Rio tem áreas com risco de deslizamento equivalentes a sete Aterros do Flamengo, aponta levantamento
Plataforma Natureza ON mapeia 878 hectares vulneráveis na capital, alerta para avanço de enchentes e insegurança hídrica
Por Ernesto Neves 26 jan 2026, 11h18 • Atualizado em 26 jan 2026, 11h30
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Um levantamento inédito revela que o Rio de Janeiro enfrenta risco silencioso de deslizamentos (878 hectares, 51% altíssimo), inundações e baixa segurança hídrica. A Plataforma Natureza ON propõe Soluções Baseadas na Natureza, como restauração de encostas e lagoas pluviais, integrando planejamento urbano e conservação para proteger vidas.
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Resumo gerado por ferramenta de IA treinada pela redação da Editora Abril.
A cidade do Rio de Janeiro convive com um risco silencioso que se espalha por áreas equivalentes a sete Aterros do Flamengo.
Um levantamento inédito aponta que 878 hectares do município apresentam probabilidade de deslizamentos de terra, sobretudo durante o período de chuvas intensas do verão.
Mais da metade dessas áreas é classificada como de risco muito alto, revelando um quadro estrutural de vulnerabilidade urbana agravado pelas mudanças climáticas e pela ocupação desordenada do território.
Os dados fazem parte da Plataforma Natureza ON, ferramenta gratuita lançada recentemente pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, em parceria com o MapBiomas e com apoio de tecnologias do Google Cloud.
A plataforma cruza mapas, bases públicas e estatísticas oficiais para identificar riscos associados a eventos extremos, como deslizamentos, inundações e insegurança hídrica, e propõe caminhos de adaptação a partir das chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN).
No caso dos deslizamentos, o diagnóstico é claro. Do total de áreas suscetíveis no município, 51% estão em nível de risco muito alto, 38% em risco alto e 11% em risco médio.
São regiões onde a combinação entre relevo acidentado, chuvas intensas e cobertura vegetal insuficiente cria um cenário propício a tragédias recorrentes, muitas vezes concentradas em encostas densamente ocupadas.
Para enfrentar esse problema, a principal estratégia indicada pela plataforma é a restauração de encostas, aliando vegetação nativa a técnicas geotécnicas.
Segundo a bióloga Juliana Baladelli Ribeiro, gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, a natureza precisa deixar de ser vista como obstáculo ao desenvolvimento urbano.
“As obras de engenharia convencional ainda são tratadas como solução quase exclusiva, mas a adaptação das cidades às mudanças climáticas exige um novo olhar. A vegetação, associada a intervenções técnicas seguras, ajuda a estabilizar o solo, reduzir deslizamentos e regular o escoamento das águas da chuva”, afirma.
O levantamento também expõe a vulnerabilidade do Rio às inundações, alagamentos e enxurradas.
Cerca de 274 hectares da cidade estão em áreas com alta probabilidade de impactos imediatos das chuvas intensas, o equivalente a 275 campos de futebol.
Os mapas indicam que o risco está diretamente ligado à impermeabilização do solo e à ocupação das margens de rios e canais.
Para esses casos, a plataforma recomenda a implantação de lagoas pluviais e bacias de retenção, estruturas capazes de armazenar temporariamente a água da chuva e liberá-la de forma gradual.
Além de reduzir os picos de vazão e os alagamentos, essas soluções contribuem para a melhoria da qualidade da água e podem ser integradas a parques e áreas públicas.
Outro ponto crítico revelado pela Natureza ON é a segurança hídrica.
Em cerca de 98% do território do município, o cenário é de baixa ou mínima segurança no abastecimento de água, segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA). Em 66% da cidade, a insegurança hídrica é considerada baixa; em 32%, a segurança é mínima.
Nesse contexto, a restauração do entorno dos mananciais aparece como medida prioritária, acompanhada da criação de corredores ecológicos, parques lineares ao longo de rios e lagoas e áreas verdes multifuncionais, capazes de proteger as fontes de água e, ao mesmo tempo, ampliar os benefícios urbanos.
O diagnóstico ambiental ajuda a explicar a dimensão dos riscos. Hoje, mais de 62% do território do Rio é urbanizado, enquanto apenas 26% mantém cobertura florestal. O restante se distribui entre restingas arbóreas, campos alagados, áreas pantanosas, manguezais, rios e lagos.
A baixa presença de vegetação, especialmente em áreas densamente ocupadas, aumenta a vulnerabilidade a eventos extremos.
Além de reunir dados técnicos, a Plataforma Natureza ON permite consultas por município, bacia hidrográfica ou setor censitário, a menor unidade territorial utilizada pelo IBGE.
A proposta é oferecer uma ferramenta prática tanto para gestores públicos quanto para a sociedade civil, num momento em que as cidades brasileiras enfrentam o desafio de se adaptar a um clima cada vez mais instável, marcado por chuvas extremas e períodos prolongados de estiagem.
Ao colocar a natureza no centro da estratégia de adaptação, o levantamento reforça uma mudança de paradigma.
No Rio, onde tragédias associadas a deslizamentos e enchentes se repetem há décadas, os dados escancaram que a crise climática não é apenas um problema ambiental, mas uma questão urgente de planejamento urbano, justiça social e proteção da vida.





