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Plano climático do Brasil aposta no fim do desmatamento e prevê alta nas emissões de energia até 2035

Nova estratégia prioriza a proteção da Amazônia, mas é criticada por falta de ambição na transição dos combustíveis fósseis

Por Ernesto Neves 18 mar 2026, 08h34 • Atualizado em 18 mar 2026, 09h11
  • O Brasil atualizou, pela primeira vez em quase duas décadas, seu principal plano de enfrentamento à crise climática.

    A nova versão do plano nacional, divulgada nesta semana, reposiciona o combate ao desmatamento como eixo central da estratégia, ao mesmo tempo em que admite um dado incômodo: as emissões do setor de energia devem crescer nos próximos anos.

    A seguir, os principais pontos da nova política climática brasileira, com contexto e análise.

    Desmatamento segue no centro da estratégia

    O novo plano climático do governo de Luiz Inácio Lula da Silva projeta ações até 2035 e reafirma uma diretriz já conhecida: conter o desmatamento é a forma mais rápida e eficaz de reduzir as emissões do país.

    Diferentemente da maior parte das economias desenvolvidas, onde o grosso da poluição vem da queima de combustíveis fósseis, o Brasil tem uma matriz de emissões atípica.

    Quase metade dos gases de efeito estufa do país vem da mudança no uso da terra, especialmente da derrubada de florestas na Amazônia.

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    Esse perfil faz com que políticas de fiscalização ambiental, combate à grilagem e controle de queimadas tenham impacto imediato nas metas climáticas.

    Lula já havia prometido zerar o desmatamento ilegal até 2030, compromisso que é reiterado no novo plano.

    Energia limpa, mas com emissões em alta

    Apesar de o Brasil ter uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, fortemente baseada em hidrelétricas, biocombustíveis e fontes renováveis, o setor de energia ainda responde por cerca de 20% das emissões nacionais.

    O dado mais controverso do plano é a previsão de aumento dessas emissões até 2035. A alta pode variar de 1% a 44%, dependendo do cenário econômico e da expansão da demanda por energia.

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    Na prática, o governo aposta em um “equilíbrio climático”: as reduções obtidas com o fim do desmatamento compensariam o crescimento das emissões energéticas.

    Esse raciocínio, no entanto, é alvo de críticas, sobretudo em um momento em que a pressão internacional se volta para a redução do uso de combustíveis fósseis.

    Metas internacionais e o Acordo de Paris

    O Brasil está entre os dez maiores emissores de gases de efeito estufa do planeta e assumiu compromissos relevantes no Acordo de Paris.

    A meta atualizada prevê reduzir as emissões entre 59% e 67% até 2035, em comparação com os níveis de 2005, além de alcançar a neutralidade de carbono até 2050.

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    Esses compromissos colocam o país sob escrutínio internacional, especialmente por seu papel estratégico na preservação de florestas tropicais e na regulação do clima global.

    Adaptação climática ganha mais espaço

    Outro avanço do novo plano é a inclusão mais robusta de políticas de adaptação. A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, destacou que enfrentar a mudança do clima não se resume a cortar emissões, mas também a proteger populações vulneráveis.

    Eventos extremos, como chuvas intensas, secas prolongadas e ondas de calor, têm se tornado mais frequentes e severos no Brasil, exigindo respostas coordenadas em áreas como infraestrutura, saúde pública e planejamento urbano.

    Avaliação: avanço institucional, ambição limitada

    Especialistas avaliam que o novo plano é mais abrangente do que sua versão anterior, de 2008. Ele envolve diferentes ministérios, amplia o foco para além da mitigação e começa a tratar da implementação prática das políticas.

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    Ainda assim, organizações independentes apontam lacunas importantes. O Observatório do Clima elogiou a estrutura do plano, mas criticou a falta de ambição na transição energética.

    Para o grupo, o Brasil ainda não apresenta uma estratégia clara para reduzir de forma consistente o uso de combustíveis fósseis, um ponto considerado essencial para limitar o aquecimento global a 1,5°C, meta central da ciência climática.

    O dilema brasileiro

    O plano revela, em última instância, um dilema estrutural: o Brasil tem uma vantagem comparativa na agenda climática por causa de suas florestas, mas corre o risco de depender excessivamente dessa vantagem.

    Ao apostar quase tudo no fim do desmatamento, o país adia decisões mais difíceis sobre seu modelo energético e industrial.

    A questão que se impõe é se essa estratégia será suficiente em um mundo que caminha, ainda que lentamente, para uma economia de baixo carbono.

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