Celebridades e cientistas pedem que Lula lidere proteção da Antártica contra pesca predatória
Coalizão internacional alerta para riscos do colapso do krill, base da cadeia alimentar antártica
Às margens da Assembleia-Geral da ONU e da Semana do Clima de Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu uma carta aberta assinada por personalidades internacionais e cientistas pedindo que o Brasil assuma a liderança global na defesa da Antártica.
O documento é assinado pela coalizão Antarctic Avengers, grupo liderado pela oceanógrafa americana Sylvia Earle e que inclui o ator britânico Benedict Cumberbatch, além de nomes brasileiros como o ator Klebber Toledo e os pesquisadores Ronaldo Christofoletti (Unifesp) e Jefferson Simões (UFRGS).
A carta pede medidas urgentes contra a expansão da pesca industrial de krill, pequeno crustáceo que sustenta baleias, pinguins e focas e que tem papel crucial na regulação climática, ao capturar carbono. O apelo ocorre em meio ao avanço da frota pesqueira de países como Noruega e China, que transformam o krill em ração para salmões, suplementos de ômega-3 e até alimentos para pets.
Quatro medidas cobradas do Brasil
O grupo pede que o Brasil pressione, na próxima reunião da CCAMLR (Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos), em outubro na Austrália, e durante sua presidência da COP30, a adoção de quatro ações:
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Fechar o Oceano Austral à pesca industrial de krill;
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Criar uma Área Marinha Protegida na Península Antártica, proposta por Argentina e Chile;
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Reformar a CCAMLR, paralisada por disputas políticas;
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Proteger ao menos 30% das águas antárticas até 2030, meta alinhada aos compromissos globais de biodiversidade.
“Se agirmos agora, a Antártica e sua vida selvagem podem se recuperar. Precisamos protegê-la da exploração antes que seja tarde demais”, disse Sylvia Earle em comunicado.
Conexão com o Brasil
A preocupação vai além da preservação da biodiversidade. A pesca predatória e o derretimento acelerado do gelo impactam diretamente o ciclo de vida das baleias-jubarte, que se alimentam de krill na Antártica e migram todos os anos para o litoral brasileiro. Sem alimento, há risco para a reprodução dos animais e para o turismo de observação, setor que movimenta cerca de R$ 140 milhões por temporada em estados como Bahia, Espírito Santo e São Paulo.
Estudos também mostram que o derretimento recorde da Antártica — que registrou mínimos históricos de gelo em 2023 e 2024 — afeta o regime de chuvas no Brasil e pode agravar enchentes como as registradas no Sul do país neste ano. Relatório da Fundação Grupo Boticário e da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica aponta que 83% dos municípios brasileiros já foram atingidos por eventos extremos de chuva, com perdas superiores a R$ 145 bilhões nas últimas três décadas.
O krill depende do gelo marinho para se reproduzir, mas o aquecimento global acelera o degelo. Menos gelo significa menos alimento para as baleias e desequilíbrio em toda a cadeia alimentar. Cientistas alertam ainda que a perda de massa de gelo compromete correntes oceânicas e acelera a elevação do nível do mar, ameaçando cidades costeiras em todo o planeta.
Para especialistas, o Brasil tem um papel estratégico nesse cenário. Além de manter o Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e a base Comandante Ferraz, o país é signatário do Tratado da Antártica e membro da CCAMLR. Agora, com a presidência da COP30 em Belém, em 2025, Lula é visto como peça-chave para destravar acordos paralisados e fortalecer a governança ambiental internacional.
“Sem krill, não há baleias. Sem baleias, não há migração nem turismo. Proteger a Antártica é também proteger o Brasil”, resume Ronaldo Christofoletti, da Unifesp.





