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Por que o aquecimento global transforma Groenlândia em alvo estratégico de Trump

Além das rotas marítimas, a região que pertence à Dinamarca abriga grandes reservas de terras raras

Por Ernesto Neves 9 jan 2026, 09h53 • Atualizado em 9 jan 2026, 10h15
  • O avanço das mudanças climáticas no Ártico colocou a Groenlândia no centro da nova agenda geopolítica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

    O degelo acelerado da região abriu rotas marítimas antes inacessíveis, ampliou o interesse por minerais estratégicos e reforçou a percepção, na Casa Branca, de que a maior ilha do mundo se tornou um ativo-chave para a segurança nacional americana.

    Na quarta-feira 7, Trump anunciou a retirada dos EUA da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), tratado que serve de base legal para a cooperação climática global.

    A decisão vai além do abandono do Acordo de Paris, em 2017, e inclui também a saída do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal órgão científico da ONU sobre o tema, segundo reportagem do New York Times.

    Paradoxalmente, é justamente o aquecimento global, que Trump costuma classificar como “farsa”, que impulsiona o interesse estratégico americano pela Groenlândia.

    A ilha, território autônomo ligado à Dinamarca, aquece a um ritmo muito superior à média global. Seu manto de gelo encolhe há décadas, facilitando o acesso a áreas antes cobertas por gelo permanente. Para o governo Trump, isso transforma a região em peça central na disputa por novas rotas comerciais e por recursos minerais críticos.

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    A ideia de controlar a Groenlândia, vista como excentricidade no primeiro mandato do republicano, passou a ser tratada internamente como objetivo real.

    O assessor Stephen Miller afirmou recentemente que os EUA teriam o direito de “tomar” o território, enquanto o secretário de Estado, Marco Rubio, disse ao Congresso que Trump pretende comprá-lo da Dinamarca.

    A reação foi imediata. Autoridades groenlandesas rejeitaram qualquer negociação, e a primeira-ministra dinamarquesa alertou que uma intervenção militar colocaria em risco a permanência dos EUA na Otan.

    Rotas marítimas e disputa global

    O interesse americano se concentra sobretudo no Ártico. Com o recuo do gelo marinho, o tráfego naval na região cresce de forma consistente. Na teoria, as rotas polares reduzem drasticamente o tempo de viagem entre a Ásia, a Europa e a América do Norte.

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    A Rússia investe há anos na Rota Marítima do Norte, apoiada por quebra-gelos e infraestrutura militar. Em outubro, um navio cargueiro chinês percorreu o trajeto até o Reino Unido em apenas 20 dias — cerca da metade do tempo das rotas tradicionais — transportando painéis solares e veículos elétricos, segundo a agência Reuters.

    A China, que se define como “potência quase ártica”, fala abertamente em uma “Rota da Seda Polar”. Especialistas ouvidos pelo New York Times afirmam que projeções indicam verões praticamente sem gelo em partes do Ártico nas próximas duas décadas.

    Em resposta, Trump autorizou em outubro a construção de até quatro novos quebra-gelos, citando “competição estratégica crescente” e “avanço econômico e militar de adversários estrangeiros” na região.

    “Precisamos da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”, disse Trump no domingo.

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    Minerais críticos e interesses privados

    Além das rotas marítimas, a Groenlândia abriga grandes reservas de terras raras, essenciais para baterias, celulares, turbinas eólicas e tecnologias militares. Hoje, a China domina a cadeia global desses minerais, um fator que preocupa Washington.

    Reportagens do New York Times mostram que aliados de Trump também têm interesses financeiros na região.

    Antes de assumir o Departamento de Comércio, Howard Lutnick mantinha participação em uma empresa de mineração com ativos na Groenlândia.

    Já empresários do Vale do Silício como Sam Altman, Jeff Bezos e Marc Andreessen têm vínculos com companhias que exploram oportunidades minerais no Ártico e que apoiaram financeiramente a campanha de Trump.

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    Apesar do potencial, a exploração enfrenta obstáculos severos. A Groenlândia tem menos de 100 km de estradas, população de apenas 57 mil habitantes e infraestrutura limitada.

    Atualmente, existem apenas duas minas em operação. Projetos anteriores fracassaram por custos elevados, dificuldades logísticas e forte resistência local.

    O território proibiu a mineração de urânio, comum em depósitos de terras raras, e abandonou a exploração de petróleo por razões ambientais e econômicas.

    Um projeto com capital australiano e apoio chinês chegou a investir US$ 100 milhões antes de ser barrado pelo governo local, após protestos populares.

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    “Não está claro se esses projetos são viáveis hoje”, disse Sherri Goodman, ex-subsecretária adjunta de Defesa dos EUA, ao New York Times. “Mas, no longo prazo, há quem veja a Groenlândia como um grande projeto imobiliário do futuro.”

    Clima, poder e contradição

    A ofensiva de Trump sobre a Groenlândia expõe uma contradição central de sua política: ao mesmo tempo em que desmonta a governança climática internacional, o governo americano tenta capitalizar geopoliticamente os efeitos do aquecimento global.

    Segundo levantamento da organização Climate Central, os desastres climáticos causaram US$ 115 bilhões em prejuízos aos EUA no último ano, o quinto valor acima de US$ 100 bilhões em seis anos, mesmo sem a ocorrência de grandes furacões.

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