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‘Uma Segunda Chance para Amar’: nem tão convencional assim

No filme do diretor de 'Missão Madrinha de Casamento', Emilia Clarke e Henry Golding formam um par que é uma graça

Por Isabela Boscov - Atualizado em 10 dez 2019, 11h03 - Publicado em 29 nov 2019, 06h00

Kate (Emilia Clarke) é dada a beber demais, transar com qualquer um, decepcionar a família, dar nos nervos da irmã responsável, abusar da boa vontade dos amigos e nunca perder a chance de uma tirada espirituosa. Como uma versão loirinha e miúda de Fleabag, a protagonista da série cômica que fez história nesses dois últimos anos, Kate também deixou de cumprir as promessas que se anunciavam para ela, e se aborrece em um emprego que não leva a lugar nenhum: sob o disfarce da vivacidade, ela está em crise existencial. Sua mãe (Emma Thompson), uma sorumbática emigrada da antiga Iugoslávia, tenta cuidar da filha, mas ela não deixa. Santa (Michelle Yeoh), a dona da loja de artigos natalinos em que Kate trabalha vestida de elfo do Papai Noel, não aguenta mais tanta displicência, e até a melhor amiga se vê obrigada a dar um basta na hóspede folgada. E, então, uma espécie de anjo entra na vida de Kate. Alto, bonito e muito simpático, Tom (Henry Golding) é ainda cheio de surpresas o bastante para intrigar a garota; aparece e desaparece, conhece cantos de Londres que Kate nunca notou e não dá pista do que quer com ela — se amizade, se romance ou se algo a que ela não sabe dar nome. Enquanto tenta descobrir, Kate vai tomando jeito e recuperando a meiguice — porque esse é o espírito de filmes natalinos como Uma Segunda Chance para Amar (Last Christmas, Inglaterra/Estados Unidos, 2019; já em cartaz no país): acreditar que ninguém está tão perdido que não possa se reencontrar.

Filmes de Natal são item obrigatório no mercado americano e, em menor medida, também no inglês. Títulos de relevância inquestionável como os clássicos A Felicidade não Se Compra (1946) e A Loja da Esquina (1940), comédias familiares como Esqueceram de Mim (1990), sátiras como Papai Noel às Avessas (2003) e até filmes de ação como Duro de Matar (1988) — que, sim, a rigor é um filme de Natal — convivem com pencas de títulos que, como os presentes embaixo da árvore, em geral são esquecidos bem antes de as próximas festas chegarem. (As plataformas de streaming os têm multiplicado em quantidade, ainda que não em qualidade.) Por algum acidente de percurso, nos últimos anos as comédias românticas vêm dominando o gênero — mas só uma delas, a inglesa Simplesmente Amor, de 2003, alcançou o status de predileta dos finais de ano. São pequenas as probabilidades de que Segunda Chance venha a ocupar lugar semelhante. Ainda assim, ganha pontos pelo empenho com que tenta ser original e pela ótima escolha de sua trilha sonora: catorze canções de George Michael (1963-2016), desde Last Christmas, que dá título ao filme e foi feita quando ele ainda era uma das metades da dupla Wham!, até a imbatível Freedom.

Dirigido pelo americano Paul Feig, dos escrachados Missão Madrinha de Casamento e A Espiã que Sabia de Menos, e corroteirizado por Emma Thompson, o filme é menos convencional no seu desenrolar do que aparenta e tem uma quedinha revigorante pelo nonsense, muito bem explorada nos personagens secundários. Às vezes, introduz elementos que mais confundem do que contribuem (Michelle Yeoh e Henry Golding, que foram mãe e filho em Podres de Ricos, aqui passam perto um do outro mas nunca contracenam), e outras vezes não se dá o trabalho de pespontar os retalhos que alinhavou. Mas tem o frescor e a graça de Emilia Clarke, que não por acaso terminou Game of Thrones como favorita — e, o mais louvável, tem a aspiração de lembrar que o Natal significa algo mais que um pretexto para que duas pessoas fotogênicas se apaixonem.

Publicado em VEJA de 4 de dezembro de 2019, edição nº 2663

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