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Mercado de cannabis medicinal nacional avança para a autossuficiência

Com cientistas, pesquisadores, cursos, congressos e grandes farmacêuticas, o setor está preparado para novos saltos

Por Valéria França Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 9 fev 2026, 17h31 • Atualizado em 9 fev 2026, 18h03
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    Desde que a comercialização e a importação da cannabis medicinal foram regulamentadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio da RDC 327, em 2019, o mercado deixou de ser uma aposta para se transformar em um setor consolidado, que fatura cerca de R$ 1 bilhão, segundo estimativas da Kaya Mind. Na época, a agência determinou que, para ingressar no mercado de produção e venda de produtos à base de canabidiol (CBD), as empresas deveriam operar sob normas farmacêuticas rigorosas — ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos, onde o produto é classificado como suplemento alimentar. Desde então, 68 empresas protocolaram 210 pedidos de autorização sanitária junto à Anvisa, dos quais 24 foram aprovados até o fim do ano passado.

    Isso porque a maioria dos empreendedores era formada por pequenas startups, que inicialmente não imaginavam que teriam de lidar com exigências como testes de pureza, boas práticas de fabricação, farmacovigilância e outros requisitos comuns à indústria farmacêutica tradicional. Como grande parte dessas empresas não vinha do setor, poucas conseguiram atravessar o funil regulatório. No início, as grandes farmacêuticas permaneceram mais como espectadoras do processo. A primeira a entrar efetivamente no mercado foi a Prati-Donaduzzi, em 2020. Como distribuir um produto medicinal no país exige muito dinheiro, houve uma acomodação que levou à formação de novas parcerias.

    “Nos últimos anos, grandes farmacêuticas se associaram a startups da cannabis para entrar no jogo”, afirma o farmacologista Fabrício Pamplona, que integrou a comissão de especialistas da Anvisa responsável pela revisão da RDC 327 e pela elaboração de três novas normas, que autorizam o cultivo medicinal e regulamentam a pesquisa científica e a atuação das associações de pacientes. As novas regras, no entanto, só passam a valer após a publicação no Diário Oficial da União.

    Mesmo diante dos entraves regulatórios, as empresas brasileiras de cannabis medicinal alavancaram a formação de novos especialistas em farmacologia canabinoide, como o próprio Pamplona, que se tornou referência a ponto de prestar consultoria internacional. Em Portugal, participou da construção da regulação para o produto, por exemplo. No Brasil, houve ainda um boom de empresas de educação voltadas à capacitação de médicos prescritores. Em 2022, surgiu o primeiro congresso médico dedicado exclusivamente ao tema, realizado no Expo Center Norte, em São Paulo, com foco em história, farmacologia e casos clínicos. Produzido pelo Sechat — inicialmente um portal de informação montado em 2019, que ampliou suas atividades —, o Congresso Brasileiro da Cannabis Medicinal chega agora à ição, agora no Transamérica Expo Center, marcada para maio, em paralelo a uma feira do setor. A organização já anunciou 950 participantes, palestrantes de 13 países e conteúdos ligados a 13 especialidades médicas.

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    “O evento também se transformou em um centro de divulgação de trabalhos científicos, protocolos clínicos, estudos de caso e experiências práticas”, afirma Daniel Jordão, fundador do Sechat. Para garantir a qualidade científica, a empresa criou a Sechat Academy, em parceria com o neurocirurgião Pedro Pierro, um dos médicos com maior experiência em cannabis medicinal no país.

    Em paralelo, instituições de ensino superior passaram a reconhecer a relevância terapêutica dos derivados da planta. A Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) oferece um curso de extensão sobre o tema, enquanto a Escola de Educação Permanente do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCX-FMUSP) mantém um curso ministrado por médicos, com certificação da FMUSP.

    O amadurecimento do mercado também levou, mais recentemente, à entrada de farmacêuticas que até estavam na plateia e decidiram entrar para o jogo. Entre elas,  Ease Labs, Greencare e Endogen. No ano passado, a Eurofarma passou a atuar no segmento, motivada não apenas pelos números promissores, mas também, segundo a empresa, “pelo potencial terapêutico do CBD, já reconhecido em diferentes contextos clínicos”.

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    Segundo especialistas, o canabidiol tem potencial para se tornar, em um futuro próximo, um medicamento tão normatizado quanto a dipirona, um dos fármacos mais consumidos no Brasil. “Diferentemente da farmacologia convencional, trata-se de um produto sem patente, com eficácia comparável à de muitos medicamentos alopáticos e, em diversos casos, com menos efeitos colaterais”, explica Pamplona.

    A entrada das grandes farmacêuticas, somada à perspectiva de autorização do cultivo medicinal no país, sinaliza uma inflexão no mercado brasileiro de cannabis medicinal. A produção nacional tende a reduzir custos, ampliar o acesso e diminuir a dependência de importações, abrindo caminho para a autossuficiência do setor. Esse conjunto de fatores inaugura uma nova era para a cannabis medicinal no Brasil.

     

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