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Pirarucu vira ameaça no Distrito Federal e tem abate autorizado

A presença do peixe no Lago Paranoá pode, segundo órgãos ambientais, prejudicar a diversidade e a economia local

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 20 mar 2026, 20h08 • Atualizado em 20 mar 2026, 20h22
  • Espécie típica da Amazônia, o pirarucu encontrou outras águas para nadar: a Bacia do Paranoá, no Distrito Federal. Mas o visitante não foi bem-vindo, ao menos pelos órgãos ambientais. O peixão, que pode chegar a dois metros de comprimento e pesar mais de 100 quilos, foi visto como um invasor ameaçador para a diversidade local. Resultado: o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou a pesca, captura e abate no Distrito Federal.

    A medida foi publicada no Diário Oficial da União nesta última quinta-feira, 19. A decisão vale para áreas onde o pirarucu não ocorre naturalmente, como a bacia do Paranoá, que inclui o Lago Paranoá. Segundo o Instituto Brasília Ambiental (Ibram), além dos riscos às espécies, pode impactar a economia regional e até a saúde humana.

    Originário da Amazônia, o pirarucu é um dos maiores peixes de água doce do mundo e tem a habilidade de respirar na superfície, o que aumenta sua capacidade de caça. Fora de seu ambiente natural, tem alta capacidade de consumo e adaptação — o que faz dele uma ameaça ao equilíbrio ecológico. Em ecossistemas como o do Lago Paranoá, que têm menor diversidade, por exemplo, do que os rios amazônicos, já adaptados à presença do peixão. Na Amazônia, onde é nativo, o pirarucu desempenha um papel importante no equilíbrio dos ecossistemas.

    No lago, o impacto negativo pode ser observado de forma concreta em diferentes níveis da fauna aquática. Espécies pequenas, como os lambaris (do gênero Astyanax), viram petisco, o que pode provocar uma queda rápida em suas populações e afetar toda a base da cadeia alimentar. Já a tilápia (Oreochromis niloticus), apesar de também ser exótica, tem importância econômica na pesca local e pode sofrer com a predação, especialmente em fases juvenis, gerando prejuízos para pescadores. O pirarucu também faria frente com muita vantagem competitiva aos predadores nativos como a traíra (Hoplias malabaricus), o que causaria queda dessa espécie.

    A autorização do Ibama permite o abate e a comercialização dos exemplares capturados, desde que restrita ao estado de origem e vinculada ao controle populacional. Caso o produto seja encontrado fora dessa área, poderá ser apreendido pelas autoridades. Especialistas destacam que a medida segue práticas adotadas em diversos países para lidar com espécies invasoras já estabelecidas. Como a erradicação completa é difícil, o controle por meio da pesca se torna uma alternativa viável, inclusive com potencial de engajar a população local. Sua presença pode agravar pressões ambientais já existentes, como poluição e introdução de outras espécies exóticas.

    A decisão, portanto, não transforma o peixe em vilão, mas evidencia um problema crescente: o impacto da circulação de espécies fora de seus habitats naturais — muitas vezes causado por ação humana — e os desafios para conter seus efeitos. Vale destacar que na Amazônia o peixe já esteve sob ameaça de extinção, mas a população se recuperou graças à ação de um manejo sustentável. Durante o período de reprodução, chamada época do defeso, a pesca é proibida. Fora dessa temporada, há cotas de captura. Ali também foi introduzido o monitoramento populacional, no qual a comunidade conta os peixes antes de decidir quantos podem ser retirados.

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