Os dinossauros sem penas e outros erros (e acertos) científicos de ‘Jurassic World’

Além da mirabolante criação de um dinossauro transgênico, a estética dos bichos fictícios ficou parada nos anos 90, quando foi lançado o primeiro filme da série. Paleontólogos, muitos dos quais entraram na profissão motivados pelos primeiros episódios da saga, ficaram desapontados

Antes da aparecerem dinossauros na tela, Jurassic World, lançado no Brasil na última quinta-feira (11) tem uma cena com um pássaro em primeiro plano. É uma referência a achados recentes que concluíram que os colossais répteis do passado seriam mais parecidos com as aves de hoje (descendentes diretas desses gigantes) do que com lagartos. Não vai muito além disso, no entanto, o investimento do filme em ciência. Se em 1993 o primeiro filme da série Parque dos Dinossauros, hoje um clássico, ganhou mérito pelo apuro científico, o quarto episódio peca nessa área.

São as aves ou, mais precisamente, suas penas, o maior lapso do filme, e que tem desapontado paleontólogos e aficionados pelos bichos. Por causa delas, os dinossauros retratados na telona ainda estão parados nos anos 90. Ou, melhor, no que se sabia deles há quase trinta anos. Desde então, as pesquisas sugerem que os predadores pré-históricos não seriam parecidos com lagartos assustadores. O mais provável é que se assemelhassem a grandes avestruzes, perus ou galinhas de plumagem colorida. Pelo tamanho (e os dentes) continuariam amedrontadores. Mas bem mais carnavalescos.

“Pelas modernas análises filogenéticas, o Tiranossauro rex (o famoso T. rex) era coberto de penas, pois seus ancestrais nasciam assim”, explica Luiz Anelli, professor de Paleontologia do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) e autor de seis livros sobre o tema. “Os registros fósseis indicam que a linhagem dos carnívoros possuia plumas. Sabemos até que eram bastante coloridas”, completa.

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Dino científico – A decepção em relação às bases científicas do filme se explica por que, quando o primeiro da rentável franquia dos dinossauros foi lançado, seus produtores mergulharam nas mais avançadas pesquisas sobre o tema. Nessa época, uma grande revolução em torno da compreensão dos animais estava em curso. Antes, a ideia geral era de que os dinossauros eram grandes répteis bobos que vagavam por pântanos escuros. Ela foi então substituída pela imagem de feras altamente sociais, velozes e inteligentes.

O trabalho em conjunto das equipes de filmagem com paleontólogos ofereceu ao público a primeira reconstituição dos monstruosos bichos fiel ao estado do conhecimento paleontológico. No Parque dos Dinossauros fictício, os grandes herbívoros andavam como enormes elefantes, velociraptors corriam em alta velocidade pelos prados e o Tiranossauro rex, o mais terrível predador do Cretáceo, período em que viveram, há 65 milhões de anos, era apresentado com todos seus dentes, em mordidas furiosas.

Apesar de pequenos equívocos, a ciência deu ao filme suas melhores cenas e fez com que uma geração de crianças e adolescentes se interessasse por dinossauros – paleontólogos costumam brincar que “9 em 10 dos jovens profissionais da área escolheram a profissão inspirados pelo filme”. O novo episódio, porém, foi na linha contrária. Por escolher não atualizar o que se sabe dos bichos, gerou revolta na comunidade científica. No ano passado, quando foi publicado o primeiro trailer de Jurassic World, pesquisadores de todas as sortes foram às redes sociais, principalmente ao Twitter, reclamar dos animais de escamas, sem penas, que apareciam na prévia. Em oposição, fãs da série rebateram, destacando que na ficção tudo pode, inclusive rejeitar a ciência.

O debate é consequência de uma reviravolta científica posterior a 1993, que remodelou mais uma vez o que imaginamos desse mundo antigo, repleto de animais incríveis. Nesse intervalo, cientistas descobriram que o modelo dos répteis não é o mais adequado para descrever os dinossauros. Sua relação mais próxima é com (acredite!) delicados passarinhos.

Jack Horner, paleontólogo americano que compõe a equipe do Museu das Montanhas Rochosas da Universidade de Montana, no Estados Unidos, e consultor técnico dos quatro filmes, sugeriu até que seria possível ressuscitar características das espécies extintas em aves, criando ‘galinhossauros’. Importantes figuras do novo filme, predadores de porte modesto, como o Velociraptor, seriam os que apresentam as maiores evidências de um corpo coberto de plumagem.

“Tínhamos apenas indícios de que isso seria possível, mas o achado de vários fósseis na China têm provado que não somente que os carnívoros pequenos, mas toda a linhagem dos terópodos, ou dinossauros carnívoros, trazia penugem. E não só os aspectos anatômicos são semelhantes aos de pássaros, mas também as características genéticas”, diz o brasileiro Anelli. Os únicos que, provavelmente, escapavam ao visual emplumado eram os dinos herbívoros, como os brontossauros e diplodocos.

Nem toda a ciência de Jurassic World frustra os especialistas. A produção acerta, por exemplo, quando mostra dinossauros filhotes brincando com crianças humanas: há anos os paleontólogos reúnem evidências de que os dinossauros tinham habilidades sociais. Mas a balança pende definitivamente para o lado negativo quando se leva em conta o estado atual da pesquisa científica. O que não significa que o filme não tenha seus prazeres. Pelo contrário, é um blockbuster eletrizante, que pode muito bem desempenhar para uma nova geração o papel que seu “ancestral” desempenhou para os atuais paleontólogos. Entre os meninos e meninas que nas próximas semanas assistirão de olhos arregalados às cenas espetaculares do filme, surgirão provavelmente os estudiosos que no futuro descobrirão outras características dos dinossauros – talvez ainda mais surpreendentes que sua inusitada e exuberante plumagem.

Confira abaixo os principais erros e acertos científicos do longa: