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Aquecimento global acelera e entra na fase mais rápida desde 1880, apontam dados da NASA

Ritmo de alta das temperaturas cresceu 42% na última década; cientistas investigam papel da poluição, das nuvens e do desequilíbrio energético

Por Ernesto Neves 12 fev 2026, 09h02 • Atualizado em 12 fev 2026, 09h18
  • O aquecimento global não apenas continua. Ele está acelerando.

    Análise baseada em dados da NASA mostra que os últimos 30 anos registraram o ritmo de aquecimento mais rápido desde o início das medições modernas, em 1880. Mais do que isso, a velocidade com que a temperatura média do planeta sobe aumentou significativamente na última década.

    Entre 1970 e 2010, a Terra aqueceu a uma taxa relativamente estável de cerca de 0,19 °C por década. Nos últimos dez anos, esse ritmo saltou para aproximadamente 0,27 °C por década, um aumento de 42%.

    A sequência de recordes em 2023, 2024 e 2025 reforça a percepção entre cientistas de que há uma mudança estrutural em curso.

    “Não estamos mais seguindo o mesmo caminho de antes. Algo mudou”, afirmou Robert Rohde, cientista-chefe da Berkeley Earth, organização independente que monitora a evolução da temperatura global.

    Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados. Segundo a análise da Berkeley Earth, se o planeta estivesse aquecendo apenas no mesmo ritmo observado desde os anos 1970, a probabilidade de os três anos recentes baterem recordes apenas por variabilidade natural seria inferior a 1%.

    O que explica a aceleração

    Parte da explicação está na própria trajetória das emissões de gases de efeito estufa, que seguem elevadas.

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    Relatórios recentes da Organização Meteorológica Mundial e do Programa Copernicus confirmam que 2023 e 2024 bateram recordes globais de temperatura, impulsionados tanto pelo acúmulo histórico de CO₂ quanto pelo fenômeno El Niño.

    Mas há outros fatores em jogo.

    Durante décadas, parte do aquecimento provocado pelos gases-estufa foi “mascarada” por aerossóis de sulfato, partículas emitidas principalmente pela queima de carvão e óleo combustível.

    Embora prejudiquem a saúde humana, essas partículas refletem a radiação solar e exercem efeito de resfriamento temporário. Estima-se que tenham compensado cerca de 0,5 °C do aquecimento global acumulado.

    Desde os anos 2000, porém, países passaram a reduzir emissões de dióxido de enxofre. A China, por exemplo, cortou drasticamente esse tipo de poluição.

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    Em 2020, entrou em vigor uma regra internacional que reduziu em cerca de 85% o teor de enxofre nos combustíveis marítimos. Com menos aerossóis na atmosfera, o “freio” parcial ao aquecimento diminuiu.

    Ainda assim, estudos recentes indicam que isso não explica tudo. Pesquisa publicada na revista Science em 2024 apontou que cerca de 0,2°C do calor recorde de 2023 não pode ser atribuído apenas à redução de aerossóis ou à variabilidade natural.

    Os autores identificaram uma redução na cobertura de nuvens baixas, que normalmente refletem a luz solar. Menos nuvens, mais energia absorvida pela superfície.

    As nuvens são uma das maiores incertezas da ciência climática. Modelos indicam que, no geral, exercem efeito de resfriamento, mas a magnitude desse impacto ainda é debatida.

    Caso a diminuição esteja ligada a um mecanismo de retroalimentação, em que o aquecimento reduz nuvens, que por sua vez intensificam o aquecimento, a aceleração pode persistir.

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    Sinais extremos ao redor do mundo

    Enquanto parte dos Estados Unidos enfrenta ondas de frio, outras regiões registram calor incomum.

    Nuuk, na Groenlândia, teve temperaturas de janeiro mais de 11°C acima da média histórica. Na Austrália, termômetros ultrapassaram 49°C durante uma onda de calor recorde.

    O desequilíbrio energético da Terra, diferença entre a energia solar que entra e o calor que o planeta devolve ao espaço, também vem crescendo nas últimas duas décadas, segundo medições por satélite analisadas por centros como a NASA e a NOAA. Isso indica que o sistema climático continua acumulando energia.

    Para alguns pesquisadores, ainda é cedo para declarar oficialmente uma mudança permanente na taxa de aquecimento. Outros veem a tendência como cada vez mais clara.

    “O ritmo passado de aquecimento já não é um bom guia para o futuro”, escreveu Rohde recentemente.

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    Onda de calor atinge a Inglaterra, em 2025: Europa se aquece em ritmo duas vezes mais rápido que o restante do planeta
    Onda de calor atinge a Inglaterra, em 2025: Europa se aquece em ritmo duas vezes mais rápido que o restante do planeta (Getty/Getty Images)

    Impactos crescentes

    A aceleração do aquecimento amplia o risco de eventos extremos. O IPCC alerta que cada fração adicional de grau aumenta a frequência e intensidade de ondas de calor, chuvas torrenciais, secas e tempestades.

    Na Europa, o continente que mais rapidamente se aquece no planeta, ondas de calor recordes, incêndios e enchentes vêm se sucedendo nos últimos anos.

    No Ártico, o degelo acelera em ritmo alarmante. No Brasil, 2023 e 2024 registraram secas históricas na Amazônia e enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul.

    Se a tendência de aceleração se confirmar, as metas do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais se tornam ainda mais difíceis de alcançar.

    Mais do que um novo recorde, os dados sugerem uma mudança de fase no sistema climático. E indicam que o mundo pode estar entrando em uma etapa de aquecimento mais rápido e perigoso do que a experimentada nas últimas décadas.

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