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Zahar

25/06/2011

às 9:02 \ Entrevista

Como os árabes salvaram a cultura ocidental – parte 1

Jonathan Lyons trabalhou como correspondente da Reuters no Oriente, até se dedicar mais a fundo a estudar a relação entre leste e oeste

Em tempos de radicalização de posições na oposição Oriente versus Ocidente, vale a pena lembrar que árabes e ocidentais não são inimigos naturais, e que a cultura que permeia Europa e América deve muito aos muçulmanos. É o que procura fazer o americano Jonathan Lyons, do Centro de Pesquisas sobre Terrorismo Global da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália. Em A Casa da Sabedoria (tradução de Pedro Maia Soares, Zahar, 294 páginas, 44 reais), Lyons conta como os árabes, que dominaram a Península Ibérica por oito séculos, assumiram o papel de guardiões e disseminadores do saber clássico ocidental, em um momento em que a Europa estava imersa na escuridão da Idade Média. E, mais do que isso, criaram a Renascença, período em que os europeus se voltaram à cultura clássica, e cuja autoria tomam para si.

Clique aqui para ler a segunda parte da entrevista

O título do livro é emprestado da biblioteca criada em Bagdá no século IX para abrigar, traduzir e expandir conhecimento, muçulmanos recuperaram, copiaram e difundiram textos gregos sobre filosofia, ciência e astronomia, por vezes checando e corrigindo dados encontrados. Os documentos foram levados às terras de língua árabe, formando também a base para os trabalhos originais de pensadores islâmicos.

Foi da grande admiração de Lyons por esse trabalho empreendido pelos árabes que surgiu a motivação para contar esse trecho da história da ciência um tanto esquecido no Ocidente. Sem esse trabalho, diz o autor de A Casa da Sabedoria, o mundo apresentaria uma configuração muito diversa da que tem hoje. Mais do que isso: sem esses esforços muçulmanos, os ocidentais poderiam não ter a noção de que são capazes de explorar e manipular o mundo à sua volta sem entrar em conflito com Deus.

Em entrevista ao blog VEJA Meus Livros, Jonathan Lyons fala sobre as razões que fizeram com que a operação pró-conhecimento efetuada pelos árabes tenha pouco ou nenhum destaque atualmente, em especial no Ocidente – a principal delas é, como se pode imaginar, o olhar preconceituoso formado nos últimos anos sobre o Islamismo. E explica como os pensadores árabes estabeleceram os fundamentos da Renascença ocidental – inovações erroneamente atribuídas aos europeus.

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Quais as principais contribuições árabes para a cultura ocidental?
Há duas maneiras de abordar a questão. Primeiro, nós podemos listar os campos específicos, ideias e tecnologias que são tributários à cultura árabe e muçulmana. Aqui, entram a navegação astronômica, os estudos de anatomia, a arte de fazer mapas, a álgebra e a trigonometria, entre muitos outros. Mas há uma contribuição mais profunda, que eu acredito ser fundamental para o que hoje entendemos como Ocidente. É a ideia de que o homem pode explorar e até manipular o mundo sem interferir nos poderes de Deus. Isso abriu deu aos homens poder em um grau considerável, mas não absoluto, sobre seu mundo. E essa é a história subjacente de A Casa da Sabedoria.

No livro, o senhor conta como grande parte da pesquisa produzida pelos árabes era desvinculada da fé islâmica e da obrigação de estabelecer doutrinas.
Sim, mas, antes de tudo, é preciso dizer que boa parte do trabalho científico foi, de fato, desenvolvida para atender a questões da prática religiosa, como traçar a direção correta de Meca para rezar (os muçulmanos fazem suas orações voltados para Meca) ou para fazer a peregrinação e estabelecer os horários das cinco orações diárias, determinados por medições celestes. O interessante é que os muçulmanos do período medieval aceitaram as orientações dadas pelos cientistas para essas obrigações religiosas, sem a tensão entre fé e religião que caracteriza a experiência ocidental.

A imagem que os árabes têm hoje no mundo, influenciada pelas práticas terroristas, é muito diferente daquela que lhes era correspondente durante a Idade Média, quando salvaram parte importante da cultura ocidental. Foram os árabes que mudaram ou nós que mudamos na forma como os vemos?
Não há dúvida de que as sociedades árabe e muçulmana não são mais as líderes do mundo da ciência, da filosofia e das artes. Mas é importante ressaltar que nós não temos muita informação desse processo de declínio, porque, como ocidentais, elegemos o Islã como causa e nos contentamos com essa resposta simples. Por que olhamos automaticamente para as questões do Islã para explicar o mundo muçulmano atual? Eu posso pensar em muitas outras formas de explicar esse universo: a destruição do sistema de irrigação que sustentava o grande império abássida; o desmoronamento do império islâmico em si; a “descoberta” ocidental das raízes comerciais para a Índia e para a China; a desertificação da região central do Iraque e assim por diante. E, enquanto nos obstinamos com o Islã, há cerca de 100.000 documentos científicos nas principais línguas muçulmanas (árabe, turco, persa e urdu), que nunca tiveram atenção acadêmica séria. Em outras palavras, pode haver um mundo inteiro de conquistas científicas e intelectuais lá fora, esperando para serem descobertas. Mas ninguém está olhando.

Por que muito dos avanços conquistados pelos árabes são atribuídos aos europeus do período renascentista?
Durante o período da Renascença, houve uma tentativa deliberada e consciente da crescente classe de “humanistas” de criar uma linhagem nova para a cultura ocidental que ignorasse a contribuição árabe, bem como a experiência da Europa medieval que muito dependia dos muçulmanos. Quando se olha, por exemplo, para o jeito como esses humanistas recontaram a história da álgebra, uma invenção árabe com nome árabe, podemos ver um lento, mas contínuo processo de apagamento dos traços da influência muçulmana. Isso permitiu aos humanistas avançar posições como pretensos fornecedores de uma nova cultura pura do Ocidente, sem a mácula da influência externa árabe. Fruto do empreendimento pró-saber dos árabes, a chamada Renascença é mais uma continuidade do que uma revolução cultural.

As traduções de textos científicos e filosóficos gregos feitas pelos árabes é fiel aos originais ou carrega interpretações influenciadas pela cultura islâmica?
Essa é uma ótima e importante pergunta. A história do Ocidente, como a contam os textos de faculdade, posicionam os árabes como os cuidadores da aprendizagem ocidental – a partir dos grandes textos gregos sobre filosofia, ciência, engenharia etc. –, mas raramente contam quais foram as suas contribuições originais a esse saber. Os árabes não apenas fizeram traduções e cópias de textos clássicos, comi também os usaram como ponto de partida para suas próprias pesquisas originais e, mais importante ainda, checaram e frequentemente corrigiram dados e cálculos de astronomia e geografia encontrados. Eles completaram as traduções para o árabe, tornando-as melhores e mais valiosas que as originais. Curiosamente, no entusiasmo da Renascença por textos gregos genuínos, muitas dessas versões árabes melhoradas foram ignoradas ou perdidas. Mas antes, na época medieval, textos sobre a metafísica de Aristóteles e que explicassem um trabalho complexo para leitores e estudantes eram muito populares na Europa. Foi através das lentes árabes, com as inevitáveis influências da cultura islâmica, que boa parte do Ocidente conheceu Aristóteles e a filosofia grega em geral.

Como operava a Casa da Sabedoria?
A Casa da Sabedoria, o título, é, antes de tudo, uma metáfora para a estratégia organizada e deliberada dos governantes do grande império islâmico, com sede em Bagdá, de coletar e expandir sua coleção de aprendizagem e sabedoria. Os estudiosos defendem, por vezes de forma apaixonada, que se tratava de um espaço real e duradouro. Outros, no entanto, a veem como uma invenção da história ocidental. Para mim, ela representa a política oficial do Império Abássida para promover o aprendizado. Parece que a Casa da Sabedoria foi modelada após as primeiras bibliotecas reais dos persas e fornecia apoio administrativo e financeiro para a realização de interpretações científicas e filosóficas e para traduções de textos hindus, gregos e persas. Esses textos foram copiados e disseminados amplamente pelas terras de língua árabe e formaram a base para muitos dos trabalhos originais feitos pelos pensadores árabes e muçulmanos.

Clique aqui para ler a segunda parte da entrevista

Beatriz Souza

25/06/2011

às 9:01 \ Entrevista

Como os árabes salvaram a cultura ocidental – parte 2

A contribuição árabe foi fundamental para a construção da cultura ocidental tal como é hoje. Ao longo de oito séculos, os muçulmanos traduziram, por vezes corrigiram e difundiram o conhecimento clássico grego entre si, salvando e entregando aos europeus, que viviam então na Idade Média, um vasto saber. No livro A Casa da Sabedoria (tradução de Pedro Maia Soares, Editora Zahar, 294 páginas, 44 reais), o americano Jonathan Lyons, do Centro de Pesquisas sobre Terrorismo Global da Universidade Monash, em Melbourne, Austrália, se dedica a mostrar como os árabes foram inclusive responsáveis pela Renascença, período cuja autoria os humanistas europeus procuraram tomar. Leia abaixo a segunda parte da entrevista de Lyons a VEJA Meus Livros. A primeira parte está aqui.

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Islamismo e Catolicismo são religiões aparentadas na origem. Por que os árabes incentivaram a leitura enquanto os católicos a censuravam?
A resposta está na estrutura das duas fés. O Islã não tem uma hierarquia, embora sempre tenha havido tentativas dos poderosos de impor uma. Como resultado, cada crente tem sua responsabilidade vinculada diretamente a Deus, e é responsável por ler e interpretar a seu modo o Alcorão, que eles acreditam ser a própria palavra divina. Definir quem é um mau muçulmano e quem é um bom muçulmano é um dos maiores desafios para a comunidade islâmica. No Irã, por exemplo, os clérigos muçulmanos que estão no poder (responsáveis por barbaridades) costumam definir seus rivais políticos como “anti-islâmicos”. Mas isso realmente não tem sentido, porque não há nenhuma autoridade central para determinar exatamente o que significa ser um bom muçulmano, embora haja princípios acordados a serem seguidos. Na tradição cristã, e aqui estou me referindo principalmente à Igreja Católica, há uma autoridade reconhecida na figura do Papa. Essa hierarquia determina exatamente o que é preciso para ser um bom católico. Em um ambiente como esse, é menos importante ler do que obedecer. Além disso, há uma conhecida forte tradição dentre o sacerdócio católico de que se valorizar a leitura entre o clero, que deve interpretá-la para os fiéis.

Como as diferenças entre as duas religiões – Islamismo e Catolicismo – se refletem em diferenças entre as culturas árabe e ocidental?
Um dos maiores desafios para qualquer estudante de religião – e eu me doutorei em Sociologia da Religião – é determinar onde acaba a “cultura” e começa a “religião”. No caso do Islã, com a morte do profeta Maomé, a comunidade muçulmana perdeu ao mesmo tempo seu líder político e espiritual, e deixou de ter alguém a quem recorrer para obter uma decisão “islâmica” sobre uma questão social, religiosa ou política. Com o tempo, como acontece em qualquer religião, os ensinamentos e ideias do profeta foram registrados por uma crescente classe de sacerdotes, trabalho concluído no período medieval, centenas de anos após a morte de Maomé. Valores culturais, preocupações e questões desse período posterior se confundiram com os ensinamentos maometanos. Então, coisas que são imperativos culturais tornaram-se imperativos religiosos.

A história de como a valorização do conhecimento pelos árabes transformou a civilização ocidental é contada através da figura do filósofo Adelardo de Bath. Qual a sua importância nesse processo?
Adelardo de Bath foi uma figura notável que anulou o sentimento antimuçulmano prevalecente em sua época e procurou ver o que os árabes poderiam ensinar ao Ocidente. Infelizmente, não se sabe muito da sua motivação e experiência pessoais. Em A Casa da Sabedoria, eu tento trazer Adelardo à vida porque ele é um dos meus heróis. Mais especificamente, ele voltou para casa com os “elementos de Euclides”, a fonte do nosso estudo de geometria, trabalhos de astronomia e astrologia, primeiras noções de química. Mas o maior tesouro que ele trouxe foi a permissão para o Ocidente estudar o mundo ao nosso redor.

Como foi feita a pesquisa para escrever o livro?
Eu iniciei esse projeto com a ideia de explorar ligações entre a poesia árabe e o surgimento da literatura secular ocidental. Queria, por exemplo, olhar para o relacionamento entre a poesia cortês da Espanha islâmica, conhecida como al-Andalus, e os trovadores. Mas, enquanto pesquisava a transmissão cultural do leste para o oeste, fiquei fascinado com questões maiores de ciência e filosofia. A Casa da Sabedoria é, na verdade, dois livros em um: a história da ciência e filosofia árabe no período medieval, e a história sobre como o conhecimento viajou para o Ocidente e os efeitos que produziu ao chegar lá.

A primeira parte da entrevista está aqui

Beatriz Souza

21/01/2011

às 19:56 \ Leituras cruzadas, Páginas estrangeiras

Vale a pena ressuscitar Sherlock Holmes?

Colocar no mercado, ao alcance dos leitores, livros que um escritor não quis lançar em vida é uma prática bastante questionável – pode ser entendida tanto como um favor aos fãs carentes de uma nova publicação do autor como um golpe comercial da editora. E o que se diz de um escritor retomar um personagem clássico criado décadas antes por um autor já morto? A pergunta é coerente no momento em que corre a notícia de que a editora britânica Orion prepara para setembro o lançamento de uma nova história de Sherlock Holmes,  o clássico detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle.

O autor responsável pelo livro, o inglês Anthony Horowitz, promete não “tomar liberdades” com Sherlock e apenas inseri-lo em uma nova trama policial. Em se levando em consideração a opacidade inerente ao personagem do gênero policial, que pouco transparece de si mesmo para não entregar pistas em excesso ao leitor, é possível que cumpra o que diz. Mas herdeiros e fãs puristas devem coçar a cabeça de apreensão de qualquer modo. Nunca se sabe o que pode resultar desses arriscados enxertos.

O bom currículo do substituto de Conan Doyle, que a Orion tem tratado de divulgar, não dirime os riscos. Autor de livros infantis como Alex Rider e roteirista de televisão, Horowitz, que se diz fã de Sherlock Holmes desde a adolescência, já teria adaptado para a TV histórias de outro detetive clássico: Hercule Poirot, de Agatha Christie.

Qualquer que seja a qualidade do novo trabalho, é possível que Sherlock Holmes, desde o início um grande vendedor de livros – O Cão dos Baskerville é tido um dos primeiros bestsellers do século XX -, volte a dar lucros nesta empreitada. Originalmente publicado na revista inglesa Strand Magazine, o personagem foi salvo pelos leitores da publicação quando Conan Doyle, cansado de movê-lo em cenários diversos, decidiu aposentá-lo. Um número recorde de cancelamento de assinaturas fez o escritor mudar de ideia.

Para quem é fã do detetive, uma dica de leitura é a coleção completa de Sherlock Holmes que a editora Zahar está lançando. Publicada originalmente nos Estados Unidos pela Norton, a coleção reúne toda a obra de Sir Arthur Conan Doyle, acompanhada de textos informativos, ilustrações e notas de rodapé.

Maria Carolina Maia

14/05/2010

às 19:25 \ Livros da Semana

Em novo livro, sociólogo Zygmunt Bauman volta o seu ‘pessimismo’ contra o capitalismo

Bastante conhecido no Brasil por livros como Amor Líquido, em que analisa o padrão volátil dos relacionamentos atuais, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman volta ao mercado brasileiro, no próximo dia 21, com um título em que dirige seu olhar ao sistema capitalista. Em Capitalismo Parasitário (Zahar; 96 páginas; 19 reais), que chega às livrarias no próximo dia 21, Bauman destila crítica em frases como “o capitalismo se destaca por criar problemas, e não por solucioná-los”.

Bauman é perspicaz e procura retratar a realidade sem maquiá-la. A metáfora escolhida para nomear o livro, no entanto, é rasa, como se vê no trecho a seguir. “Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência.”

Soa ingênuo, como a passagem, “Os indivíduos que têm uma caderneta de poupança e nenhum cartão de crédito são vistos como um desafio para as artes do marketing: ‘terras virgens’ clamando pela exploração lucrativa”.

Soa, aliás, óbvio. Porque não deixamos de lhe dar razão. E é preciso dizer que o livro tem linhas melhores, como quando ele diz que “A alegria de ‘livrar-se’ de algo, o ato de descartar e jogar no lixo, esta é a verdadeira paixão do nosso mundo”. Aqui, o sociólogo se reconecta ao grande tema de sua produção, ao assunto que perpassa toda a sua obra, a liquidez. O foco de Bauman, em seus livros – no Brasil, foram lançados vinte, que venderam juntos 200.000 exemplares - são os elementos que podem ser considerados em estado de liquidez e que, por isso, geram mal estar social.

Bauman pode ser acusado de um pessimismo à la José Saramago, embora o próprio rejeite se definir como otimista ou o oposto – um sistema binário em que não vê como se encaixar. É no último capítulo de Capitalismo Parasitário, Um Homem com Esperanças, que ele faz essa revelação, e que dá um passo no sentido de escapar da pecha de pessimista.

Nele, como o título indica, Bauman lembra que a humanidade ainda não chegou à falência e que há caminhos que podem desviá-la deste destino. “Acredito que é possível um mundo diferente e de alguma forma melhor do que o que temos agora.”

Maria Carolina Maia

 

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