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José Casado Por José Casado Informação e análise

Conflito com STF e Congresso racha redutos eleitorais de Bolsonaro

Tática de Bolsonaro para conflito com Congresso e Judiciário provoca divisão entre caminhoneiros e empresários do agronegócio, que o apoiaram em 2018

Por José Casado Atualizado em 17 ago 2021, 04h23 - Publicado em 17 ago 2021, 09h00

Fissuras importantes estão acontecendo em redutos eleitorais de Jair Bolsonaro, que transformou o conflito com o Judiciário em peça de marketing da reeleição.

Desde a eleição de 2018 não estava tão nítida a divisão entre empresários do agronegócio e de transporte de cargas, segmento que inclui caminhoneiros autônomos, quanto à forma e o conteúdo das manifestações de apoio ao governo.

O racha no campo começou com entrega da Secretaria de Assuntos Fundiários a Nabhan Garcia, líder radical de uma facção dos ruralistas do Oeste de São Paulo. Evoluiu dentro da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e resultou na saída, no ano passado, de um grupo de produtores de soja. Agora, são esses agricultores que se dividem.

A Abag surgiu há três décadas do empenho de Ney Bittencourt Araújo, herdeiro da Agroceres, fascinado pela genética e pelo conceito de “agribusiness” desenvolvido na época pela dupla Ray Goldberg e John Davis, professores da escola de negócios de Havard (EUA). Associando empresas de toda a cadeia de produção, comércio e finanças de commodities agrícolas, se consolidou como moderno grupo de lobby setorial.

Esse grupo do agronegócio se manteve unido na eleição de Bolsonaro, em 2018, e se dividiu quando o governo avançou para o extremismo antiambiental, com incentivos indiretos ao avanço do desmatamento no Cerrado e na Amazônia para expansão da fronteira agrícola.

Uma proposta moderada da Abag para contenção dos incêndios, desmatamento e grilagem de terras públicas na Amazônia serviu de pretexto para a saída de sojicultores agrupados numa outra entidade, Aprosoja, com representação em 16 Estados.

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Desde então, a Aprosoja virou uma espécie de canal rural de ativistas do bolsonarismo. Em maio, ajudou a organizar e financiar um comício do presidente-candidato em Brasília. Nem todas as sucursais concordaram em participar do caixa, o que levou Bolsonaro a recorrer ao presidente da entidade, Antonio Galvan.

Gaúcho de Sananduva (RS), produtor em Vera, no norte do Mato Grosso, Galvan na época listou ao repórter Mauro Zafalon, da Folha, algumas das razões para o patrocínio da mobilização político-eleitoral de Bolsonaro: a luta contra as restrições à circulação de pessoas por causa da pandemia, contra o voto “não auditável” em 2022 e contra “interferências” do Supremo Tribunal Federal nos atos do governo.

O comício marcou a estreia do ministro da Defesa, Walter Braga Netto, num palanque da campanha de reeleição de Bolsonaro. “O agro é a força desse país. As Forças Armadas estão [prontas] para proteger os senhores” — discursou para a multidão no gramado em frente ao Congresso, que pedia intervenção militar e fechamento do Supremo.

Bolsonaro é o estuário para o qual convergem produtores de soja liderados por Galvan em aliança com pecuaristas comandados por Nabhan Garcia, o radical ruralista, secretário de Assuntos Fundiários. Apareceram unidos, agora, num projeto aparentemente mais ambicioso, o da paralisação do país, com apoio de empresas de transporte e caminhoneiros autônomos, na primeira semana de setembro. Galvan chegou a participar de pelo menos uma reunião preparatória.

Entre os sojicultores, porém, aumentou a divisão, porque nem todos se dispõem a aceitar a transformação da Aprosoja numa espécie de comitê de campanha eleitoral do presidente-candidato. Um dos líderes do veto é o maior produtor e exportador de soja, Blairo Maggi, ex-ministro da Agricultura no governo Michel Temer: “Ele [Galvan] fala como se o setor inteiro apoiasse [Bolsonaro], e isso não é verdade. Não podemos defender pautas do presidente, mas sim bandeiras da nossa categoria.”

O projeto de agitação, propaganda e paralisação nacional em setembro também divide transportadores de carga. O núcleo da Associação Nacional dos Transportadores, por exemplo, se recusa a participar por razões similares às dos sojicultores liderados por Maggi, a escassez de representatividade de interesses coletivos. No caso dos caminhoneiros a prioridade, hoje, é a redução de tributos e de preços de combustíveis — coisas que o candidato Bolsonaro pode até prometer, mas o desequilíbrio nas contas públicas impede de realizar.

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