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Thriller ‘Sicario’ mostra força americana, enquanto franceses decepcionam

Em filme complexo estrelado por Benicio del Toro, o canadense Denis Villeneuve discute as relações entre Estados Unidos e México no combate aos cartéis de drogas

Sicario

Sicario (VEJA)

A tensão na fronteira entre Estados Unidos e México, tão presente nos noticiários, tem sido tema de filmes com certa frequência. Por isso, impressiona que Sicario (nome para “matador de aluguel”, no México), do canadense Denis Villeneuve (de Incêndios e Suspeitos), tenha causado surpresa em sua sessão de imprensa na competição do 68º Festival de Cannes, na manhã desta terça-feira. Como Carol, o romance lésbico de Cate Blanchet, o longa também parece ter tudo para chegar ao Oscar do ano que vem, tanto em categorias principais como filme e direção como nas de atriz, ator e fotografia. Se vai levar prêmio em Cannes, é outra questão, já que a competição desta edição está forte.

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Kate Macer (Emily Blunt) é uma agente do FBI no Arizona especialista em casos de sequestro. Logo na primeira sequência, descobre dezenas de corpos escondidos nas paredes de uma casa ligada a um chefe de cartel de drogas mexicano. Ela é então convidada para atuar em uma missão pelo agente Matt Graver (Josh Brolin), que se diz do Ministério de Defesa, mas parece ser da CIA. O misterioso Alejandro (Benicio del Toro, excelente) também faz parte da operação, que Kate pensa ser na cidade texana de El Paso. Não é. Logo eles cruzam a fronteira para raptar um homem que pode levar a um outro sujeito ligado ao chefe de um poderoso cartel.

A partir do roteiro de Taylor Sheridan (ator da série Sons of Anarchy), Villeneuve faz um thriller tenso de duas horas de duração, quase sem respiro. O suspense não prejudica o desenvolvimento dos personagens nem a intrincada trama. Sicario questiona se os fins justificam os meios no combate aos cartéis que tem provocado milhares de vítimas e invadido o território americano. “O filme faz perguntas, não dá respostas”, disse Villeneuve na coletiva de imprensa realizada após a exibição. “Estamos vivendo um tempo em que as zonas cinzentas estão mais borradas do que nunca. Por isso, me interessei pelo projeto, porque fazia as perguntas certas sem dar as respostas.”

Sicario tem sua história contada sob o ponto de vista dos EUA, o maior consumidor mundial de drogas, mas não trata os mexicanos como vilões de filme de ação ruim nem como maus de nascença. “Fiz muitos filmes sobre essa parte do mundo, sou muito interessado em ambos os lados”, disse Benicio Del Toro. “E Denis veio com vontade de entender o assunto completamente.” O cenário já se coloca desde o início, quando a câmera mostra a enorme cerca, de quilômetros de comprimento, que divide os dois países, a pobreza, os corpos mutilados pendurados em viadutos. Os mexicanos são, sem dúvida, os mais prejudicados nessa guerra. Em uma imagem impressionante (a direção de fotografia é de Roger Deakins, 12 indicações ao Oscar), dá para ver os tiros de fuzil, uma explosão e as luzes dos carros de polícia em Ciudad Juaréz a partir do território americano.

Kate é a voz da legalidade e do idealismo entre pessoas que abdicaram dela há muito tempo para abraçar métodos ilícitos e pragmáticos. Emily Blunt mistura vulnerabilidade e força na interpretação de sua personagem, sem cair no clichê de uma mulher masculinizada. “Vemos essa garota entrando nos três piores dias de sua vida e tentando manter a fachada. Não estava buscando torná-la mais viril, só tentando sobreviver em uma profissão eminentemente masculina”, disse a atriz inglesa. “Conversei com algumas agentes do FBI, e elas são normais, como eu, assistem a Downton Abbey quando chegam em casa.”

A questão de gênero seguiu pautando a entrevista coletiva. O diretor Denis Villeneuve contou que houve tentativas de produtores anteriores de transformar a personagem principal do longa em um homem. “Eu mantive Kate. Que loucura ter de brigar por isso hoje em dia.” E anunciou de brincadeira, no que seria um protesto contra a aparente obrigatoriedade de saltos altos no tapete vermelho de Cannes – algumas mulheres com outros tipos de sapato teriam sido barradas pelos seguranças -, que ele, Benicio Del Toro e Josh Brolin vão usar salto na sessão de gala do filme.

Emily Blunt também foi instada a falar a respeito da obrigatoriedade de saltos e se disse decepcionada. “Por mim, nunca usaríamos saltos altos. Isso é frustrante quando estamos em uma onda de busca pela igualdade.”

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‘Il Racconto dei Racconti’, de Matteo Garrone

Depois de estourar com Gomorrah e Reality, o diretor italiano volta-se para os contos de fadas, adaptando histórias de Giambattista Basile (1566-1632), que reuniu algumas das primeiras versões de Rapunzel e Cinderela. No elenco, Salma Hayek, Vincent Cassel e John C. Reilly. É o primeiro filme do cineasta falado inglês.

The Lobster

The Lobster (VEJA)


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‘Irrational Man’, de Woody Allen

Emma Stone faz seu segundo trabalho em sequência com o veterano diretor nova-iorquino, com quem já rodou Magia ao Luar (2014). Ela é a estudante por quem um professor de filosofia em crise existencial (Joaquin Phoenix) se apaixona, encontrando propósito na vida. O longa-metragem foi rodado na pitoresca Newport, no Estado de Rhode Island. 

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‘Mia Madre’, de Nanni Moretti

O italiano Nanni Moretti gosta de usar elementos autobiográficos. Em Mia Madre, usa a experiência de perder sua mãe durante as filmagens de Habemus Papam (2011) como a inspiração para a cineasta Margherita (Margherita Buy), que tenta levar adiante seu longa de fundo político enquanto cuida da mãe e lida com um astro complicado (vivido por John Turturro).  

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‘Carol’, de Todd Haynes

Baseado em um romance de Patricia Highsmith, mostra a história da jovem Therese (Rooney Mara) que se apaixona por Carol, uma mulher casada e mais velha (Cate Blanchett), na Nova York dos anos 1950. Kyle Chandler (Bloodline) interpreta o marido de Carol. Entre Eu Não Estou Lá (2007) e Carol, Todd Haynes fez a minissérie Mildred Pierce

Sicario

Sicario (VEJA)


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‘Youth’, de Paolo Sorrentino

Em seu segundo filme falado em inglês – o primeiro foi Aqui É o Meu Lugar, com Sean Penn –, o italiano Paolo Sorrentino mostra dois velhos amigos, o compositor e maestro Fred (Michael Caine) e o cineasta Mick (Harvey Keitel), em férias num hotel nos Alpes. Paul Dano, Jane Fonda e Rachel Weisz também estão no elenco. 

Love

Love (VEJA)


Macbeth

Macbeth (VEJA)

Decepção francesa – A seleção da França na competição continua deixando a desejar. Depois de Mon Roi (“Meu rei”, na tradução direta), de Maïwenn, um dos piores filmes na disputa pela Palma de Ouro até agora, mais dois compatriotas se juntaram à lanterna: La Loi de Marché (“A lei do mercado”, na tradução direta), de Stéphane Brizé, e Marguerite et Julien (Marguerite e Julien), de Valérie Donzelli.

O primeiro é um drama social sobre Thierry (o bom Vincent Lindon), que, com mais de 50 anos de idade, está desempregado e não consegue se recolocar. A crise econômica na Europa é séria, falta emprego, mas La Loi de Marché deixa um certo sentimento de “classe média sofre na França”. Thierry tem um seguro-desemprego razoável por dois anos, saúde pública e escola pública para seu filho com deficiência mental. O diretor deveria ter ido além de um problema localizado, do dia de hoje, para discutir mais amplamente a falta de humanismo nas grandes corporações e a sensação que se tem de ser apenas uma peça passível de substituição a qualquer momento. A forma também não ajuda: uma câmera na mão pouco inspirada, que se detém por minutos intermináveis em reuniões sem sentido.

Marguerite & Julien, dirigido por Valérie Donzelli, é pior ainda e não faz o menor sentido na competição. O roteiro de Jean Gruault ia ser dirigido por François Truffaut na década de 1970, mas o cineasta acabou desistindo do projeto, baseado na história real de um incesto no século XVII. Marguerite (Anaïs Demoustier) e Julien (Jérémie Elkaïm) têm uma ligação especial desde crianças, mas ele é mandado para fora da França para estudar diversos assuntos. No retorno, os dois não conseguem controlar o amor que sentem desde sempre um pelo outro, nem quando ela é obrigada a se casar com Lefebvre (Raoul Fernandez).

O filme poderia discutir a situação da mulher – Marguerite certamente é mais prejudicada pela relação proibida que o irmão -, por exemplo, mas tudo é tratado com tanta leviandade que parece paródia. Só no último terço Marguerite finalmente percebe que seu irmão vai ser ao mesmo tempo pai e tio de seus filhos. Para ser mais “esperta” e “moderna”, Valérie Donzelli colocou elementos de épocas diferentes no filme, como um rádio e um carro. Mas, no fundo, o que ela quer falar sobre é um conceito antigo: o amor tão impossível que causa a destruição dos amantes.