Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

AVISO: Nenhum algoritmo é “neutro”. Nem o do Facebook, nem o de ninguém

Começo com uma confissão: é dificílimo avaliar a atual situação do Facebook – segundo o site Gizmodo, acusado por ex-funcionários de editar seus tópicos mais populares de forma enviesada, não por um algoritmo neutro. Por isso, resolvi compreender o porquê dessa “dificuldade”, em vez de simplesmente acusar um lado, ou o outro. A começar, se […]

Começo com uma confissão: é dificílimo avaliar a atual situação do Facebook – segundo o site Gizmodo, acusado por ex-funcionários de editar seus tópicos mais populares de forma enviesada, não por um algoritmo neutro. Por isso, resolvi compreender o porquê dessa “dificuldade”, em vez de simplesmente acusar um lado, ou o outro.

A começar, se sabe inglês, vale conferir este texto do comentarista político americano (conservador) Glenn Beck. Resumo, em todo o caso: ele foi ao Facebook, com colegas de igual opinião, a convite, para entender a situação. Em uma reunião em que estava Mark Zuckerberg, o fundador e CEO da rede social, a empresa defendeu a neutralidade de seu algoritmo, disse que promove um ambiente de diversidade de opiniões etc. Sem, em nenhum momento, responder especificamente, com fatos, à acusação do ex-funcionário que começou com essa história “denunciando” a companhia.

Só que Glenn Beck parece ter saído impressionado do encontro. Isso porque se sentiu bem-recebido, viu que os liberais, os “de esquerda”, do Vale do Silício têm boas intenções. E por aí vai. Ou seja, ele gostou do que viu.

Em paralelo, outros não receberam muito bem as explicações do Facebook. Há, por exemplo, quem destaca o potencial perigo da rede social estar censurando blogs, perfis, sites menores, que não compartilhem da mesma visão de mundo da companhia.

Qual é a resolução disso tudo? Nasceu, aí, um problema de confiabilidade.

Você confia no Facebook? Confia no governo? O governo confia no Facebook? Os conservadores confiam no Facebook? Parece que não importa o quanto se tenta provar a própria credibilidade, sempre haverá “haters” na internet espalhando teorias conspiratórias contra você. Confia, então, nos “haters”?

Logo, seria este caso reflexo de uma conspiração contra o Facebook? Ainda é difícil chegar a uma conclusão. Entretanto, será que a questão é mesmo gravíssima, já que o dedo foi apontado por um ex-funcionário?

Ok, prometo, só mais uma pergunta: você confia em robôs e algoritmos?

Em minha reflexão, parece-me que está aí a dificuldade em resolver o problema. Algoritmos, pouco compreendidos pela maioria da população (e pela maioria dos funcionários do Facebook, inclusive), são muitas vezes tidos como forças da natureza. Seriam, por essa lógica, neutros, sem julgamentos, sem direcionamentos. Se eles levam um post à glória, tornando-o viral no Facebook (ou no Google, que seja), seria pelo conteúdo “merecer isso”. Se obscurecem um site (por exemplo: quando ele vai parar lá na sexta página das buscas do Google; quem chega até lá?), seria pela mensagem contida nele ser “irrelevante” para a sociedade. Aí está o erro: acreditar nesse raciocínio.

Algoritmos não são “neutros”. Por isso, não adianta o Google, o YouTube, o Facebook, quem for, os vender como tal. As equações que regem o mundaréu de dados nesses sites são (parece óbvio, mas é preciso relembrar, ressaltar) CRIADAS POR HUMANOS. Pronto, tá aí a dificuldade em avaliar a questão.

A grande maioria está debatendo se o tal algoritmo do Facebook seria tendencioso. Contudo, essa é uma conversa inútil. Qualquer humano é “tendencioso”. Logo, qualquer criação nossa é, também, “tendenciosa”. Ou seja, qualquer algoritmo é “tendencioso”.

Já acompanhei, como observador, o processo de formulação dessas equações. Numa dessas experiências, por exemplo, pude entender detalhes de um algoritmo, de tradução instantânea, do Google. (Nunca é por acaso que algo tem maior destaque no site de buscas. Assim como não é à toa que uma notícia sobe para os “trendings” (os “populares”) do Facebook. É feita uma escolha, por um “robô”, mas guiado por mãos humanas.)

Se algo está lá em cima no Facebook, é porque atende aos critérios estabelecidos para tal: números de compartilhamentos e likes, onde foi publicado, quem repercutiu etc. O mesmo vale para o Google. Ou para o Bing. Ou para o que for. A equação, por mais complexa que seja, tão-somente reflete as escolhas feitas por quem a programou e pela empresa que a detém. Em outras palavras: o algoritmo é sempre tão neutro quanto seus criadores.

E a questão tenderá a se complicar cada vez mais. Hoje, as máquinas já estão sendo programadas para aprender sozinhas. Assim, uma inteligência artificial pode reprogramar um algoritmo, quando julga que um de seus trechos apresenta uma falha, ou que um dos resultados não corresponde ao esperado. Será que essas máquinas, cada vez mais “inteligentes”, também expressarão uma opinião própria? Para mim, na real, a pergunta é outra: QUANDO será que essas máquinas, cada vez mais “inteligentes”, também expressarão uma opinião própria?

Acompanhou até aqui? Então, voltemos ao Facebook.

Após avaliar a atual problemática, tendo a compartilhar, em parte, com a opinião de Glenn Beck. A empresa que detém a rede social, até poucos meses atrás (quase) sempre fechada, cheia de segredos, está abrindo as portas. Eu, também, não posso me queixar disso.

Tanto no Brasil, quanto nos EUA, o Facebook e seus filhotes (Instagram e WhatsApp, em especial), jamais se negaram a “conversar”. Se há um problema, se prontificam. Tentam esclarecer. Procuram ser, no máximo, transparentes. Mas precisavam, mesmo, de tanta explicação? Talvez, bastaria encerrar o assunto dizendo “sim, não só o nosso, mas como todo algoritmo, é direcionado”. Acostumem-se com isso, humanos, pois pode ser que estejamos caminhando para o fim do Antropoceno (a época dos homens), e chegando à era da IA, a da inteligência artificial.

Para acompanhar este blog, siga-me no Twitter, em @FilipeVilicic, e no Facebook.

Comentários
Deixe um comentário

Olá,

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

  1. Comentado por:

    hacs

    Algoritmos sao logica e matematica. A logica e a matematica (e a estatistica, por tabela) sao criadas por humanos, como os algoritmos. Seria uma discussao filosofica interessante explicar em que sentido sao viesadas a logica e a matematica. (y)

    Curtir

  2. Comentado por:

    Continuo não confiando

    A falta de confiança está no fato de não terem deixado isso claro e sempre terem vendido a ideia do top trending como genuinamente o que pretendia ser, o de assuntos mais comentados. O facebook não foi imparcial e nem transparente. São muito abertos para conversar, só quando um ex-funcionário denuncia.

    Curtir

  3. Comentado por:

    Elder

    As maiores estruturas de captação de informações pessoais por algoritmo do mundo. E estão se perguntando se venderiam isso no mercado governista. Porra!! Vai arrumar o que fazer! São bando de idiótas.

    Curtir

  4. Comentado por:

    Pedro Ragazzon

    Muito válido a matéria. Porem só de citar o lunático Glenn Beck perdes credibilidade.

    Curtir

  5. Comentado por:

    .luizhp

    Jogar o google na mesma vala que o facebook é brincar com a inteligência alheia. Facebook é o rei da desinformação e manipulação.

    Curtir

  6. Comentado por:

    silviobraz

    muito bom Filipe “o algoritmo é sempre tão neutro quanto seus criadores.” rs..compartilhandooo

    Curtir

  7. Comentado por:

    Filipe Vilicic

    Obrigado, caro Silvio. Pelo elogio, pela leitura e pelo compartilhamento. Abraço

    Curtir