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Coluna da Lucília Por Lucília Diniz Um espaço para discutir bem estar, alimentação saudável e inovação

Restaurantes à deriva

No pós-pandemia, poderão faltar talentos na cozinha e nos salões

Por Lucília Diniz Atualizado em 27 Maio 2021, 17h46 - Publicado em 27 Maio 2021, 15h40

Já começam a aparecer as mesas do lado de fora. É primavera no Hemisfério Norte, e os restaurantes se preparam para receber de volta o público ao ar livre. A ansiedade é grande. Afinal, lá foi feito o lockdown autêntico.

Na Europa, continente hoje proibido para brasileiros, a vida se encaminha para um novíssimo normal. Coisa de quem tem experiência com pestes e guerras. Agora, finalmente todos podem sair de casa sem medo. No Twitter, o presidente francês convida a “redescobrir as coisas que constituem a arte de viver”. Em Portugal, um dos países mais vacinados, muitos correm neste momento para aproveitar a liberdade – acomodando-se nas mesas das disputadas esplanadas da terrinha, e procurando o garçom para fazer um pedido.

Mas hoje, o garçom não veio trabalhar. Nenhum deles. É o que tem acontecido do outro lado do balcão em bistrôs, cafés e restaurantes. Ninguém quer trabalhar enquanto todos se divertem. Em Miami, o restaurante Ariete precisa de dezenas de garçons e de cozinheiros de preparação. O chef de massas não apareceu para o plantão – e nem ligou para avisar; um sub-chef teve de tomar rapidamente o seu lugar. Na Austrália, faltam atendentes para servir turistas na Grande Barreira de Corais. São oferecidos o equivalente a RS 8 mil como bônus, mais a passagem, para quem quiser se candidatar.

Qual seria o motivo? Alguns analistas atribuem isto a uma recuperação econômica não tão forte quanto parece. Eu vejo outra coisa. Ao jornal Le Parisien, o chef Thierry disse porque deixou seu posto. “Um dia me perguntei: ‘Além do meu trabalho, o que tenho feito com minha vida?’”. Parece que, ensaiando o fim da pandemia, muitos viram uma oportunidade para reescrever suas biografias. E nela estão se jogando de cabeça.

Em todo o mundo, os objetivos de longo prazo deixaram de ser os únicos; o tempo presente ganhou mais valor. Afinal, quem deseja voltar a cumprir longas jornadas noite adentro, em ambientes estressantes, sobrando pouco tempo para os amigos e a família? Os jovens chefs, em particular, sentem-se nada atraídos em seguir sob estas condições. Muitos pensam em voltar a estudar, para tentarem outra carreira.

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Hoje, vale buscar o prazer de se envolver em novas atividades. E uma mudança bem-vinda nem precisa necessariamente nos tirar do lugar. Um chef francês que não quis voltar à roda-viva do salão agora trabalha na cozinha de um retiro, por exemplo.

Em pleno 2021 está claro que o futuro como imaginávamos simplesmente não aconteceu. Não temos viagens espaciais cotidianas. A longevidade ainda precisa ser mais saudável. Epidemias e conflitos persistem. As dificuldades não foram superadas, só mudaram de nome.

A verdade é que não vemos a hora de acabar esta pandemia porque vivemos de começos. Pela energia irresistível que acompanha a tentativa de algo novo. Pela oportunidade de recomeçarmos com mais inteligência.

De recomeços eu entendo – e recomendo. Mas, diferentemente do que encarei, desta vez ninguém está sozinho. Pela primeira vez, o reinício é coletivo. Todos nós podemos aproveitar este mesmo momento apenas experimentando algo pela primeira vez. E enriquecer nossas vidas com inícios, prestando menos atenção ao resultado final.

 

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