Reino Unido corta emissões de gases poluentes ao menor nível em 150 anos
Queda de 2,4% em 2025 reflete fim do carvão na geração elétrica, recuo do uso de gás e avanço de carros elétricos
Por Ernesto Neves 9 mar 2026, 09h23 • Atualizado em 9 mar 2026, 09h44
As emissões de gases de efeito estufa do Reino Unido caíram 2,4% em 2025 e atingiram o nível mais baixo em mais de 150 anos, segundo análise do site especializado Carbon Brief baseada em dados preliminares do governo britânico.
Ao todo, o país emitiu cerca de 364 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente no ano passado, o menor volume desde 1872, quando a economia britânica ainda era dominada pela indústria pesada e pelo uso intensivo de carvão.
A redução reflete uma transformação estrutural no sistema energético do país nas últimas décadas.
O Reino Unido hoje emite 54% menos gases de efeito estufa do que em 1990, ano que serve de referência para metas climáticas internacionais, mesmo com a economia quase tendo dobrado de tamanho no período.
Dados do World Bank indicam que o Produto Interno Bruto britânico cresceu cerca de 95% desde então, evidenciando um processo de dissociação entre crescimento econômico e emissões de carbono.
A queda registrada em 2025 foi puxada principalmente pelo recuo no consumo de combustíveis fósseis, em especial carvão e gás natural.
O uso de carvão despencou 56% no ano passado e chegou ao menor nível em mais de quatro séculos.
O país consumiu menos de 1 milhão de toneladas do combustível em 2025, um volume comparável ao registrado por volta de 1600, período em que a Inglaterra era governada pela rainha Elizabeth I e em que o dramaturgo William Shakespeare escrevia obras como Hamlet.
Esse colapso do carvão está diretamente ligado ao encerramento da última usina termelétrica do país movida pelo combustível, a Ratcliffe-on-Soar Power Station, que deixou de operar em setembro de 2024.
Durante décadas, o carvão foi a base da geração elétrica britânica e símbolo da Revolução Industrial, mas sua participação vinha caindo rapidamente à medida que fontes renováveis e gás natural passaram a dominar a matriz energética.
Além do fim da geração elétrica a carvão, a redução no consumo do combustível também foi influenciada por dificuldades na indústria siderúrgica britânica.
O setor perdeu capacidade após o fechamento de dois altos-fornos no complexo de Port Talbot steelworks, no País de Gales, uma das maiores usinas de aço da Europa.
A unidade está sendo convertida para produção com fornos elétricos, tecnologia que dispensa o uso de carvão e reduz significativamente as emissões.
O gás natural também registrou queda relevante no consumo. A demanda pelo combustível recuou 1,5% em 2025 e atingiu o menor nível desde 1992.
A redução foi impulsionada principalmente pela menor necessidade de aquecimento em edifícios e pela retração da atividade industrial, fatores que refletem tanto temperaturas excepcionalmente altas no país quanto os preços elevados da energia.
Os custos do gás na Europa permanecem acima dos níveis observados antes da invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, episódio que desorganizou o mercado energético do continente.
Mais recentemente, as tensões no Oriente Médio envolvendo o Irã também contribuíram para novas oscilações nos preços internacionais do combustível.
No setor de transportes, as emissões seguem elevadas, mas começam a mostrar sinais de mudança com a expansão da frota de veículos elétricos.
Em 2025, cerca de 700 mil novos carros, vans e híbridos plug-in foram incorporados às estradas britânicas. Atualmente, quase 3 milhões de veículos eletrificados circulam no país, o equivalente a aproximadamente 5% da frota total.
Segundo estimativas da análise, esses veículos evitam a emissão de mais de 7 milhões de toneladas de dióxido de carbono por ano.
A transição também gera economia para os motoristas, já que os carros elétricos são mais eficientes e têm custos operacionais menores do que veículos movidos a gasolina ou diesel.
Apesar desses avanços, especialistas afirmam que o ritmo atual de redução ainda está aquém do necessário para cumprir as metas climáticas estabelecidas pelo país no âmbito do Acordo de Paris.
Para alcançar a neutralidade de carbono até 2050, o Reino Unido precisará reduzir suas emissões em média cerca de 15 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano nas próximas décadas. Em 2025, o corte foi de aproximadamente 9 milhões de toneladas.
O desafio também envolve setores em que a transição energética avança mais lentamente, como aquecimento residencial, agricultura e indústria pesada.
No caso das residências, por exemplo, a substituição de caldeiras a gás por bombas de calor elétricas ainda ocorre em ritmo considerado modesto. Cerca de 125 mil unidades foram instaladas em 2025, número inferior ao registrado em vários países europeus.
A experiência britânica, ainda assim, costuma ser citada por analistas como um exemplo relevante de transformação energética em economias desenvolvidas.
Ao longo das últimas duas décadas, o país praticamente eliminou o carvão da geração elétrica e expandiu rapidamente a produção de energia eólica e solar.
desafio agora é replicar essa velocidade de mudança em setores mais difíceis de descarbonizar, especialmente transporte pesado, indústria e aquecimento urbano.





