Clique e Assine por somente R$ 2,50/semana
Augusto Nunes Por Coluna Com palavras e imagens, esta página tenta apressar a chegada do futuro que o Brasil espera deitado em berço esplêndido. E lembrar aos sem-memória o que não pode ser esquecido. Este conteúdo é exclusivo para assinantes.

Ditadores de estimação

O bolsonarismo degenerou em seita cujos adeptos vislumbram, pela fé, um liberal no estatista anticapitalista

Por Valentina de Botas Atualizado em 30 jul 2020, 20h28 - Publicado em 14 Maio 2018, 18h10

Valentina de Botas

Segundo partidários de Jair Bolsonaro, a CIA, a Agência de Inteligência Americana, entediada num cotidiano modorrento, decidiu roubar o nosso nióbio. Para isso, solapa a boa imagem da nossa ditadura militar, sórdida como qualquer outra, da qual o deputado se faz memória afetiva. Ou não tem boa imagem a ditadura que, para evitar que o Brasil se tornasse uma ditadura, tornou-o uma ditadura repulsiva como qualquer outra? Mas era uma ditadura de direita, justificam os meios pelos fins os adeptos da seita da direita-verdadeira que separa o mundo em direita-esquerda-marcha-soldado-cabeça-de-papel-quem-não-marchar-direito é petista, micheleiro, tucano e tem bandido de estimação.

Nestes tempos desmantelados, já é “bandido” toda pessoa citada em delações, investigada ou ré, desnecessário o julgamento da Justiça. Também as execuções e as torturas cometidas pelo regime militar, à margem da lei, antecediam decisões da Justiça; bastavam as dos carrascos. No Brasil de hoje, ansioso pelo futuro ainda que ao preço de replicar o passado em certo grau, a palavra da Justiça é o de menos, basta a da polícia. É evidente que não vivemos um período de exceção como o regime militar, mas é preocupante o fato de vozes importantes no debate público denunciarem ameaça ao estado de direito e à segurança jurídica quando o STF decidiu tirar do juiz Moro partes do inquérito sobre o sítio em Atibaia atribuído a Lula, mas relevarem a mesma ameaça quando o STF legisla ou quando o ministro Roberto Barroso interpreta o que é explícito na Constituição, autoriza prisões para a mera coleta de depoimento violando o Código de Processo Penal. O ministro ouviu as ruas, comemora a insensatez. Então, pergunta o grande jurista Lenio Luiz Streck, em artigo recente no site Conjur, qual a serventia da Constituição? Esburacar a legalidade é justificar os meios pelos fins, cilada que o Brasil arma contra si; fora o resto, a insegurança jurídica tumultua o ambiente para os negócios.

A paciência é nenhuma para essas picuinhas burguesas, eu sei, o país tem pressa e a cilada está à espera. Assim, a maior parte do jornalismo independente, que poderia ajudar o Brasil trocando o alarmismo pela reflexão com informação de qualidade, também se deixa levar pelo transe que exalta os meios qualificados pelos fins, escolhendo depender da pauta do MPF/PGR e adere a ela pelo rótulo, geralmente sem ler as denúncias oferecidas. O Estadão, há alguns dias, informou que 70% delas, no âmbito da Lava Jato, resultaram ineptas e foram arquivadas. Por um lado, inocentes podem pagar caro em virtude da exposição, por outro, culpados podem ficar impunes. Somos tão inapetentes ao cumprimento da lei que, até para fazê-la cumprir, incorremos no seu descumprimento? Aonde vamos tão institucionalmente esbulhados assim? A essa altura, o eventual leitor se convenceu de que este meu pobre apelo à reflexão é coisa de petista, micheleira ou tucana querendo acabar-com-a-Lava-Jato.

Está dureza resistir à metafísica dominante que bolina o pensamento de quem a contraria. Mas acho maravilhoso viver nestes tempos porque é agora. Prefiro este agora-Brasil a outro que já passou. Ampliando a perspectiva, não suportaria uma existência pré-hobbesiana (“sem o Estado, a vida é desagradável, brutal e curta”) ou sob a vigência do subjetivismo pré-moderno do cogito de Descartes que não cogitava o outro, numa subjetividade incompleta então. Enquanto escrevo, ouço “Passarim” (Passarim quis pousar / Não deu, voou / Porque o tiro feriu / Mas não matou / Passarim, então me diz / Por que eu também não fui feliz / Cadê meu amor / minha paixão/ que me alegrava o coração / que iluminava a escuridão) e detestaria que entre meu nascimento e minha morte não houvesse o genial brasileiro Tom Jobim. A inexistência de agentes para as mudanças, a pressa das coisas que nos consome, a artificialidade dos afetos, a escassez de líderes e estadistas, a resistência à reflexão, a covardia de sentir os sentimentos, a insistência do Roberto Carlos naquele corte de cabelo. Tá, lidemos com tudo isso que parece atar nosso cotidiano entre o mal-estar e a revolta, mas ao som de Tom Jobim, por favor. Como uma revisora de textos frila, hesitante diante dos problemas grandes e atrapalhada pelos pequenos, que não sabe o que fazer com o mês que sobra ao final do salário como incontáveis brasileiros, que nem sequer acha a ponta do durex, que escreve posts desgalhados cuja publicação só se explica pela generosidade do democrata titular dela, poderia sequer pretender acabar-com-a-Lava-Jato?

Para quem restringe o mundo a extremos e situa-se em um deles, há ditadores de estimação ─ a depender do manicômio ideológico. Pensam assim muitos brasileiros e tantos deles, gratos à ditadura militar, ignoram que toda tirania é manicomial. Vestem uma farda no seu D. Sebastião mambembe, misturando sebastianismo patológico ao sindicalismo fardado. Pelas pesquisas eleitorais, o Brasil reciclará o sindicalismo civil de Lula no sindicalismo fardado de Bolsonaro para dar vida ao novo. Novo atraso de vida. Então, para atingir a imagem do deputado a salvo da Lava Jato e que faz disso um álibi para a incapacidade de governar um Brasil tão complexo, a CIA decidiu, alertam seus adoradores, atacar a ditadura militar com a revelação de um documento segundo o qual Geisel aprovara o assassinato de opositores mais perigosos. Bolsonaro poderia resolver tudo se condenasse os crimes da ditadura e confirmasse a conversão ao liberalismo fazendo o que faria um liberal: defender ações apenas respaldadas na legalidade. Mas, quando tenta ser decente, apenas alcança a mediocridade, essa espécie de tirania que se adensa para nos convencer de que as opções de mundo vão de um extremo a outro sem passar pela racionalidade e que a civilização está descartada. Ela emoldura a afirmação de Bolsonaro que emparelhou o comportamento de Geisel ao de um pai diante do filho malcriado, na enjoativa analogia de que Lula tanto abusou entre pai e governante, numa infantilização que manipula os cidadãos.

A grei de Bolsonaro questiona a veracidade do documento e a oportunidade da sua divulgação e relembra as perversidades do comunismo; contudo, a visão de mundo do deputado está posta e as perversões do comunismo não redimem as da ditadura militar porque ditadura só tem um lado ─ o da barbárie. Portanto, quem justifica os crimes de Geisel tem de silenciar sobre os crimes de Maduro. A tentativa dos seguidores fanáticos de Bolsonaro em higienizar, nos crimes alheios, seu pensamento deformado comprova que o bolsonarismo degenerou em seita cujos adeptos vislumbram, pela fé, um liberal no estatista anticapitalista e elogiam sua sinceridade sem reconhecer que ela revela seu despreparo. Creem que o regime militar só vitimou quem merecia (o que Maduro e Pol Pot também diriam com a satisfação do dever cumprido), escrevem “ditadura” entre aspas, consideram aquele o melhor período de suas vidas e/ou do país e, no seio da seita, protegidos da orfandade de heróis, protegem-na de fatos que a esboroem: um político que elogia práticas fora da legalidade é um liberal de picadeiro e um estadista de chanchada; que, entre terroristas e liberticidas e os crimes da esquerda e os da direita, a escolha que nos dignifica é a civilização; e que a esta se chega pelo respeito às leis pactuadas no estado de direito democrático.

Continua após a publicidade
Publicidade