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Charlotte Gainsbourg

23/11/2014

às 15:30 \ Tema Livre

Fotos: Serge Gainsbourg e Jane Birkin, o casal que estremeceu os anos 60-70

Ousadia, hoje em dia? Pois Serge Gainsbourg e Jane Birkin eram fotografados assim há… mais de 40 anos

Post publicado originalmente a 1 de julho de 2012

Por Rita de Sousa

Casais frisson, como Pitt-Jolie, David e Victoria Beckham, príncipe William e Kate Middleton são fichinhas perto da dupla romântica que marcou época: a linda inglesa Jane Birkin e o muito feio francês Serge Gainsbourg formaram um casal que causou escândalo e estremeceu os agitados, tempestuosos final dos anos 60 e entrou pelos anos 70 adentro ganhando manchetes e provocando polêmicas.

Gainsbourg era filho de judeus fugidos da Rússia czarista em 1919. Do pai, grande pianista de formação clássica, herdou a veia musical. Já o resto, sabe-se lá: Gainsbourg, compositor, cantor, ator, diretor e poeta, marcou uma época, marcou um estilo e até o fim da vida, em  2 de março de 1991, aos 62 anos de idade, foi um homem de paixões intensas, sucessos estrondosos e vida desregrada – boêmio de carteirinha, fumava demais, bebia demais, cheirava demais, pulava de mulher em mulher. Não é por acaso que sua vida mereceu um filme, aliás muito bem avaliado: Gainsbourg — O Homem que Amava as Mulheres (Vie Heroïque, 2010, do diretor francês Joann Sfar).

Quando, em 1968, conheceu a bela e jovem atriz inglesa Jane Birkin, nas filmagens de Slogan, Serge Gainsbourg já era o mais feio dos sedutores – e tinha acabado de sair de uma relação com ninguém menos do que Brigitte Bardot. A deusa Bardot, então a mais célebre estrela da França e uma das mais reluzentes do planeta, não quis fazer com ele um dueto para a orgamástica canção Je t’aime… moi non plus. Foi Birkin quem aceitou – o sucesso que a música trouxe (foi proibida no Brasil, em Portugal, na Espanha e no Reino Unido, entre outros países) e a proposta de viver com o parceiro.

(Vejam abaixo um dos muitos vídeos intimistas que Gainsbourg e Birkin gravaram:)

Cultos e charmosos, os dois formaram um casal que se transformou em um dos ícones de comportamento liberal dos anos 70. Os 13 anos que passaram juntos foram intensos: canções polêmicas, filmes polêmicos, roupas polêmicas, nudez polêmica, declarações polêmicas, vida polêmica. Eles se conheceram quando Gainsbourg tinha 40 e ela 22 anos, e ela ficou fascinada, mas não se abateu com o desprezo inicial do impertinente orelhudo: orquestrou um jantar, dançou com ele e ficou na ponta dos pés para ganhar um beijo.

Então, nessa primeira noite, Gainsbourg a levou sucessivamente a um bar de travestis, a um clube onde ouviram o cantor de blues americano Joe Turner e depois a uma boate russa. A noite terminou no Hotel Hilton, onde a recepcionista perguntou: “Seu quarto é habitual, o Sr. Gainsbourg?” E nada sexual aconteceu então, porque ele, exausto, desabou e dormiu. Muito rapidamente, porém, tornaram-se inseparáveis.

Tiveram duas filhas, uma delas a hoje ótima atriz francesa e também cantora Charlotte Gainsbourg e separaram-se em 1980, por iniciativa de Jane. Continuaram, porém, amigos.

Quanto o irriquieto, multifacetado Gainsbourg morreu, mereceu do então presidente François Mitterrand a frase de que “ele foi o Baudelaire de nosso tempo, o Apollinaire…”.

A seleção de fotos abaixo mostra um pouco da paixão e estilo de um casal que marcou época.

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Cartaz do filme sobre o compositor, cantor e ator: “Gainsbourg — O Homem que Amava as Mulheres”

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Orelhudo, narigudo, mas sedutor irresistível: Serge Gainsbourg

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Serge e Jane: os 18 anos de diferença de idade nunca foram um problema

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Dividiram uma vida intensa

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Fizeram filmes, gravaram músicas

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Sorriram juntos

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Hoje Jane Birkin é uma ativista política, e continua a fazer turnês pelo mundo

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Serge foi intenso inclusive nos vícios: cigarros, bebidas, mulheres e outras coisas

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Já separados, mas ainda amigos, com a filha Charlotte (à direita) e com Lou, que nasceu depois que cada um havia seguido seu rumo

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Jane Birkin inspirou uma it-bag da Hermés

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Jane fez o papel de amante lésbica de Brigitte Bardot, no filme “Don Juan”

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Foto de família: com a filha de ambos, Charlotte (no colo do pai) e com Kate, filha de um relacionamento anterior de Jane

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Serge Gainsbourg e duas marcas registradas: as orelhas de abano e o inseparável cigarro

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Em cena do filme  “Slogan”

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Serge e Jane: um casal estiloso – e escandaloso

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No filme “Wonderwall” (1968), do diretor Joe Massot – cuja trilha sonora foi composta pelo beatle George Harrison – o nome da personagem de Jane, embora sem uma fala sequer, é Penny Lane, título de uma das canções dos Beatles

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Je t’aime… moi non plus

08/07/2012

às 16:03 \ Tema Livre

Ótima atriz, Charlotte Gainsbourg procura fugir da herança dos pais famosos como cantora, e encontra uma zona de conforto

INSINUAÇÃO DE INOCÊNCIA Charlotte: estreia na música em um dueto com o pai - e numa canção com incesto no título (Foto: Divulgação)

INSINUAÇÃO DE INOCÊNCIA -- Charlotte: estreia na música em um dueto com o pai - e numa canção com incesto no título

(Publicado em VEJA de 13 de junho de 2012, por Sérgio Martins)

 

Charlotte Gainsbourg

COMO NOSSOS PAIS

Charlotte Gainsbourg faz de tudo para se desvencilhar da imagem do pai, Serge Gainsbourg, e da mãe, Jane Birkin. Mas não há como negar a descendência

 

Charlotte GainsbourgCharlotte Gainsbourg, a atriz, confirmou recentemente que será a protagonista de A Ninfomaníaca, próximo filme do cineasta dinamarquês Lars von Trier, com quem ela já trabalhou em Anticristo e Melancolia, ambos cercados de muito burburinho crítico. “Meus trabalhos cinematográficos tendem a ser provocativos. Todo artista tem de ir um pouco além do óbvio”, disse Charlotte, em entrevista a VEJA.

Para Charlotte Gainsbourg, a cantora, afastar-se do óbvio é também fugir da herança familiar. Filha do cantor e compositor Serge Gainsbourg, um dos astros mais insolentes do pop francês, e da cantora e atriz inglesa Jane Birkin, ela entrou na música pelas mãos do pai, mal saída da infância.

Na fase adulta, realizou três discos-solo: 5:55, em colaboração com a dupla francesa Air, IRM, em parceria com o americano Beck, e Stage Whisper, lançado há poucos meses, com gravações ao vivo e sobras de estúdio dos dois anteriores. “Canto em inglês porque era uma língua que meu pai não dominava. E praticamente sussurro nos meus discos, para não soar como minha mãe”, diz a artista.

Mas não adianta o fruto espernear, pois a árvore continua por perto: a música eletrônica do Air e as composições modernosas de Beck são, afinal, aparentadas do pop chique de Gainsbourg.

A entrada de Charlotte no mundo musical se deu aos 13 anos, com Lemon Incest. Interpretada em dueto com Serge Gainsbourg, a canção veio acompanhada de um clipe em que o incesto do título era escandalosamente insinua­do. “Mas a letra era muito inocente”, defende a cantora.

Anos mais tarde, ela voltaria ao tema, como atriz: na adaptação cinematográfica da novela O Jardim de Cimento, de Ian McEwan, sua personagem tinha uma relação estranha com os irmãos. “Pelo menos não há incesto nos filmes de Von Trier. Por favor, não me veja como uma entusiasta dessa prática”, brinca Charlotte.

A influência materna evidencia-se não tanto na voz, mas na relação com a moda. Jane Birkin chegou a inspirar uma bolsa da grife Hermès cujo preço pode chegar a aviltantes 100 mil dólares. Charlotte não é propriamente bonita (pelo menos, não como a mãe), mas tem o figurino esbelto e um rosto anguloso e marcante. Tornou-se modelo ocasional do estilista Nicholas Ghesquière, da Balenciaga. “Há uma conexão forte entre a música e a moda. Até mesmo por uma razão prática, todo artista que se preze tem de possuir um guarda-roupa decente”, diz a dublê de artista e cantora.

Para Charlotte Gainsbourg, a cantora, afastar-se do óbvio é também fugir da herança familiar (Foto: Reprodução)

Os pais de Charlotte: o pop francês Serge Gaisnbourg e a bela atriz e cantora britânica Jane Birkin

Sylvie Simmons, biógrafa de Serge Gainsbourg, conta que, apesar de vender uma imagem transgressora, o cantor era extremamente zeloso na educação dos filhos. Seus hábitos boêmios adaptavam-se às obrigações paternais: às vezes, ele chegava em casa já nas primeiras horas da manhã, a tempo de ver a filhota ir para a escola.

A filha dileta revelou-se uma atriz ousada e intensa, mas é mais tímida nas suas realizações musicais. Jane Birkin também foi atriz antes de ser cantora, mas tinha uma voz um tanto mais potente. E Serge era um músico e letrista muito mais completo. O que se ouve nos discos de Charlotte é o pop agradável e elegante de uma artista que encontrou sua familiar zona de conforto.

 

Vídeo: Serge e Charlotte, juntos, cantando Lemon Incest, em 1984.

 

Leia também:

Fotos: Serge Gainsbourg e Jane Birkin, o casal que estremeceu os anos 60-70

12/02/2012

às 15:00 \ Livros & Filmes

Perderam “Melancolia” no cinema? Corram para alugar o DVD. Um filme a um só tempo triste, belíssimo e desconcertante

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"Melancolia": a atriz Kirsten Dunst, vestida de noiva, boiando entre a vegetação de um riacho (Foto: Divulgação)

“Melancolia”, do diretor dinamarquês Lars Von Trier, é um filme a um só tempo tristíssimo e belo, comovente e desconcertante. De longe, um dos melhores filmes lançados no Brasil de um ano para cá.

Se vocês não puderam vê-lo nos cinemas, corram para alugar o DVD. É de arrasar.

Vejam por quê:

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Melancolia - A hora do adeus

Em Melancolia, de Lars von Trier, duas irmãs esperam o fim do mundo

Durante oito minutos, ao som de Tristão e Isolda, de Wagner, vários tableaux vivants de beleza sublime se sucedem: Kirsten Dunst, vestida de noiva, boiando entre a vegetação de um riacho, ou andando penosamente em um bosque, arrastando um emaranhado de redes atrás de si; Charlotte Gainsbourg, desesperada, caminhando com os pés virados para trás, com um menino ao colo; ou os três personagens postados diante de um castelo, em uma noite iluminada por duas luas – uma é a Lua de fato e a outra, o gigantesco planeta [fictício] Melancolia, que, depois de sair de trás do Sol e passar por Mercúrio e Vênus, se aproxima da Terra – com a qual então colide estrondosamente.

O diretor Lars von Trier não esconde da plateia que esse prólogo de Melancolia (Melancholia, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011) adianta tanto os desenvolvimentos como o desfecho do filme. Mas o faz porque tem um propósito específico: surpreender não com a ideia do fim do mundo, mas com a maneira como seus personagens o receberão.

Imitando o que julga ser felicidade

Do rigor formal e grandiosidade operística da abertura, Von Trier salta para a linguagem do Dogma na primeira parte, denominada “Justine”: com a câmera na mão, mostra as festividades do casamento de Justine (Kirsten) e Michael (Alexander Skarsgard).

Os noivos são recebidos por Claire (Charlotte), a irmã de Justine, e seu marido (Kiefer Sutherland), em um belíssimo castelo, para um jantar repleto de flores e homenagens. Aos poucos, as fissuras sob essa superfície se revelam.

A mãe de Justine (Charlotte Rampling) é uma niilista implacável. Seu pai, um inconsequente. Seu chefe (Stellan Skarsgard), um grosseirão.

E ela própria está imitando o que julga ser felicidade: Justine sofre de uma depressão difusa, mas intransponível, que nem sequer a paixão do noivo consegue aliviar – de onde a celebração termina em rompimento.

"Melancolia" é um belo filme, e a beleza começa com o visual impecável

Os desenvolvimentos estão aflorando com tal força como que pela ação gravitacional do planeta Melancolia: ainda que alguns duvidem da colisão, todos estão sob o empuxo da ideia do fim de todas as coisas. Na segunda parte do filme, “Claire”, Von Trier disseca o que acontece quando se conclui que não há escapatória. Só as duas irmãs permanecem agora no castelo.

Justine, antes tão errática, se fortalece: não tem o que perder, e a aniquilação pode até ser um alívio ou dar-lhe algum sentido. E Claire, antes tão composta, desaba: ela ama a vida e tem um filho, e o adeus é para ela um sofrimento infinito.

Não parece muito, mas é. Ainda que as declarações desastradas de Von Trier em Cannes (por motivos insondáveis, ele disse “compreender Hitler”) tenham eclipsado o filme que ele levava ao festival, Melancolia é um de seus mais belos trabalhos – uma história compassiva, poética e pungente sobre uma mortalidade tão próxima e brutal que não há nem como desviar os olhos dela.

(Resenha escrita pela crítica de cinema Isabela Boscov, também editora executiva de VEJA, publicada na edição da semana do lançamento do filme nos cinemas do país, a de  3 de agosto de 2011)

 

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