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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Pelo pior dos motivos

Toffoli quis censurar por excesso de confiança no poder de intimidar

Por Dora Kramer - 26 abr 2019, 07h00

Voltando por instantes ao século passado: depois de mentir e desmentir o affair com Monica Lewinsky em plena Casa Branca, o então presidente Bill Clinton rendeu-se às evidências e, indagado sobre a razão de tal imprudência, admitiu: “Fiz pelo pior dos motivos. Fiz porque podia”. Ou melhor, pensava que podia, como demonstrado pelas consequências que quase lhe custaram o mandato, no fim dos anos 90.

Aconteceu faz duas décadas e até hoje há quem não tenha aprendido a lição, cujo ensinamento se aplica às diversas áreas de atuações impróprias (quando não criminosas) por parte de gente poderosa que insiste em exorbitar por aquela razão apontada por Clinton. Regra geral, termina sofrendo sérios reveses decorrentes do excesso de autoconfiança.

Tal como ocorreu com o presidente do Supremo Tribunal Federal. Antonio Dias Toffoli tentou censurar a publicação de documento da Lava-Jato pelo pior dos motivos: achou que podia, assim, intimidar os críticos. A censura já foi revogada, anuncia-se que o inquérito em forma de carteirada aberto no STF para investigar ataques à Corte será ao final enviado ao local apropriado, o Ministério Público, mas o episódio não é página a ser dada como virada.

O caso segue em aberto porque há gente disposta a estender o assunto. A começar pelo próprio Toffoli, que insiste em dizer que tem razão. Segundo ele, as investigações vão comprovar que ele e o colega Alexandre de Moraes estavam certos ao espancar a legalidade interditando a comunicação e mandando vasculhar a privacidade de pessoas no propósito de “fazer o bem”.

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Ambos estariam, por essa versão, sacrificando as respectivas imagens pessoais em nome da coletividade ingênua, desinformada, institucionalmente indigente, carente de tutela e no aguardo de ser salva pela perspicácia de ministros tão diligentes. Também impede que se encerre o assunto a série de manifestos, encontros e ágapes que tais promovidos a título de desagravo por gente interessada em agradar ao presidente do tribunal.

Advogados, claro. Travestidos de arautos da legalidade, o que defendem mesmo é o interesse dos respectivos clientes. Tentam atrair simpatia na Corte; faz parte do serviço pago na casa dos milhões. Aqui no mundo dos comuns a ideia é que o Supremo Tribunal Federal seja a instância máxima de garantia da lei, exista para nos defender de agressões à Constituição e não precise de defesa, coisa que enfraquece (e, sobretudo, desmerece) o papel da Corte.

Falso brilhante

Fora do mundo digital não há disputa real entre os militares lotados no governo e aquele homem cuja única especialidade aparente é bradar palavrões na internet. Entre, de um lado, um grupo que faz o governo funcionar, opera com realista ponderação e, de outro, uma pessoa que atua na base do insulto, quem vocês acham que a sociedade prefere?

O homem da Virgínia não merece resposta. Sua influência tende a minguar à medida que as pessoas perceberem que não adianta falar com quem não tem nada de útil a dizer.

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Publicado em VEJA de 1º de maio de 2019, edição nº 2632

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