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Dora Kramer Por Coluna Coisas da política. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Jogo de amarelões

Além dos convertidos, difícil que alguém hoje saiba citar razões para escolher esse ou aquele pretendente da chamada terceira via

Por Dora Kramer Atualizado em 12 nov 2021, 17h19 - Publicado em 12 nov 2021, 06h00

Nunca, desde a redemocratização, uma eleição presidencial foi igual a outra no Brasil. Cada qual teve características próprias. As peculiaridades estiveram presentes até mesmo naquelas em que o(a) chefe da nação foi reeleito(a). É assim, as condições objetivas mudam, as estratégias das campanhas se adaptam a elas e os discursos dos candidatos seguem as demandas do eleitorado.

Em 2022 também tudo será bem diferente do que foi em 2018, a começar pela duração da campanha. No oficial, são 45 dias. No paralelo, porém, é muito mais longa que as anteriores, pois começou quando Jair Bolsonaro, ainda no primeiro ano de governo, pôs a candidatura da reeleição na rua.

A prevista radicalização não chega a ser um dado novo, mas não faltam ineditismos como o fato de o embate reunir o atual e um ex-presidente da República. Acrescente-se à lista o bate-cabeça da oposição aos dois.

O maior problema desse campo nem é o mar de pretendentes, mas o deserto de ideias. Bem ou mal, nas eleições anteriores havia um conceito por trás das candidaturas.

Em 1998, Fernando Henrique Cardoso já não contava com o impacto positivo do Plano Real que o elegeu em 1994 e, em meio a uma crise econômica, precisou se valer do receio da sociedade de perder os ganhos obtidos com o fim da inflação.

Em 2002, Luiz Inácio da Silva lançou mão da esperança (“venceu o medo”, lembram-se?) de que uma mudança radical liderada por “um brasileiro igualzinho a você” proporcionasse o almejado bem-estar social absoluto. Em 2006, o grande ativo de um Lula mergulhado no escândalo do mensalão foi o céu de brigadeiro da economia e o auxílio precioso da campanha errática da oposição.

Em 2010, o então presidente, no auge da popularidade, fez de Dilma Rousseff um clone denominado “mãe do PAC” ou “a mulher do Lula”, conforme a conveniência, que vendia a expectativa de dias ainda melhores pela frente.

Em 2014 instituiu-se o reino das fake news numa campanha de sórdida ousadia que, aliada ao ilusório “já ganhou” em Minas Gerais, levou Aécio Neves à derrota por muito pouco e permitiu a Dilma a renovação do mandato, que perderia por incompetência e trapaças outras, dois anos depois.

“O problema maior das forças de centro não é o mar de candidatos. É o deserto de ideias”

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No intervalo entre a ressaca do impeachment e a próxima eleição, assumiu o vice-presidente, que deixaria o cargo com inacreditáveis 4% de avaliação positiva. Lula estava preso, fazendo campanha fictícia com uma candidatura àquela altura impossível, a oposição meio engatada no barco de Michel Temer meio confiante na atração de votos por gravidade. O clima era de desesperança.

Nesse ambiente surgiu Jair Bolsonaro vendendo seus devaneios extremistas. Colou. A despeito de todos os pesares daí decorrentes, emocionou. De um lado quem estava disponível para aquele tipo de emoção e, de outro, quem acreditou não haver outra forma de impedir a volta do PT. Boa ou ruim, houve motivação.

Justamente o que falta para a próxima eleição. Estamos em campanha há três anos. Tempo suficiente para que os partidos dispostos a correr na pista do centro da avenida eleitoral entre os dois ditos extremos já tivessem encontrado algo de consistente e, sobretudo, inspirador, para dizer àqueles de quem pretendem atrair os votos.

Os líderes nas pesquisas tratam de assegurar suas reservas de mercado. Falam para as respectivas “bolhas”, inflando a rejeição mútua da qual ambos são dependentes. Mesmo que donos de portentosos telhados de vidro, ainda detêm o monopólio dos discursos ditos de direita e de esquerda. Repetem-se e fazem isso porque os supostos concorrentes não os obrigaram a se mexer para além da área de conforto.

Cada qual à sua maneira, Lula e Bolsonaro tocam corações. Apresentam-se em cores fortes, enquanto seus opositores se vestem em tom pastel na pregação genérica da pacificação política, da desigualdade social e do crescimento econômico. Bons temas, mas por ora carentes de abordagem vigorosa, original e, sobretudo, factível.

Além dos convertidos, difícil que alguém hoje saiba citar razões para escolher esse ou aquele pretendente da chamada terceira via. Na hipótese otimista de terem excelentes ideias para lançar no “momento adequado”, lícito concluir que estão com receio de exibir fraquezas autorizando o eleitor a interpretar que o time faz um jogo de amarelões.

Portanto, hora de achar algo a dizer a fim de não arcarem com merecido prejuízo.

Os textos dos colunistas não refletem, necessariamente, a opinião de VEJA

Publicado em VEJA de 17 de novembro de 2021, edição nº 2764

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