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José Casado Por José Casado Informação e análise

Cena baiana condiciona o balé eleitoral para o voto ‘BolsoNeto’

ACM Neto nega impulso ao "BolsoNeto" na Bahia, com ajuda de Malafaia, a quem entregou o DEM no Rio. Bolsonaro lembra: "A gente nunca fecha a porta"

Por José Casado Atualizado em 10 ago 2021, 13h44 - Publicado em 10 ago 2021, 09h30

Presidente do partido Democratas, Antonio Carlos Magalhães Neto escreveu uma nota, ontem, negando a existência de “qualquer tipo de acordo com Bolsonaro para 2022”, intermediado pelo televangelista Silas Malafaia, líder da fração neopentencostal Vitória em Cristo. A ideia, disse, “é lançar candidato à presidência”.

A prioridade de ACM Neto para o próximo ano não é o Palácio do Planalto, mas a disputa contra o PT na Bahia, que há década e meia detém a hegemonia eleitoral no governo estadual, nas bancadas legislativas e em 410 dos 417 municípios que compõem o quarto colégio eleitoral do país. Como dizia seu avô, Antônio Carlos Magalhães, não existe político de influência nacional sem uma sólida base local.

A cena baiana condiciona os movimentos do presidente do DEM na aliança “BolsoNeto”, pois é grande a desvantagem de Bolsonaro nas pesquisas estaduais — com rejeição próxima de 70%.

Na segunda semana de junho, depois de oficializar a expulsão do deputado Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara que se tornou adversário do governo, ACM Neto foi conversar com Malafaia, que atualmente é o ativista radical religioso mais próximo de Bolsonaro. Estava acompanhado do deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ), disciplinado aliado de Malafaia.

A conversa deu ritmo ao balé político de ACM Neto com Bolsonaro, em cujo governo já contava com três ministros: Tereza Cristina (Agricultura) e Onyx Lorenzoni (Trabalho), ambos filiados ao DEM, e seu antigo chefe de gabinete na Prefeitura de Salvador, João Roma, a quem havia alojado no Republicanos, controlado pela Universal, de Edir Macedo.

Três dias depois, Malafaia e Sóstenes relataram a Bolsonaro o progresso nos entendimentos com o presidente do DEM, durante viagem ao Pará para celebração dos 110 anos da Assembleia de Deus, conglomerado de igrejas autônomas e de relações rarefeitas, reconhecido como uma das maiores denominações cristã evangélica pentecostal (13 milhões de fiéis, segundo o IBGE).

O deputado Sóstenes Cavalcante (esquerda), agora presidente do DEM no Rio, Bolsonaro e Silas Malafaia, líder da fração neopentencostal Vitória em Cristo, no Pará, em junho —
O deputado Sóstenes Cavalcante (esquerda), agora presidente do DEM no Rio, Bolsonaro e Silas Malafaia, líder da fração neopentecostal Vitória em Cristo, em viagem ao Pará, em junho — Reprodução/VEJA

Sóstenes é um expoente do ativismo neopentecostal na Baixada Fluminense. Ascendeu na política com o auxílio de Malafaia e de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara. Chegou à Câmara em 2015, a bordo de 104 mil votos, pelo PSD de Gilberto Kassab que integrava a base parlamentar do governo Dilma Rousseff. Passou ao DEM no ano seguinte, no governo Michel Temer.

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Teólogo, optou pela defesa sem estridência de uma pauta conservadora na Câmara. Ameaçou abandonar o partido em abril, quando ACM Neto anunciou a criação de um núcleo (“Democratas Diversidade”) para promoção dos direitos civis de minorias discriminadas por sexo, religião e cor da pele.

Com os casos de Sóstenes e de Maia, ACM Neto viu-se diante de uma dupla crise no DEM do Rio, que é o terceiro maior colégio eleitoral do país e epicentro do bolsonarismo (na média das pesquisas, seis em cada dez evangélicos fluminenses gostariam de ver Bolsonaro reeleito).

O presidente do DEM escolheu transformar o problema numa oportunidade para ampliar alianças relevantes ao seu projeto para a Bahia. Entendeu-se com Bolsonaro via Malafaia, a quem entregou o partido no Rio, via Sóstenes.

Na semana passada, sem aviso, fez uma intervenção no diretório do DEM no Rio, presidido pelo vereador Cesar Maia, pai do deputado Rodrigo, ex-prefeito da capital e candidato ao governo estadual no próximo ano.

Sóstenes assumiu a presidência e a tesouraria do partido. A comissão executiva foi dividida entre um irmão de Malafaia; o filho do televangelista Romildo Ribeiro Soares, o R.R. Soares da Internacional da Graça de Deus; e, o vice-prefeito licenciado de Nova Iguaçu, Rogério Teixeira Junior, secretário de Transportes do governo Claudio Castro, principal aliado de Bolsonaro no Estado.

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Reprodução/VEJA

ACM Neto avançou no balé eleitoral com Bolsonaro, ampliou o espectro de alianças anti-PT na Bahia e deu uma guinada no rumo do DEM.

O partido de centro-direita, consolidado há 36 anos como reduto de defesa do liberalismo — na origem, chamava-se Partido da Frente Liberal (PFL) —, agora abriga frações radicais do ativismo neopentecostal, que se expandem na esteira do televangelismo da teologia da prosperidade. Elas são afinadas com a militância bolsonarista, como tem mostrado Malafaia nos comícios do presidente-candidato.

Ontem, em entrevista à rádio Brado, de Salvador, Bolsonaro foi em relação a ACM Neto: “Não existe nenhum acordo entre nós (…) Sou político, a gente nunca fecha a porta. Está se afunilando a questão das eleições do ano que vem e, até março, tem que estar tudo mais ou menos acertado”.

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