Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês
Fernando Schüler Fernando Schüler Por Fernando Schüler

A nova era das bruxas

Infrações a direitos devem ser punidas com rigor e o devido processo. Subordinar a Justiça à gritaria e à guerra cultural é transformá-la em sua caricatura

Por Fernando Schüler Atualizado em 22 out 2021, 09h39 - Publicado em 23 out 2021, 08h00
PROVOCAÇÃO - A escritora Anne Applebaum: denúncia do puritanismo de nosso tempo -
PROVOCAÇÃO - A escritora Anne Applebaum: denúncia do puritanismo de nosso tempo – Leonardo Cendamo/Getty Images

A escritora e jornalista americana Anne Applebaum resolveu fazer uma provocação, em um artigo recente, dizendo que vivemos tempos de um novo puritanismo. Lendo o texto me veio à mente a recente decisão da Câmara de Nova York de remover a estátua de Thomas Jefferson, autor intelectual da declaração da independência dos Estados Unidos. Eu me lembrei também da “polêmica”, com direito a protestos no Parlamento italiano, em torno da escultura de Emanuele Stifano, na cidade de Sapri, acusada de “sexualizar a mulher”, visto deixar em evidência as formas de seu corpo. Me lembrei das esculturas de Rodin, dos óleos de Gauguin no Taiti. Estariam em maus lençóis, hoje em dia, assim como toda “memória suja”, diante de toda a nossa pureza.

As histórias contadas por Applebaum não falam de estátuas, mas de pessoas. O professor acusado de má conduta sexual por escrever sobre assédio; outro por questionar se desigualdades tinham a ver com preconceito ou exclusão socioeconômica. Histórias como a de Ian Buruma, editor do The New York Review of Books, “cancelado” por publicar o texto de Jian Ghomeshi, denunciado (e absolvido) por assédio sexual, e a escritora nigeriana Chimamanda Adichie, quase cancelada por dizer que “mulheres trans são mulheres trans”, sugerindo haver diferença entre a sua experiência e a das “mulheres mulheres”.

Há um lado sombrio nisso tudo. A pequena intolerância, a ação permanente dos caçadores de bruxas, pedindo a cabeça de jornalistas pela “interpretação errada” de um texto ou um título mal colocado. E há um lado engraçado também. Vale assistir à série The Chair, uma sátira da maluquice nos campi universitários americanos, com a história de um professor cancelado a partir de uma montagem na qual aparece fazendo a saudação nazista em sala de aula. Não havia saudação nazista nenhuma, e tudo soa como brincadeira. Coisas que no mundo real, porém, não têm graça nenhuma.

A provocação de Applebaum foi obser­var que, depois de ter passado parte da carreira estudando as ditaduras comunistas, se dera conta de que “bem aqui nos Estados Unidos, é possível encontrar pessoas que perderam tudo — empregos, dinheiro, amigos — sem violar nenhuma lei”. Apenas sob acusação de “quebrar códigos sociais relacionados a raça, sexo, comportamento ou humor”.

Há quem veja nisso um exagero. Uma ampla pesquisa feita a esse respeito, mapeando 426 casos de cancelamentos, no mundo acadêmico americano, concluiu o seguinte: o problema existe e vem crescendo. O número de casos documentados foi de 24, em 2015, para 113, em 2020 — 63% se deveram a simples opiniões de professores, a maior parte envolvendo temas de raça. A maioria dos atingidos é de professores brancos (85%), nas áreas de humanas e a partir de movimentos progressistas.

Alguns veem nisso um tipo de justiça. “As pessoas têm de assumir a responsabilidade pelo que dizem”, li em um artigo. Achei curioso. Dizem o que e quando, exatamente? Um tuíte de cinco anos atrás, num contexto bastante específico? Uma ideia malposta, em vinte segundos, numa entrevista ou conferência de uma hora? Na investigação de uma hipótese, na academia, que se pode revelar falsa ou verdadeira? A simples divergência em um tema sensível? Há quem goste desse tipo de justiça tribal. Ou “justiça à moda Twitter”, sentenças de até 280 caracteres e juízos feitos à base de likes e compartilhamentos.

O ponto crucial aqui é: infrações a direitos devem ser punidas com rigor e o devido processo. Subordinar a Justiça à gritaria e à guerra cultural é transformá-la em sua caricatura. Sua negação, portanto. E um ótimo álibi para o reacionarismo que se põe hoje na contramão da sociedade de direitos.

Continua após a publicidade

“A cultura do cancelamento é a ponta do iceberg da intolerância”

O resultado mais desastroso dos cancelamentos é a cultura do medo. Converso com professores, Brasil afora, que são orientados a “cuidar com o que falam”, em sala de aula, e com as leituras que indicam. Algumas instituições asseguram o livre trânsito de ideias. Outras não. O medo e a autocensura já se tornaram parte do jogo. A lógica é bastante clara. Veja o que se passou com uma historiadora consagrada como Lilia Schwarcz, quando arriscou escrever sobre um clipe da Beyoncé, ou Leandro Narloch, quando resenhou o mais recente livro de Antonio Risério. Você pode ser o próximo, está bem entendido?

A cultura do cancelamento é a ponta do iceberg de uma época de intolerância. Bari Weiss acha que devemos ter “coragem” para resistir às hordas digitais. O dever de “pensar, em uma era de conformidade”. A pergunta interessante é sobre quem, exatamente, deveria ter coragem para resistir. A nova cultura da intolerância não é propriamente a ação de uma minoria ruim e autoritária contra uma maioria de gente bacana e “sob pressão”. É difícil medir essas coisas, mas o que vejo são jornalistas, dirigentes de empresas e organizações gostando do jogo, desde que não sejam eles mesmos as vítimas da vez. A chamada cultura woke, feita da contínua reiteração do pequeno moralismo, parece ter fincado raízes bem mais profundas. Pesquisa feita entre estudantes americanos mostrou que 69% concordam que “um professor deve ser denunciado se disser algo que os alunos consideram ofensivo”. O número vai a 86% entre estudantes “progressistas”, ou “liberais”, no vocabulário americano.

Talvez estejamos vivendo um perverso resultado do que Moisés Naím chamou de “o fim do poder”. Todos nós nos tornamos mais frágeis diante dos outros na exata medida em que cada um recebeu uma dose a mais de poder. É da igualdade, quem diria, tão bem-vinda que nasce o grande risco. Do fato simples de que estamos cada vez mais conectados, mais grudados uns nos outros. Que nos tornamos cada vez mais uma comunidade de vigilância coletiva, ainda que continuemos a pensar, como sempre, de um jeito radicalmente diferente uns dos outros. O mundo continua plural quanto aos valores, ideias políticas e visões. Prosseguimos, felizmente, como sociedades abertas. Mas nosso desejo de conformidade, de colocar os demais em uma caixinha, cresceu como nunca.

Daí que o medo, que um dia vinha do Estado, agora vem dos outros. Dos outros que podem estar muito perto, no trabalho, na sala de aula, nos seguidores do Twitter. Não importa. A própria ideia de perto e longe foi borrada. Como diz Chimamanda, vivemos o tempo em que “uma história viaja pelo mundo em minutos. Outras pessoas podem sequestrar sua história, e sua versão se torna a história definidora sobre você”.

Ainda me lembro da cena de um filme sobre a II Guerra que mostrava um guarda nazista espancando um velho senhor judeu. A certo momento os demais prisioneiros tomam coragem e encaram o soldado: “Por que você está fazendo isso?”. Com desdém, ele responde: “Porque eu posso”. No fundo é isso. A cada momento que podemos exercer nossa pequena intolerância, podemos não fazer. A cada momento que podemos exigir que os outros sejam “puros”, podemos lembrar que também nós somos impuros. Que a vida é feita de imperfeição e ambiguidade, e talvez resida aí o seu maior encanto.

Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 27 de outubro de 2021, edição nº 2761

Continua após a publicidade

Publicidade