Aquecimento global acelera e entra na fase mais rápida desde 1880, apontam dados da NASA
Ritmo de alta das temperaturas cresceu 42% na última década; cientistas investigam papel da poluição, das nuvens e do desequilíbrio energético
O aquecimento global não apenas continua. Ele está acelerando.
Análise baseada em dados da NASA mostra que os últimos 30 anos registraram o ritmo de aquecimento mais rápido desde o início das medições modernas, em 1880. Mais do que isso, a velocidade com que a temperatura média do planeta sobe aumentou significativamente na última década.
Entre 1970 e 2010, a Terra aqueceu a uma taxa relativamente estável de cerca de 0,19 °C por década. Nos últimos dez anos, esse ritmo saltou para aproximadamente 0,27 °C por década, um aumento de 42%.
A sequência de recordes em 2023, 2024 e 2025 reforça a percepção entre cientistas de que há uma mudança estrutural em curso.
“Não estamos mais seguindo o mesmo caminho de antes. Algo mudou”, afirmou Robert Rohde, cientista-chefe da Berkeley Earth, organização independente que monitora a evolução da temperatura global.
Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados. Segundo a análise da Berkeley Earth, se o planeta estivesse aquecendo apenas no mesmo ritmo observado desde os anos 1970, a probabilidade de os três anos recentes baterem recordes apenas por variabilidade natural seria inferior a 1%.
O que explica a aceleração
Parte da explicação está na própria trajetória das emissões de gases de efeito estufa, que seguem elevadas.
Relatórios recentes da Organização Meteorológica Mundial e do Programa Copernicus confirmam que 2023 e 2024 bateram recordes globais de temperatura, impulsionados tanto pelo acúmulo histórico de CO₂ quanto pelo fenômeno El Niño.
Mas há outros fatores em jogo.
Durante décadas, parte do aquecimento provocado pelos gases-estufa foi “mascarada” por aerossóis de sulfato, partículas emitidas principalmente pela queima de carvão e óleo combustível.
Embora prejudiquem a saúde humana, essas partículas refletem a radiação solar e exercem efeito de resfriamento temporário. Estima-se que tenham compensado cerca de 0,5 °C do aquecimento global acumulado.
Desde os anos 2000, porém, países passaram a reduzir emissões de dióxido de enxofre. A China, por exemplo, cortou drasticamente esse tipo de poluição.
Em 2020, entrou em vigor uma regra internacional que reduziu em cerca de 85% o teor de enxofre nos combustíveis marítimos. Com menos aerossóis na atmosfera, o “freio” parcial ao aquecimento diminuiu.
Ainda assim, estudos recentes indicam que isso não explica tudo. Pesquisa publicada na revista Science em 2024 apontou que cerca de 0,2°C do calor recorde de 2023 não pode ser atribuído apenas à redução de aerossóis ou à variabilidade natural.
Os autores identificaram uma redução na cobertura de nuvens baixas, que normalmente refletem a luz solar. Menos nuvens, mais energia absorvida pela superfície.
As nuvens são uma das maiores incertezas da ciência climática. Modelos indicam que, no geral, exercem efeito de resfriamento, mas a magnitude desse impacto ainda é debatida.
Caso a diminuição esteja ligada a um mecanismo de retroalimentação, em que o aquecimento reduz nuvens, que por sua vez intensificam o aquecimento, a aceleração pode persistir.
Sinais extremos ao redor do mundo
Enquanto parte dos Estados Unidos enfrenta ondas de frio, outras regiões registram calor incomum.
Nuuk, na Groenlândia, teve temperaturas de janeiro mais de 11°C acima da média histórica. Na Austrália, termômetros ultrapassaram 49°C durante uma onda de calor recorde.
O desequilíbrio energético da Terra, diferença entre a energia solar que entra e o calor que o planeta devolve ao espaço, também vem crescendo nas últimas duas décadas, segundo medições por satélite analisadas por centros como a NASA e a NOAA. Isso indica que o sistema climático continua acumulando energia.
Para alguns pesquisadores, ainda é cedo para declarar oficialmente uma mudança permanente na taxa de aquecimento. Outros veem a tendência como cada vez mais clara.
“O ritmo passado de aquecimento já não é um bom guia para o futuro”, escreveu Rohde recentemente.
Impactos crescentes
A aceleração do aquecimento amplia o risco de eventos extremos. O IPCC alerta que cada fração adicional de grau aumenta a frequência e intensidade de ondas de calor, chuvas torrenciais, secas e tempestades.
Na Europa, o continente que mais rapidamente se aquece no planeta, ondas de calor recordes, incêndios e enchentes vêm se sucedendo nos últimos anos.
No Ártico, o degelo acelera em ritmo alarmante. No Brasil, 2023 e 2024 registraram secas históricas na Amazônia e enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul.
Se a tendência de aceleração se confirmar, as metas do Acordo de Paris de limitar o aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais se tornam ainda mais difíceis de alcançar.
Mais do que um novo recorde, os dados sugerem uma mudança de fase no sistema climático. E indicam que o mundo pode estar entrando em uma etapa de aquecimento mais rápido e perigoso do que a experimentada nas últimas décadas.





