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É tudo história Por Coluna O que é fato e ficção em filmes e séries baseados em casos reais

‘The Crown’: a história real, com alguma dose de exagero

Série da Netflix é fiel à essência dos fatos, mas adapta alguns episódios da vida da rainha Elizabeth II usando da criatividade

Por Meire Kusumoto - Atualizado em 2 jan 2018, 15h26 - Publicado em 13 jan 2017, 19h28

(Atenção: este texto contém spoilers da primeira temporada de The Crown)

Seriado mais caro da história, ao custo de 156 milhões de dólares por sua primeira temporada, The Crown retrata o reinado de Elizabeth II desde a morte de seu pai, o rei George VI. Como toda obra ficcional, a série da Netflix exagera e lança mão da criatividade ao adaptar alguns episódios da vida da rainha, mas se mantém, em alta dose, fiel à essência dos fatos.

Em entrevista à revista Time, o roteirista Edward Hemming falou sobre a preocupação dos produtores do seriado em retratar fielmente os acontecimentos. “Com um drama dessa escala, em que vai ter um contingente enorme de pessoas checando os detalhes, era incrivelmente importante que nós fizéssemos direito.”

Confira abaixo o que aconteceu na vida real e o que foi criado pelos produtores da série:

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Romance da princesa Margaret com Peter Townsend

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Um dos principais arcos narrativos da primeira temporada é o romance entre a princesa Margaret (Vanessa Kirby), irmã da rainha Elizabeth II (Claire Foy), com o oficial Peter Townsend (Ben Miles). A série mostra como os dois, apaixonados, tinham planos de se casar, mas foram desencorajados pela monarquia – incluindo a própria rainha -, o governo – representado pelo primeiro-ministro Winston Churchill (John Lithgow) – e pela Igreja Anglicana. A relação era condenada porque Townsend era divorciado, algo que a Igreja desaprovava.

Fio de cabelo no paletó – Na série e na vida real, o caso dos pombinhos foi descoberto pela imprensa quando Margaret tirou do paletó de Townsend uma sujeirinha indesejável, durante a coroação de sua irmã. O ato foi considerado muito íntimo por um atento jornalista presente da cerimônia.

Quase casamento – Elizabeth pediu que a irmã esperasse completar 25 anos para que ela não precisasse pedir permissão à monarca para se casar – conforme instituía a lei 1772 de casamentos reais. Assim, a rainha não teria que escolher entre satisfazer sua irmã ou respeitar sua obrigação como chefe da Igreja Anglicana. Ao chegar aos 25, porém, Margaret descobriu que, caso se casasse com Townsend, ela perderia seu lugar na linha sucessória ao trono, sua mesada de 6.000 libras e teria que se mudar da Inglaterra. Tudo isso, como mostrado na produção, realmente aconteceu.

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Mas enquanto a Elizabeth da série desapontou a irmã dizendo que ela não poderia se casar sem que renunciasse a tudo, a Elizabeth da vida real tinha outro plano. De acordo com o site da BBC, documentos disponíveis no Arquivo Nacional Britânico mostram que a rainha aprovava um plano desenhado por Anthony Eden, sucessor de Churchill como primeiro-ministro, para mudar a lei 1772. A ideia era que Margaret e seus descendentes somente fossem excluídos da linha sucessória. Com isso, ela poderia se casar, ainda pertenceria à família real, manteria a mesada e continuaria em seu país. Três dias depois de o rascunho final da proposta de mudança da lei ter sido escrito, a princesa anunciou publicamente que havia decidido não se casar com o oficial. Alguns meses antes, ela escreveu uma carta a Eden, dizendo que só decidiria se casaria ou não quando voltasse a ver o namorado, que estava exilado há dois anos. Pelo jeito, o romance esfriou com a distância. 

Winston Churchill e a banheira

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A cena do segundo episódio que mostra o primeiro-ministro Winston Churchill na banheira enquanto sua secretária lia alguns documentos para ele parece absurda e um exagero dos produtores da Netflix. Mas é real. Segundo contou a pesquisadora Annie Sulzberger à revista Time, a equipe que trabalhou na série descobriu que, sim, Churchill se deleitava com longos banhos enquanto empregados e secretários liam documentos e jornais. A banheira, aliás, era uma presença constante no dia a dia do primeiro-ministro – de acordo com o livro Churchill Style: The Art of Being Winston Churchill, ele chegou a escrever que vivia de maneira simples, mas com todos os “elementos essenciais da vida: banhos quentes, champanhe gelado, ervilhas novas e uísque velho”.

 

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Secretária de Churchill

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Secretária de Winston Churchill de maior destaque na série, Venetia Scott (Kate Phillips) tem um trágico final no quarto episódio do seriado. A jovem, que mantinha verdadeira devoção pelo patrão, chegando a decorar, inclusive, uma passagem de seu livro de memórias, foi atropelada por um ônibus durante o Grande Nevoeiro de 1952. Muitos espectadores se perguntaram se a secretária de Churchill realmente havia morrido em decorrência do nevoeiro depois de verem a cena. Venetia, porém, sequer existiu na vida real. Segundo o site do jornal britânico Express, a personagem foi criada para dar um senso de tragédia ao evento de 1952. A cena da morte da secretária ainda traz outra incongruência, que é o fato de ela ter sido atropelada por um ônibus – os transportes públicos rodoviários haviam sido interrompidos durante o nevoeiro por causa da baixa visibilidade.

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Nevoeiro

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O episódio do nevoeiro, aliás, é próximo da realidade, mas tem certa dose de exagero. De fato, um denso nevoeiro tomou a cidade de Londres entre 5 e 9 de dezembro de 1952. Isso se deu por causa de um sistema de alta pressão, que causou uma inversão térmica – o que significa que uma camada de ar quente se sobrepôs a uma camada de ar frio, o que impediu que a fumaça e a poluição se dissipassem. Para piorar a situação, os dias em Londres estavam bastante frios naquele período, o que fez com que as pessoas queimassem bastante carvão em suas lareiras, produzindo ainda mais poluição.

Segundo o serviço de meteorologia do Reino Unido, o nevoeiro era tão denso que, à noite, pedestres não conseguiam enxergar com clareza as ruas e, em uma área no leste da cidade, as pessoas não eram capazes de ver seus próprios pés. O transporte público rodoviário parou por causa da baixa visibilidade, assim como os serviços de ambulância – ou seja, quem passou mal por causa da poluição precisou caminhar até os hospitais.

A exaltada reação popular mostrada em The Crown, porém, foge um pouco da realidade. Segundo o site da revista britânica Radio Times, os londrinos, que já estavam acostumados com a má qualidade do ar, não entraram em pânico com o nevoeiro. O caos nos hospitais também foi exagerado pelo seriado. De acordo com o site, a população só percebeu que o episódio havia sido grave depois que foi divulgado o número de mortos por causa da poluição, que foi de cerca de 4.000 pessoas até 9 de dezembro de 1952. Relatórios mais recentes sobre o caso apontam ainda que, no total e a longo prazo, cerca de 12.000 pessoas morreram de problemas respiratórios em decorrência do nevoeiro.

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Operação de George VI

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Já nas primeiras cenas de The Crown, o público descobre que a saúde do rei George VI (Jared Harris), pai de Elizabeth, não vai nada bem. Ele passa por uma cirurgia para a retirada de parte de seu pulmão esquerdo. Assim como mostra a série, toda a operação se passou dentro do Palácio de Buckingham, a residência e local de trabalho do monarca britânico. George VI sofria com um câncer de pulmão e foi operado no dia 23 de setembro de 1951. O cirurgião responsável foi Clement Price Thomas, que inicialmente resistiu à ideia de fazer o procedimento no palácio e só aceitou com a condição de que reproduzisse, no salão, sua sala de cirurgia no hospital, com equipamento similar. Para a sequência no seriado, a Netflix convidou médicos de verdade, que não tinham qualquer experiência como atores, para interpretar os profissionais que operaram o rei, como conta o site do jornal britânico The Daily Mail.

Ao final da operação, The Crown mostra uma enfermeira enrolando o pulmão removido em um pedaço de jornal – o que não aconteceu. Na verdade, o órgão foi recolhido por um dos médicos, colocado em um recipiente com uma solução aquosa de formaldeído e levado para o laboratório do Westminster Hospital. George VI sobreviveu à cirurgia, mas acabou morrendo poucos meses depois, em fevereiro de 1952, de trombose coronariana.

 

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Apelidos maldosos

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Os apelidos criados pelo Príncipe Edward (Alex Jennings) e sua mulher, Wallis Simpson (Lia Williams) são factuais. O príncipe, que havia abdicado do trono para poder se casar com Wallis, uma americana divorciada, realmente encontrou outras maneiras de chamar seus parentes e políticos britânicos: sua cunhada, Elizabeth, a rainha-mãe (Victoria Hamilton), era chamada de Cookie, sua sobrinha, a rainha Elizabeth II, de Shirley Temple e o primeiro-ministro, Winston Churchill, de Cry Baby (Bebê Chorão). O príncipe Edward e Wallis usavam esses apelidos ao trocar cartas, que foram divulgadas em 1988 pelo jornal The Daily Mail. Os documentos ainda mostravam como era difícil a relação entre Edward e sua família. Em uma delas, ele chama a rainha Elizabeth II, a rainha-mãe e a rainha Mary, sua mãe, de “cadelas de coração gelado” depois de descobrir que a mesada que receberia da família real seria cortada.

 

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Windsor ou Mountbatten?

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O debate sobre qual sobrenome seria adotado por Elizabeth II e seus filhos, Windsor ou Mountbatten, realmente aconteceu. Windsor era o sobrenome da família de Elizabeth e o nome da casa real. Philip, marido de Elizabeth, pertencia à casa Schleswig-Holstein-Sonderburg-Glücksburg, mas havia adotado o sobrenome Mountbatten por causa de seu tio e mentor, Louis Mountbatten. Tradicionalmente, as mulheres, após se casarem, adotavam os sobrenomes dos maridos. Mas não foi isso o que aconteceu com Elizabeth. A biografia Elizabeth the Queen: The Life of a Modern Monarch, de Sally Bedell Smith, mostra que, depois de consultas a seu primeiro-ministro, Winston Churchill, a rainha acabou adotando o nome Windsor, para a decepção de seu marido. Em 1960, no entanto, Elizabeth II determinou que seus descendentes que não possuíam títulos reais, que não eram tratados por “sua alteza real”, deveriam adotar o sobrenome Mountbatten-Windsor.

 

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Raquete voadora

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O oitavo episódio do seriado mostra a rainha Elizabeth II e o príncipe Philip travando uma discussão durante uma viagem pela Austrália, em 1954. Em dado momento, Philip sai correndo da casa perseguido pela esposa que, por pouco, não o atinge com uma raquete. Toda a ação foi filmada por uma equipe de jornalistas que espera do lado de fora da propriedade. A briga de fato aconteceu. Porém, a série afirma que a rainha conversou com os repórteres, que lhe entregaram os rolos de filmagem. A biografia Our Queen, de Robert Hardman, conta que a equipe de jornalistas foi interpelada pelo secretário de imprensa real, o comandante Richard Colville, que tinha fama de ser “abominável”. Eles, então, entregaram ao secretário o filme com a gravação que tinham feito. Só então apareceu a rainha, que foi conversar com os repórteres. “Desculpem-me por aquele pequeno interlúdio. Mas, como vocês sabem, isso acontece em todos os casamentos. Agora, o que vocês querem que eu faça?”, disse. 

 

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Cadê? Príncipe Edward e o nazismo

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Há décadas o príncipe Edward, tio de Elizabeth II, é acusado de ter sido simpático ao regime nazista. Em 1937, menos de um ano após abdicar do trono, Edward viajou para a Alemanha junto com sua esposa, Wallis Simpson, e se encontrou com Adolf Hitler. O antigo rei ainda teria elogiado a política econômica dos nazistas, chamando-a de um “milagre”. Com o passar do tempo, surgiram outros materiais sobre o assunto, sugerindo que Edward queria que a Inglaterra fosse bombardeada e que se formasse uma aliança entre o país inglês e a Alemanha nazista. Outros ainda afirmam que um complô havia se formado para que o rei George VI fosse sequestrado e, em seu lugar, entrasse Edward, que poderia ser manipulado pelos nazistas. Tudo isso, porém, nunca foi confirmado pela monarquia britânica, o Arquivo Real ou o Arquivo Nacional, que não divulgam a correspondência e documentos trocados entre a família real e destinatários alemães.

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Alguns espectadores de The Crown esperavam que o assunto fosse mencionado na produção, o que não aconteceu na primeira temporada. Porém, o seriado não raro adota como recurso os flashbacks – o que significa que o tema ainda poderá ser citado em temporadas posteriores. Caso isso não aconteça, será compreensível. A série se propõe a tratar do reinado de Elizabeth, e não de Edward ou de George VI. Além disso, a questão é bastante séria e já está contaminada por inúmeros rumores. Seria irresponsável da parte da Netflix divulgar em uma de suas principais produções informações que nunca foram, e talvez nunca sejam, confirmadas oficialmente.

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