amarante Pinto, assessor do PL na Câmara e homem de confiança de Valdemar da Costa Neto, para a Diretoria de Ações Educacionais do FNDE. Como mostra o Radar, a presidente do órgão, Karine Silva dos Santos foi avisada recentemente por Weintraub de que perderá o cargo para um indicado do senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional da sigla e outro líder do Centrão.

Weintraub, membro da chamada ala ideológica do governo, que tem um discurso contrário à prática do “toma lá, dá cá” na relação entre Executivo e Congresso, resistia à investida dos partidos do Centrão, mas teve que ceder ao poder da caneta presidencial. O presidente Jair Bolsonaro havia deixado claro que ministro que se opusesse a entregar cargos ao bloco partidário seria demitido.

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2. Adiamento do Enem

Em uma reunião de líderes do Senado na terça-feira 5, Weintraub defendeu a manutenção da realização das provas nos dias 1º e 8 de novembro (versão presencial) e 22 e 29 de novembro (versão digital) e foi criticado por parlamentares que enxergam prejuízo a estudantes que não têm como estudar online nesse período de quarentena contra o coronavírus.

Na ocasião, o ministro afirmou que o Enem não foi feito para corrigir “injustiças”. A declaração gerou repercussão negativa entre os senadores. “Acho que o ministro radicalizou. Ninguém quer eliminar ou cancelar o Enem. Queremos prorrogar para o início de fevereiro, final de janeiro. O prejuízo é imenso, 70% dos alunos não têm acesso à internet, as escolas não estão preparadas para educação à distância. É lamentável”, disse a VEJA o senador Izalci Lucas (PSDB-DF), vice-líder do governo no Senado.

Na quarta-feira 13, porém, Bolsonaro afirmou, na saída do Palácio da Alvorada, que as provas poderiam ser adiadas “um pouco”, contrariando a postura adotada por Weintraub. Como VEJA mostrou, dois fatores são apontados como preponderantes para a súbita guinada do discurso: o diálogo entre o presidente e parlamentares do chamado Centrão e a influência das redes sociais no Planalto.

Na reunião de líderes desta segunda-feira 18, o Senado incluiu na pauta de votação desta terça-feira, 19, o projeto de lei da senadora Daniela Ribeiro (PP-PB) que prevê a prorrogação de “provas, exames e demais atividades para o acesso ao ensino superior “, por causa da pandemia da Covid-19

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“[A discussão sobre o adiamento do Enem] É um tema atual. Apesar do ceticismo do TSE, as eleições municipais de outubro deste ano estão sendo rediscutidas, porque não há segurança para mandar as pessoas para a rua. É um tema delicado, mas que precisa ser avaliado”, disse a VEJA o senador Eduardo Gomes (MDB-TO), líder do governo no Congresso. O senador evitou fazer um prognóstico sobre a probabilidade de o texto ser aprovado, mas disse que Weintraub admite encontrar uma nova data para o exame diante da “imperiosa força da realidade”.

3. Relação com o Congresso

A interlocução com a Cãmara e o Senado também pesa contra o titular do Ministério da Educação. Integrantes da Frente Parlamentar da Educação e outros setores do Congresso se queixam da postura de Weintraub, tido por parlamentares como “provocador” e “raso”.

Secretário-geral da bancada da educação e autor de um projeto que trata sobre o adiamento do Enem, o deputado federal Israel Batista (PV-DF), que é professor, critica o ministro. “Na Câmara, houve um estresse na relação com Weintraub. As visitas dele ao Parlamento foram sempre muito tensas, marcadas por provocações. Ele agregou deputados de diversos espectros políticos contra si, há uma certa unanimidade de que ele usa diversionismos para se preocupar apenas com a gestão técnica”, disse Batista a VEJA.

4. Ataques ao STF

O vídeo da já célebre reunião ministerial do dia 22 de abril pode complicar ainda mais a situação de Weintraub à frente do Ministério da Educação. Como VEJA mostrou, ele afirmou que os ministros do Supremo Tribunal Federal deveriam ser presos. O material é considerado peça fundamental do inquérito que apura suposta tentativa de interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal.

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O decano da Corte, ministro Celso de Mello, começou a assistir o vídeo da reunião na tarde desta segunda-feira. Em nota, o magistrado afirmou que decidirá até sexta-feira 22 se levanta parcial ou totalmente o sigilo da gravação.

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