Entenda por que as orcas se aproximam dos barcos
Estudos revelam que as baleias possuem curiosidade sobre as embarcações, mas não se trata de uma interação agressiva
Desde 2020, um grupo de orcas-ibéricas passou a chamar a atenção por um comportamento inusitado: aproximar-se de veleiros e atingir repetidamente seus lemes, em alguns casos deixando as embarcações sem condições de navegar. A cena já foi interpretada como brincadeira, curiosidade, resposta a estímulos ou até como um comportamento aprendido e transmitido entre os animais. Agora, um estudo publicado na revista Animal Cognition propõe uma hipótese adicional: as orcas podem estar interessadas não apenas no barco, mas nos efeitos provocados por sua própria ação sobre ele.
O trabalho é de Christian Frings, pesquisador de psicologia cognitiva da Universidade de Trier, na Alemanha. Não se trata, porém, de uma experiência que tenha demonstrado que as orcas brincam com barcos. É um artigo de análise que aplica teorias da cognição animal ao fenômeno. A ideia é que, ao atingir o leme, a orca possa perceber mudanças na resistência, na vibração e no movimento da embarcação e, a partir dessas consequências, repetir ou modificar seu comportamento.
Essa interpretação ajuda a explicar um dos aspectos mais intrigantes dos encontros: os animais não atingem o barco de maneira aleatória. Eles se aproximam frequentemente pela popa e demonstram preferência pelo leme, uma parte funcional da embarcação capaz de alterar seu movimento quando manipulada. Para Frings, isso sugere que vale investigar não apenas o que desencadeia a aproximação, mas o que as orcas conseguem provocar e perceber quando interagem com o barco.
Outra possibilidade é a chamada transmissão cultural. As orcas são animais altamente inteligentes, sociais, capazes de aprender comportamentos umas com as outras. Assim, uma novidade criada por alguns indivíduos pode se espalhar pelo grupo. Apesar dos danos provocados às embarcações, não há evidências de que as interações com barcos tenham como objetivo atacar seres humanos. Nem de que isso seja um comportamento agressivo. O mistério, portanto, permanece: pode haver brincadeira, curiosidade e aprendizagem social misturadas em um comportamento que a ciência ainda está tentando decifrar.







