O alerta que vem do gelo
Tem início a expedição ao redor do Ártico que vai estudar os efeitos do aquecimento global no derretimento da calota polar, em fenômeno preocupante e crescente
Enquanto os termômetros avançam, a Terra retrocede no tempo. O que parece ser apenas uma frase de efeito para alertar sobre os perigos do aquecimento global é, na realidade, uma incômoda constatação. As emissões de gás carbônico lançadas pela atividade humana estão fazendo com que o clima se assemelhe ao de 3 milhões de anos atrás, quando as altas concentrações de CO2 retinham o calor e faziam do Polo Norte um imenso oceano, quase sem gelo — mesmo nas temporadas mais frias. Cientistas alertam que o mundo está prestes a reproduzir as mesmas condições do chamado Plioceno Médio, com a gravidade de o cenário não ter sido causado por razões naturais. O Painel Climático da ONU prevê que até 2050 o Ártico enfrentará o primeiro setembro — mês que fecha o verão naquelas paragens — sem praticamente qualquer vestígio de água congelada.
A previsão desencadeou uma corrida contra o relógio para tentar prever o tamanho do impacto dessa mudança no planeta. Pesquisadores de doze países acabam de lançar âncora na banquisa do Oceano Ártico Central, a bordo do Tara Polar, um navio-laboratório que passará as próximas duas décadas monitorando o Polo Norte antes que ele derreta de vez. Após um mês de viagem, partindo da Noruega, a equipe formada por seis cientistas, um médico, um cozinheiro, um mecânico e três tripulantes, chegou a um ermo local, próximo à Rússia e distante 845 quilômetros do ponto mais ao norte do globo. O caminho foi aberto por uma embarcação do tipo quebra-gelo chinesa, mas será fechado com a diminuição da temperatura até que o navio fique preso, cercado de gelo, deixando os doze ocupantes da missão completamente isolados. “Tivemos de passar por testes médicos e psicológicos e treinamento para lidar com possíveis conflitos”, diz Nina Schuback, oceanógrafa no Instituto Polar da Suíça, que prevê passar oito longos meses se dedicando à ciência, distante da civilização.
O isolamento, no entanto, é necessário para investigar a fundo região tão inóspita, repleta de segredos por serem revelados. Uma das principais frentes de pesquisa trata dos danos que a alteração da dinâmica do Ártico pode trazer para a porção do planeta coberta por água salgada. O crescimento e a diminuição da calota polar, que ocorrem conforme as estações do ano vão mudando, garantem a liberação de nutrientes essenciais para os ecossistemas marinhos. O descongelamento solta microrganismos por baixo da placa de gelo. “É como uma grande chuva que semeia todos os oceanos”, diz Cesar Amaral, professor de biologia da UERJ. Uma vez livres pelo mar, os minúsculos seres vivos, conhecidos como plânctons, se espalham pelas correntes marítimas na Circulação Termohalina, a grande estrada submersa que percorre a costa dos seis continentes, em uma extensa rota com cerca de 100 000 quilômetros. “É uma esteira que distribui comida”, afirma Chris Bowler, codiretor da expedição Tara Polaris I.
Equipamentos tecnológicos avançados, como drones aquáticos e submarinos autônomos, ajudarão a identificar os obstáculos impostos à natureza. O grande temor é que, uma vez desprendidos, esses nutrientes nunca mais voltem ao Ártico, mesmo se os níveis de carbono diminuírem na atmosfera e a temperatura voltar a cair. “As mudanças provavelmente afetarão a distribuição do plâncton e, consequentemente, importantes fontes da nossa alimentação, como os peixes”, diz Bowler, da Tara Polaris I. É dado como certo que o derretimento contribuirá para redistribuir o calor pelo mundo e agravar o efeito estufa. O motivo: ao longo de centenas de milhares de anos, as enormes geleiras capturaram CO2 que agora retornaria ao ambiente. Há ainda o temor de que vírus e outros seres vivos desconhecidos — e perigosos — escapem, prejudicando a humanidade.
Além do futuro incerto e um tanto aterrorizador, os doze integrantes da Tara Polaris I terão de conviver com um presente implacável. Presos a uma enorme jangada de gelo que boia no oceano, eles terão de enfrentar temperaturas que podem chegar a 50 graus negativos e cerca de seis meses de noite ininterrupta, durante o inverno. “A maior fonte de luz é a lua cheia e as auroras boreais, que são sempre surpreendentes. Acredito que isso vai ser um ponto alto na experiência da equipe”, diz a velejadora Tamara Klink, que já viveu a experiência de atracar o barco na banquisa. A rotina extrema obrigará a equipe a fazer rodízios constantes. “Fomos treinados para utilizar os mesmos protocolos, uma maneira de garantirmos a continuidade dos estudos”, afirma o canadense Maxime Geoffroy, outro integrante da primeira leva de pesquisadores.
Graças aos fortes ventos e às correntes marítimas, a expedição viajará cerca de 4 000 quilômetros até encontrar o Estreito de Fram, localizado entre a Noruega e a Groenlândia, daqui a doze meses. Será, então, a hora de se dirigir ao ponto inicial e começar tudo de novo, num ciclo que se repetirá outras dezenove vezes. Enquanto decifram o clima de amanhã, os cientistas trazem o alerta mais urgente que o planeta pode nos dar hoje: é preciso agir para conter os termômetros antes que seja tarde demais, antes que o gelo se cale.
Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014








