Oferta Relâmpago: VEJA por apenas 9,90

Espanha registra em 20 dias o volume de chuva esperado para um ano inteiro

Sequência de “rios atmosféricos” despeja quase 2 metros de precipitação no sul do país e amplia alerta sobre extremos climáticos na Europa

Por Ernesto Neves 11 fev 2026, 14h01 •
  • A pequena cidade de Grazalema, na Andaluzia, sul da Espanha, registrou mais de 90 polegadas de chuva desde o início do ano, o equivalente a cerca de 2,3 metros.

    Somente nos últimos 20 dias, foram 78 polegadas, ou quase 2 metros de precipitação, volume superior ao que normalmente cairia ao longo de um ano inteiro na região.

    Meteorologistas classificaram o fenômeno como “hidrológicamente absurdo”. A marca supera padrões históricos de semanas e meses consecutivos de chuva e se aproxima de recordes registrados desde 1941, quando medições sistemáticas começaram a ser feitas na área.

    A sequência de tempestades, incluindo a chamada tempestade Leonardo, integra uma série de “rios atmosféricos” que atingem a Península Ibérica desde o início de 2026.

    O fenômeno consiste em corredores concentrados de vapor d’água que se deslocam pelos céus, transportando umidade dos trópicos para latitudes médias. Ao encontrar barreiras montanhosas, como as da Andaluzia, o ar úmido é forçado a subir, resfria e despeja grandes volumes de chuva.

    Segundo análise do Washington Post baseada em dados do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, cerca de 65% do planeta registrou níveis acima da média de umidade atmosférica em janeiro.

    A Espanha aparece como um dos pontos críticos em que o aumento do fluxo de vapor tem se traduzido em eventos extremos de precipitação.

    Continua após a publicidade

    Além de Grazalema, cerca de 2.000 moradores foram evacuados na região durante o pico da tempestade. Solos calcários já saturados passaram a expelir água, num comportamento semelhante ao de nascentes, agravando enchentes.

    O rio Guadalquivir transbordou em áreas próximas a Córdoba, inundando residências e extensas áreas agrícolas.

    O primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou apoio emergencial aos setores afetados.

    O primeiro-ministro Pedro Sánchez visita áreas afetadas pela cheia do rio Guadalquivir, em Villanueva de la Reina, na Andaluzia, acompanhado da vice-primeira-ministra e ministra da Fazenda, María Jesús Montero
    O primeiro-ministro Pedro Sánchez visita áreas afetadas pela cheia do rio Guadalquivir, em Villanueva de la Reina, na Andaluzia, acompanhado da vice-primeira-ministra e ministra da Fazenda, María Jesús Montero (Getty/Getty Images)

    O pano de fundo climático

    Embora eventos de chuva intensa façam parte da variabilidade natural do clima mediterrâneo, cientistas apontam que o aquecimento global amplia a capacidade da atmosfera de reter vapor d’água.

    Continua após a publicidade

    Para cada grau Celsius adicional de aquecimento, o ar pode armazenar cerca de 7% mais umidade, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Isso significa que, quando chove, chove mais forte.

    O episódio espanhol ocorre em meio a um inverno marcado por perturbações no vórtice polar, sistema de ventos que circunda o Ártico.

    Uma área persistente de alta pressão sobre a Groenlândia deslocou as tempestades para latitudes mais ao sul, intensificando o impacto sobre a Península Ibérica.

    Europa, o continente que mais aquece

    Os eventos extremos na Espanha se inserem em um contexto mais amplo. A Europa é o continente que mais rapidamente se aquece no planeta.

    De acordo com relatórios recentes do programa Copernicus, da União Europeia, o ritmo de aquecimento europeu é aproximadamente duas vezes superior à média global.

    Continua após a publicidade

    Há três fatores principais para isso.

    Primeiro, a amplificação do Ártico. O norte da Europa é fortemente influenciado pelo aquecimento acelerado da região polar, onde o gelo marinho vem diminuindo drasticamente.

    A perda de gelo reduz a reflexão da luz solar e intensifica a absorção de calor pelos oceanos.

    Segundo, mudanças na circulação atmosférica. Alterações no jato polar e na frequência de bloqueios atmosféricos favorecem ondas de calor mais persistentes no verão e períodos prolongados de chuva intensa ou seca no inverno.

    Terceiro, a configuração geográfica. Boa parte da Europa é composta por massas continentais que aquecem mais rapidamente do que os oceanos.

    Continua após a publicidade

    Além disso, o mar Mediterrâneo, considerado um “hotspot” climático, tem registrado temperatura recorde, alimentando tempestades mais intensas.

    Integrantes da Unidade Militar de Emergências atuam para drenar ruas e casas inundadas após a tempestade Leonardo atingir a cidade de Grazalema, na província de Cádiz
    Integrantes da Unidade Militar de Emergências atuam para drenar ruas e casas inundadas após a tempestade Leonardo atingir a cidade de Grazalema, na província de Cádiz (Getty/Getty Images)

    Extremos em sequência

    Nos últimos anos, o continente enfrentou ondas de calor históricas na França, Itália e Alemanha, incêndios florestais recordes na Grécia e em Portugal e enchentes devastadoras na Alemanha e na Bélgica em 2021. Em 2023 e 2024, o sul europeu voltou a registrar secas severas, afetando colheitas e a geração hidrelétrica.

    O contraste entre estiagens prolongadas e chuvas torrenciais é um dos sinais mais claros da crise climática em curso. Regiões que passam meses sob déficit hídrico tendem a sofrer impactos ainda maiores quando tempestades extremas chegam, já que solos degradados e impermeabilizados absorvem menos água.

    Cientistas alertam que, sem cortes profundos nas emissões de gases de efeito estufa, eventos como o registrado na Espanha tendem a se tornar mais frequentes e intensos ao longo das próximas décadas.

    Continua após a publicidade

    A sucessão de tempestades no sul espanhol, portanto, não é um episódio isolado, mas parte de um padrão mais amplo que redefine o clima europeu.

    Entre secas históricas e inundações recordes, o continente que mais rapidamente se aquece no planeta vive os efeitos cada vez mais visíveis da crise climática.

    Publicidade

    Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

    Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

    Domine o fato. Confie na fonte.

    15 marcas que você confia. Uma assinatura que vale por todas.

    OFERTA LIBERE O CONTEÚDO

    Digital Completo

    A notícia em tempo real na palma da sua mão!
    Chega de esperar! Informação quente, direto da fonte, onde você estiver.
    De: R$ 16,90/mês Apenas R$ 1,99/mês
    MELHOR OFERTA

    Revista em Casa + Digital Completo

    Receba 4 revistas de Veja no mês, além de todos os benefícios do plano Digital Completo (cada revista sai por menos de R$ 7,50)
    De: R$ 55,90/mês
    A partir de R$ 29,90/mês

    *Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
    *Pagamento único anual de R$23,88, equivalente a R$1,99/mês. Após esse período a renovação será de 118,80/ano (proporcional a R$ 9,90/mês).