A Origem dos Bytes Por Filipe Vilicic Crônicas do mundo tecnológico e ultraconectado de hoje. Por Filipe Vilicic, autor de 'O Clube dos Youtubers' e de 'O Clique de 1 Bilhão de Dólares'.

AVISO: Nenhum algoritmo é “neutro”. Nem o do Facebook, nem o de ninguém

Começo com uma confissão: é dificílimo avaliar a atual situação do Facebook – segundo o site Gizmodo, acusado por ex-funcionários de editar seus tópicos mais populares de forma enviesada, não por um algoritmo neutro. Por isso, resolvi compreender o porquê dessa “dificuldade”, em vez de simplesmente acusar um lado, ou o outro. A começar, se […]

Por Filipe Vilicic - Atualizado em 9 fev 2017, 07h57 - Publicado em 20 maio 2016, 09h30

Começo com uma confissão: é dificílimo avaliar a atual situação do Facebook – segundo o site Gizmodo, acusado por ex-funcionários de editar seus tópicos mais populares de forma enviesada, não por um algoritmo neutro. Por isso, resolvi compreender o porquê dessa “dificuldade”, em vez de simplesmente acusar um lado, ou o outro.

A começar, se sabe inglês, vale conferir este texto do comentarista político americano (conservador) Glenn Beck. Resumo, em todo o caso: ele foi ao Facebook, com colegas de igual opinião, a convite, para entender a situação. Em uma reunião em que estava Mark Zuckerberg, o fundador e CEO da rede social, a empresa defendeu a neutralidade de seu algoritmo, disse que promove um ambiente de diversidade de opiniões etc. Sem, em nenhum momento, responder especificamente, com fatos, à acusação do ex-funcionário que começou com essa história “denunciando” a companhia.

Só que Glenn Beck parece ter saído impressionado do encontro. Isso porque se sentiu bem-recebido, viu que os liberais, os “de esquerda”, do Vale do Silício têm boas intenções. E por aí vai. Ou seja, ele gostou do que viu.

Em paralelo, outros não receberam muito bem as explicações do Facebook. Há, por exemplo, quem destaca o potencial perigo da rede social estar censurando blogs, perfis, sites menores, que não compartilhem da mesma visão de mundo da companhia.

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Qual é a resolução disso tudo? Nasceu, aí, um problema de confiabilidade.

Você confia no Facebook? Confia no governo? O governo confia no Facebook? Os conservadores confiam no Facebook? Parece que não importa o quanto se tenta provar a própria credibilidade, sempre haverá “haters” na internet espalhando teorias conspiratórias contra você. Confia, então, nos “haters”?

Logo, seria este caso reflexo de uma conspiração contra o Facebook? Ainda é difícil chegar a uma conclusão. Entretanto, será que a questão é mesmo gravíssima, já que o dedo foi apontado por um ex-funcionário?

Ok, prometo, só mais uma pergunta: você confia em robôs e algoritmos?

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Em minha reflexão, parece-me que está aí a dificuldade em resolver o problema. Algoritmos, pouco compreendidos pela maioria da população (e pela maioria dos funcionários do Facebook, inclusive), são muitas vezes tidos como forças da natureza. Seriam, por essa lógica, neutros, sem julgamentos, sem direcionamentos. Se eles levam um post à glória, tornando-o viral no Facebook (ou no Google, que seja), seria pelo conteúdo “merecer isso”. Se obscurecem um site (por exemplo: quando ele vai parar lá na sexta página das buscas do Google; quem chega até lá?), seria pela mensagem contida nele ser “irrelevante” para a sociedade. Aí está o erro: acreditar nesse raciocínio.

Algoritmos não são “neutros”. Por isso, não adianta o Google, o YouTube, o Facebook, quem for, os vender como tal. As equações que regem o mundaréu de dados nesses sites são (parece óbvio, mas é preciso relembrar, ressaltar) CRIADAS POR HUMANOS. Pronto, tá aí a dificuldade em avaliar a questão.

A grande maioria está debatendo se o tal algoritmo do Facebook seria tendencioso. Contudo, essa é uma conversa inútil. Qualquer humano é “tendencioso”. Logo, qualquer criação nossa é, também, “tendenciosa”. Ou seja, qualquer algoritmo é “tendencioso”.

Já acompanhei, como observador, o processo de formulação dessas equações. Numa dessas experiências, por exemplo, pude entender detalhes de um algoritmo, de tradução instantânea, do Google. (Nunca é por acaso que algo tem maior destaque no site de buscas. Assim como não é à toa que uma notícia sobe para os “trendings” (os “populares”) do Facebook. É feita uma escolha, por um “robô”, mas guiado por mãos humanas.)

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Se algo está lá em cima no Facebook, é porque atende aos critérios estabelecidos para tal: números de compartilhamentos e likes, onde foi publicado, quem repercutiu etc. O mesmo vale para o Google. Ou para o Bing. Ou para o que for. A equação, por mais complexa que seja, tão-somente reflete as escolhas feitas por quem a programou e pela empresa que a detém. Em outras palavras: o algoritmo é sempre tão neutro quanto seus criadores.

E a questão tenderá a se complicar cada vez mais. Hoje, as máquinas já estão sendo programadas para aprender sozinhas. Assim, uma inteligência artificial pode reprogramar um algoritmo, quando julga que um de seus trechos apresenta uma falha, ou que um dos resultados não corresponde ao esperado. Será que essas máquinas, cada vez mais “inteligentes”, também expressarão uma opinião própria? Para mim, na real, a pergunta é outra: QUANDO será que essas máquinas, cada vez mais “inteligentes”, também expressarão uma opinião própria?

Acompanhou até aqui? Então, voltemos ao Facebook.

Após avaliar a atual problemática, tendo a compartilhar, em parte, com a opinião de Glenn Beck. A empresa que detém a rede social, até poucos meses atrás (quase) sempre fechada, cheia de segredos, está abrindo as portas. Eu, também, não posso me queixar disso.

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Tanto no Brasil, quanto nos EUA, o Facebook e seus filhotes (Instagram e WhatsApp, em especial), jamais se negaram a “conversar”. Se há um problema, se prontificam. Tentam esclarecer. Procuram ser, no máximo, transparentes. Mas precisavam, mesmo, de tanta explicação? Talvez, bastaria encerrar o assunto dizendo “sim, não só o nosso, mas como todo algoritmo, é direcionado”. Acostumem-se com isso, humanos, pois pode ser que estejamos caminhando para o fim do Antropoceno (a época dos homens), e chegando à era da IA, a da inteligência artificial.

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