
O discurso em Brasília já havia sido ruim, uma peça de pura provocação contra os poderes, inclusive o dele, já que suas atitudes criam entraves ao andamento do governo e com isso aumenta a desaprovação ao presidente. Pois o pronunciamento de Jair Bolsonaro em São Paulo foi bem pior.
Manteve as agressões e foi além: insultou o ministro Alexandre de Moraes (“canalha”), incitou a violência do público contra ele arrastando seus apoiadores ao perigoso terreno da aventura, acusou o ministro Luís Roberto Barroso de fraudar as eleições de 2022, disse claramente que não pretende cumprir decisões judiciais e deixou evidente que não vai reconhecer o resultado do pleito se for derrotado.
Segundo juristas, Bolsonaro deu um verdadeiro passeio pelo código penal e pela tipificação do crime de responsabilidade. Agora é ver como serão amanhã as reações do Supremo e do Congresso.
O presidente fala em corda esticada enquanto se empenha em tensionar cada vez mais o hipotético artefato que, tudo indica, acabará arrebentando do lado dele. Se Bolsonaro acredita que a grande quantidade de gente presente às manifestações convocadas por ele lhe confere e assegura força política, engana-se por completo. No máximo, inibe a abertura de um processo de impeachment.
Com seus ataques à legalidade na Esplanada dos Ministérios e na avenida Paulista, o presidente da República ficou mais fraco. Marcou novos pontos na trajetória de perda de lastro junto à institucionalidade, seja ela oficial ou social. Preocupada com as crescentes adversidades do cotidiano, a maioria da população não está armada para guerra de nenhum outro tipo que não seja contra a inflação, o desemprego, a pandemia e o risco de apagão elétrico.
Nos poderes Legislativo, Judiciário e até mesmo nas internas do Executivo a reação às palavras de Bolsonaro foi péssima. Não apenas, mas também por causa das agressões reiteradas, ele tem se tornado uma companhia tóxica. Gente que normalmente pisa com cuidado quando o assunto envolve a figura do presidente, tende a aumentar a firmeza dos passos.