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Guerra no Irã provoca desastre climático sem precedentes e espalha nuvens tóxicas sobre milhões

Evento já é tratado como um dos episódios ambientais mais graves já registrados em zonas urbanas de conflito

Por Ernesto Neves 20 mar 2026, 11h16 • Atualizado em 20 mar 2026, 12h24
  • A guerra no Oriente Médio entrou em uma nova e alarmante fase ao transformar a capital iraniana, Teerã, em epicentro de uma catástrofe ambiental de grandes proporções.

    O bombardeio a depósitos de combustível e refinarias nos arredores da cidade, em 8 de março, não apenas ampliou a escalada militar entre Irã e Israel, como desencadeou um evento climático extremo.

    Uma nuvem densa de fumaça tóxica que cobriu bairros inteiros e se misturou à chuva, resultando em precipitação contaminada, descrita por moradores como “chuva negra”.

    Segundo relatos reunidos por agências internacionais e pesquisadores, drones israelenses atingiram infraestruturas petrolíferas estratégicas na periferia noroeste da capital.

    O impacto provocou incêndios de grande escala, alimentados por combustíveis fósseis altamente inflamáveis. Em poucas horas, colunas espessas de fumaça carregadas de fuligem, hidrocarbonetos e dióxido de enxofre se espalharam pela atmosfera urbana.

    Com a chegada de nuvens carregadas no mesmo dia, esses poluentes foram incorporados à chuva, que caiu sobre a cidade com propriedades corrosivas.

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    Moradores relataram cenas de confusão e medo nas horas seguintes. Roupas deixadas ao ar livre ficaram manchadas por resíduos escuros. Superfícies de prédios e varandas amanheceram cobertas por uma camada oleosa.

    O ar se tornou pesado, com cheiro químico persistente. “Parecia que estávamos respirando fumaça líquida”, descreveu um engenheiro iraniano que deixou a cidade rumo ao norte do país com a família. Muitos habitantes, inicialmente orientados a permanecer em casa, relataram irritação nos olhos, dificuldade respiratória e dores de cabeça.

    A situação se agravou nos dias seguintes. Sem acesso regular à internet e com comunicações limitadas, a população enfrentou informações contraditórias.

    Autoridades chegaram a recomendar que as pessoas evitassem exposição à chuva devido ao risco de queimaduras químicas, recomendação alinhada à Organização Mundial da Saúde. Ainda assim, eventos públicos foram mantidos, aumentando a exposição de parte da população.

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    Especialistas apontam que o episódio pode ter efeitos duradouros. O Conflict and Environment Observatory, organização britânica que monitora impactos ambientais de guerras, classificou o ataque como o maior incidente de poluição do conflito até agora.

    Mais de 300 eventos com risco ambiental já foram identificados desde o início das hostilidades.

    Moradores de Teerã, metrópole com 18 milhões de habitantes, observam fumaça tóxica encobrir a cidade
    Moradores de Teerã, metrópole com 18 milhões de habitantes, observam fumaça tóxica encobrir a cidade (Getty/Getty Images)

    A explicação científica para a gravidade do fenômeno é direta. Explosões de mísseis e incêndios em instalações petrolíferas liberam uma combinação perigosa de metais pesados, como chumbo, cádmio e níquel, além de compostos orgânicos tóxicos.

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    Quando esses poluentes se ligam à água da chuva, tornam-se ainda mais nocivos, pois podem ser absorvidos com maior facilidade pelo corpo humano, atingindo sistemas vitais como o nervoso e o renal.

    Pesquisadores como o engenheiro químico Nejat Rahmanian comparam o episódio a eventos históricos, como os incêndios de poços de petróleo durante a Guerra do Golfo, em 1991.

    Na ocasião, a fumaça atravessou fronteiras e chegou ao Irã, gerando impactos ambientais que se estenderam por anos e até influenciaram o derretimento de geleiras no Himalaia.

    A diferença agora é a proximidade: desta vez, a poluição foi gerada dentro da própria região metropolitana de Teerã, onde vivem cerca de 18,5 milhões de pessoas.

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    A geografia da cidade agrava o problema. Cercada pelas montanhas Alborz, Teerã sofre com inversões térmicas que aprisionam poluentes próximos ao solo.

    Em condições normais, a chuva ajudaria a limpar o ar. Neste caso, porém, teve o efeito oposto, funcionando como veículo de contaminação.

    Os impactos na saúde devem ser imediatos e também de longo prazo. Especialistas da Universidade da Califórnia alertam para o aumento de doenças respiratórias agudas, com maior risco para crianças e gestantes.

    Já os efeitos crônicos podem incluir câncer, danos neurológicos e contaminação de água.

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    Além da crise humanitária, o episódio levanta preocupações globais. A região concentra algumas das maiores reservas de petróleo e gás do mundo, com infraestrutura altamente vulnerável a ataques.

    A repetição de eventos como esse pode desencadear uma cadeia de desastres ambientais, afetando não apenas o Oriente Médio, mas também o clima global.

    Para analistas, a guerra atual inaugura um novo tipo de risco: conflitos armados que produzem impactos climáticos comparáveis a desastres industriais de grande escala.

    céu é encoberto por resíduos de fuligem de petróleo provenientes das instalações de armazenamento de combustível de Teerã, atingidas durante uma campanha militar dos Estados Unidos e de Israel na capital do Irã, em 9 de março de 2026
    céu é encoberto por resíduos de fuligem de petróleo provenientes das instalações de armazenamento de combustível de Teerã, atingidas durante uma campanha militar dos Estados Unidos e de Israel na capital do Irã, em 9 de março de 2026 (Getty/Getty Images)
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