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Consumo dos ‘cogumelos funcionais’ está na mira das autoridades sanitárias

Eles embutem variadas promessas ao bem-estar

Por Paula Freitas e Flávio Monteiro
24 jan 2026, 08h00 •
  • Os cogumelos intrigam a espécie humana desde as mais antigas civilizações por suas alardeadas promessas de ensejar o bem-estar físico e mental. Usados na China há mais de 2 000 anos, ostentavam o status de “erva superior”, naturalmente reservada à realeza que buscava fortalecer o sistema imunológico, acalmar a cabeça e esticar a vida. Em povoados indígenas no norte da Europa e da Sibéria, tais fungos eram adicionados ao chá na esperança de que a infusão aumentasse a resistência do corpo exposto às gélidas temperaturas. E assim seguiram no cardápio da medicina alternativa, para a qual os mais tradicionais não raro torcem o nariz, e aterrissaram no século XXI revigorados pela salutar preocupação em viver mais e melhor. Foco e clareza, metabolismo em dia, maior disposição e até libido em alta são alguns dos ganhos relatados pela turma que resolveu experimentá-los mundo afora — quase tudo ainda sujeito a estudos científicos mais conclusivos, embora abraçados com entusiasmo por famosos como o cantor Lulu Santos, o jornalista Nelson Motta e a modelo Gisele Bündchen, que declarou: “Eles realmente ajudam a me concentrar e a ter maior energia”.

    Um termômetro da vitalidade dos cogumelos batizados de funcionais, para fazer uma distinção dos alucinógenos, é sua acelerada expansão: o mercado desses espécimes, que atendem por nomes criativos (juba-de-leão, cordyceps, reishi) e são consumidos de formas variadas e mais palatáveis que o gosto amargo in natura (em pó, pílula, mesclados a bebidas e barrinhas), deve cravar globalmente 130 bilhões de reais até 2030, crescendo ano a ano, segundo um estudo da consultoria Allied Market Research. Como esperado, as redes sociais reverberam a moda em alto e bom som — as buscas no Google por “café de cogumelo”, por exemplo, se multiplicaram por 20 desde 2022. Dada a imensa procura e o colosso de incertezas, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) suspendeu na terça-feira 20 uma série desses produtos, que prometem mundos e fundos sem comprovação. Um deles oferecia “extrato de cogumelo rico em vitamina D”, sem eficácia testada.

    ADEPTOS - Famosos dão visibilidade à onda: Nelson Motta (ao alto), Lulu Santos e Gisele Bündchen, que afirmou ter tido “ganho de energia”
    ADEPTOS - Famosos dão visibilidade à onda: Nelson Motta (ao alto), Lulu Santos e Gisele Bündchen, que afirmou ter tido “ganho de energia” (@gisele/Instagram; Bruno Poletti/Folhapress; Carlos Elias Junior/Fotoarena/.)

    Trata-se, portanto, de entrar na onda somente a partir de indicações de profissionais de saúde, sem invencionices, ainda que pareça seguro ingerir essa família de produtos. “Não existem registros de morte ou de intoxicação grave com cogumelos na literatura mundial”, afirma a médica Mariane Ventura, dedicada à fitoterapia. Mas há ainda, insista-se, escassez de pesquisas em humanos que comprovem os efeitos terapêuticos de tais fungos. Por ora, investigações preliminares em animais sinalizam que o juba-de-leão ajudou na recomposição de células do sistema nervoso, o que frearia eventuais perdas motoras, e que o cordyceps e o reishi, de outra classe de cogumelos, apresentaram ação protetora e anti-­inflamatória na flora intestinal. Mesmo sem evidências definitivas, a banda do planeta que se rendeu a eles, gente de todos os estratos etários, garante que funciona. “Desde que decidi dar uma chance aos cogumelos, senti que minha saúde se fortaleceu. Não peguei um resfriado sequer”, relata a veterinária Letícia Marinho, 30 anos, que penava com a imunidade baixa e frequentes gripes.

    Nos últimos tempos, começaram a surgir na cena científica, aqui e ali, trabalhos de relevo sobre os cogumelos funcionais envolvendo humanos. Um deles, encabeçado por pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, examinou uma amostra de 30 000 homens e mulheres para observar quanto o consumo regular de cogumelos contribuía para uma mente mais afiada. Conclusão: quem os adicionou ao menu obteve resultado melhores em testes cognitivos — o que ainda requer um mergulho mais fundo. Em outra frente, comprovou-se a eficácia do uso de extrato de Agaricus bisporus, o bom e velho champignon, em pacientes com câncer. Além de promover melhora imunológica, ele auxiliou na redução dos efeitos colaterais da quimioterapia. Por esse conjunto de promissores indicadores, o elixir é o único produto reconhecido pela Anvisa — os demais são enquadrados no escaninho da medicina tradicional chinesa e, como tal, dependem da prescrição de profissionais habilitados. Na prática, porém, não há fiscalização, e os cogumelos são vendidos sem receita em sites especializados e lojas de produtos naturais em grandes cidades, inclusive no Brasil.

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    EM FORMA - Movimento fitness: versão moderna de uma preocupação milenar
    EM FORMA - Movimento fitness: versão moderna de uma preocupação milenar (Jeffrey Greenberg/UIG/Getty Images)

    O fácil acesso preocupa o meio médico, unânime em apontar os perigos da autoprescrição dos cogumelos funcionais. “Ser natural não significa que não pode fazer mal”, alerta Manuela Dolinsky, presidente do Conselho Federal de Nutrição e professora da Universidade Federal Fluminense. A necessidade de acompanhamento profissional é ainda maior para quem toma remédios cuja interação com tais fungos é desconhecida e pode ser prejudicial. “Esses extratos costumam ser bem mais concentrados do que o normal, e a pessoa pode acabar consumindo uma dose alta”, explica Dolinsky. Há milênios, a humanidade vem se beneficiando do cultivo e da ingestão de alimentos que ajudam a manter a boa saúde, mas, antes de embalar em qualquer onda, e elas são muitas nos dias de hoje, convém lembrar a máxima cunhada pelo filósofo Hipócrates (460 a.C.-370 a.C.), considerado o pai da medicina: “Que teu alimento seja teu remédio”. Para que seja mesmo, já diria o grego, é bom se fiar mais na ciência do que em crenças mágicas antes de levar o garfo à boca.

    Publicado em VEJA de 23 de janeiro de 2026, edição nº 2979

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