Espanha registra em 20 dias o volume de chuva esperado para um ano inteiro
Sequência de “rios atmosféricos” despeja quase 2 metros de precipitação no sul do país e amplia alerta sobre extremos climáticos na Europa
A pequena cidade de Grazalema, na Andaluzia, sul da Espanha, registrou mais de 90 polegadas de chuva desde o início do ano, o equivalente a cerca de 2,3 metros.
Somente nos últimos 20 dias, foram 78 polegadas, ou quase 2 metros de precipitação, volume superior ao que normalmente cairia ao longo de um ano inteiro na região.
Meteorologistas classificaram o fenômeno como “hidrológicamente absurdo”. A marca supera padrões históricos de semanas e meses consecutivos de chuva e se aproxima de recordes registrados desde 1941, quando medições sistemáticas começaram a ser feitas na área.
A sequência de tempestades, incluindo a chamada tempestade Leonardo, integra uma série de “rios atmosféricos” que atingem a Península Ibérica desde o início de 2026.
O fenômeno consiste em corredores concentrados de vapor d’água que se deslocam pelos céus, transportando umidade dos trópicos para latitudes médias. Ao encontrar barreiras montanhosas, como as da Andaluzia, o ar úmido é forçado a subir, resfria e despeja grandes volumes de chuva.
Segundo análise do Washington Post baseada em dados do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, cerca de 65% do planeta registrou níveis acima da média de umidade atmosférica em janeiro.
A Espanha aparece como um dos pontos críticos em que o aumento do fluxo de vapor tem se traduzido em eventos extremos de precipitação.
Além de Grazalema, cerca de 2.000 moradores foram evacuados na região durante o pico da tempestade. Solos calcários já saturados passaram a expelir água, num comportamento semelhante ao de nascentes, agravando enchentes.
O rio Guadalquivir transbordou em áreas próximas a Córdoba, inundando residências e extensas áreas agrícolas.
O primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou apoio emergencial aos setores afetados.
O pano de fundo climático
Embora eventos de chuva intensa façam parte da variabilidade natural do clima mediterrâneo, cientistas apontam que o aquecimento global amplia a capacidade da atmosfera de reter vapor d’água.
Para cada grau Celsius adicional de aquecimento, o ar pode armazenar cerca de 7% mais umidade, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Isso significa que, quando chove, chove mais forte.
O episódio espanhol ocorre em meio a um inverno marcado por perturbações no vórtice polar, sistema de ventos que circunda o Ártico.
Uma área persistente de alta pressão sobre a Groenlândia deslocou as tempestades para latitudes mais ao sul, intensificando o impacto sobre a Península Ibérica.
Europa, o continente que mais aquece
Os eventos extremos na Espanha se inserem em um contexto mais amplo. A Europa é o continente que mais rapidamente se aquece no planeta.
De acordo com relatórios recentes do programa Copernicus, da União Europeia, o ritmo de aquecimento europeu é aproximadamente duas vezes superior à média global.
Há três fatores principais para isso.
Primeiro, a amplificação do Ártico. O norte da Europa é fortemente influenciado pelo aquecimento acelerado da região polar, onde o gelo marinho vem diminuindo drasticamente.
A perda de gelo reduz a reflexão da luz solar e intensifica a absorção de calor pelos oceanos.
Segundo, mudanças na circulação atmosférica. Alterações no jato polar e na frequência de bloqueios atmosféricos favorecem ondas de calor mais persistentes no verão e períodos prolongados de chuva intensa ou seca no inverno.
Terceiro, a configuração geográfica. Boa parte da Europa é composta por massas continentais que aquecem mais rapidamente do que os oceanos.
Além disso, o mar Mediterrâneo, considerado um “hotspot” climático, tem registrado temperatura recorde, alimentando tempestades mais intensas.
Extremos em sequência
Nos últimos anos, o continente enfrentou ondas de calor históricas na França, Itália e Alemanha, incêndios florestais recordes na Grécia e em Portugal e enchentes devastadoras na Alemanha e na Bélgica em 2021. Em 2023 e 2024, o sul europeu voltou a registrar secas severas, afetando colheitas e a geração hidrelétrica.
O contraste entre estiagens prolongadas e chuvas torrenciais é um dos sinais mais claros da crise climática em curso. Regiões que passam meses sob déficit hídrico tendem a sofrer impactos ainda maiores quando tempestades extremas chegam, já que solos degradados e impermeabilizados absorvem menos água.
Cientistas alertam que, sem cortes profundos nas emissões de gases de efeito estufa, eventos como o registrado na Espanha tendem a se tornar mais frequentes e intensos ao longo das próximas décadas.
A sucessão de tempestades no sul espanhol, portanto, não é um episódio isolado, mas parte de um padrão mais amplo que redefine o clima europeu.
Entre secas históricas e inundações recordes, o continente que mais rapidamente se aquece no planeta vive os efeitos cada vez mais visíveis da crise climática.






