Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

“Mortal loucura sem cura” e outras cinco notas de Carlos Brickmann

Os procuradores não podem renunciar a uma investigação, a menos que se demitam. É o trabalho para o qual foram designados, ponto

Publicado na coluna de Carlos Brickmann

Para os romanos, um poeta (“vate”) tinha dons divinos, entre eles o de prever o futuro – “vaticínio”. Parece que tinham razão: um monumental poeta brasileiro, falecido num final de novembro há 320 anos, é o autor de Mortal Loucura) – poema que, com música de José Miguel Wisnik, na voz de Maria Bethânia, foi a trilha sonora de Velho Chico. Até isso ele previu!

A loucura começa pelo presidente da República, que considera “um fatozinho” a pressão de um ministro para obrigar outro a desconsiderar uma lei para poder construir um apartamento em Salvador. Continua pelo Congresso, que tenta votar disfarçadamente uma anistia imoral, bem quando todo mundo está prestando atenção; e culmina com promotores da Lava Jato ameaçando renunciar se a lei anticorrupção que sugeriram (e que é discutível) não for aprovada do jeito que querem. “Quem do mundo a mortal loucura… cura”, diz o poeta. Os procuradores não podem renunciar a uma investigação, a menos que se demitam. É o trabalho para o qual foram designados, ponto. Empenhar-se menos seria fazer o jogo de quem quer escapar das investigações – que não ficariam tristes se os procuradores renunciassem à Lava Jato. E não é função de procuradores, por mais razão que tenham, dar ordens ao Congresso e ao presidente da República.

Agora entram no Supremo cerca de 80 delações da Odebrecht. Quando haverá denúncias e julgamentos? “Será no fim dessa jornada… nada”.

 

Mistérios mil que desenterra…

Parecia impossível, mas possível foi: Renan Calheiros se torna réu e será julgado pelo Supremo, que recebeu a denúncia de peculato. O presidente do Senado é acusado de pagar a pensão de uma filha que teve fora do casamento, com dinheiro fora dos trâmites legais, que recebia de uma empreiteira. Tão logo o caso se tornou conhecido, Renan admitiu que tinha a filha, a mãe da filha falou sobre o caso (e posou para Playboy), sabia-se qual era a empreiteira, conhecia-se o portador dos pixulecos mensais. O caso chegou ao Supremo em 6 de agosto de 2007. Passaram-se nove anos até que a denúncia fosse aceita. E ainda falta o julgamento.

 

… enterra

A Odebrecht é organizadíssima, e a organização se estende ao ramo de pagamentos descentralizados. Há informações completas sobre o pixuleco, seus destinatários, entregador, receptor, local e horário da entrega. Com assustadora frequência a entrega é fotografada ou filmada – a Odebrecht sabia com quem lidava. Pois bem: se no pixuleco romântico para Renan já se sabia de tudo, com nomes e quantias, e o caso levou mais de nove anos para chegar à aceitação da denúncia, quanto tempo levará para processar o tsunami de documentos e chegar ao mesmo estágio? Há gente imaginando até que se trate de uma estratégia da defesa da Odebrecht: fornecer todas as informações possíveis e soterrar o Supremo com o excesso de trabalho.

 

Quem do mundo a mortal loucura… cura

Este colunista conheceu o jornalista Perseu Abramo nas redações. Jornalista meticuloso, atento aos detalhes, estudioso (formou-se também em Sociologia, fez mestrado), dono de excelente memória e texto esmerado. Nos tempos pré-Google, era a ele que se recorria para refrescar a memória. Era também a ele que se dirigia quem tinha dúvidas sobre grafia correta ou questões de gramática. O jornalista Gilberto di Pierro, Giba Um, até hoje, vinte anos após a morte de Perseu Abramo, ainda se queixa da falta que lhe fazem a cultura, a memória, a boa educação e a paciência do amigo ao elaborar sua coluna diária.

E quem é que o PT coloca como presidente do Conselho Curador de sua Fundação Perseu Abramo? Sim: Dilma Vana Rousseff. Voltando a nosso poeta, “O voz zelosa que dobrada… brada”.

 

Da morte ao ar não desaferra…

A posse como presidente da Fundação Perseu Abramo foi o último compromisso de Dilma Rousseff no país. Em seguida, iria para Cuba com o ex-presidente Lula, para prestar as últimas homenagens a Fidel Castro. As cinzas de Castro partem de Santiago de Cuba (onde está o túmulo de Che Guevara, seu companheiro de revolução) e farão um circuito pelo país.

 

… aferra

É uma bonita atitude de Lula e Dilma: mesmo enfrentando problemas, não esqueceram do amigo. Mas outro amigo, que fisicamente esteve muito mais próximo de ambos, que enfrenta a pior fase de sua vida, não mereceu a honra de uma visita dos amigos: é José Dirceu, que Lula chamava de “capitão do time”, que chamou Dilma de “companheira de armas”. Dirceu está preso desde 3 de agosto de 2015, condenado a mais de 20 anos de prisão e com processos ainda correndo. Apesar da pena pesada, Dirceu lembrou dos amigos e se recusou a fazer a delação premiada. O comando do PT, Lula e Dilma incluídos, o deixou abandonado na prisão de Curitiba.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    Silvando

    Vai apodrecer na cadeia, é mais fácil achar cabeça de bacalhau do que esperar gratidão de Lula e Dilma, aguenta aí Zé.

    Curtir

  2. Comentado por:

    Sonja

    Quando chegar a minha hora, vou torcer para que seja o Supremo encarregado de buscar a Morte: vou viver mais uns nove anos!…

    Curtir

  3. Comentado por:

    Paulão

    Prezados Augusto e Brickmann,
    Da filha e da mãe da filha, teremos a notícias abaixo, bem antes da conclusão do inquérito respectivo contra o Réu-nan:
    – a mãe da filha morreu de velhice, aos 90 anos de idade, e o enterro foi patrocinado por “aquela” empreiteira.
    – a filha aposentou-se, após 50 anos de efetivo trabalho, recebendo a aposentadoria máxima da Previdência Social, com um “plus a mais adicional” patrocinado por “aquela” empreiteira.
    O mais idoso e longevo presidente do Senado – aos 100 anos de idade – nega que “aquela” empreiteira tenha favorecido mãe e filha.
    E o STF analisa a possibilidade de dar andamento à oitiva de testemunhas ainda vivas do affair Renan/Mônica/MendesJunior.

    Curtir

  4. Comentado por:

    Edison Xavier de Brito

    José Dirceu não podia esperar outra atitude de Lulla e Dillma, ambos são mais covardes do que cachorro que morde cego.

    Curtir