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Kobalt: a ajuda que os músicos precisavam para entrar de vez na era digital

A empresa inglesa, parceira do Google, usa big data para monitorar (e cobrar por) direitos autorais

Os músicos têm sofrido com a era do big data. Como mostra reportagem de VEJA desta semana, a internet levantou para todos os seres humanos a possibilidade de transformar o que for, de documentos confidenciais a filmes e canções, em arquivos digitais compactados, facílimos de serem reproduzidos, compartilhados ou mesmo acessados em tempo real pela rede, via streaming. A consequência boa: a democratização da informação, hoje disponível para qualquer um, de qualquer lugar. As negativas (aqui em destaque apenas as que mais afligem os artistas): a pirataria e a dificuldade de contabilizar direitos autorais, mesmo em sites e apps de respeito, a exemplo do Spotify e do YouTube.

Mas também veio do big data a resposta mais acertada a esse problema. Em parceria com dois gigantes da indústria digital, a Adobe e o Google (dono do YouTube, e que arrecadou 60 milhões de dólares em investimentos para a empreitada), a gravadora inglesa Kobalt desenhou um software capaz de localizar na imensidão de dados online os rastros da execução de uma música de seus clientes.

A Kobalt foi fundada em 2001 pelo inglês Willard Ahdritz, primeiramente como uma gravadora independente. Desde o início, porém, o objetivo não era criar uma empresa tradicional do ramo, mas uma capaz de conceder maior transparência à indústria. O mercado fonográfico tem a péssima reputação de ser nebuloso, cheio de contratos injustos para os artistas e de rádios e sites que reproduzem músicas sem se preocupar em pagar pelos direitos autorais. “Sim, é uma área opaca. Há muito medo entre artistas de que eles não estejam sendo remunerados. Eu falo ‘vocês estão certos, estão sendo enganados”, diz Ahdritz.

Um dos grandes exemplos de como a engrenagem desfavoreceu historicamento os artistas envolve os Beatles, a maior banda de rock de todos os tempos. No início de 1963, quando ainda engatinhava, o grupo assinou um contrato com a editora de músicas Northern Songs, então pouco conhecida e em situação financeira delicada, concedendo-lhe participação majoritária sobre os lucros resultantes das composições. Mais tarde, Paul McCartney iria se referir a esse acordo como um “contrato de escravidão”.

Não é surpreendente, portanto, que Sir Paul seja um dos propagandistas e clientes de destaque da Kobalt (confira na lista no fim desta reportagem). O software da empresa inglesa foi uma benção digital para os artistas. Com seus algoritmos, a Kobalt monitora o Youtube, o iTunes, o Spotify e outros divulgadores, para garantir que os direitos dos músicos sejam arrrecadados. Todos esses dados são transmitidos em tempo real para o site da empresa, que o artista e sua equipe podem acessar a qualquer momento. No portal, é possível acompanhar 700 000 tipos de fonte de receita, quantas vezes as músicas são reproduzidas, quantos álbuns físicos ou digitais são vendidos e, principalmente, como isso se traduz em dinheiro. A prova máxima de que os músicos tinham razão em reclamar é que o monitoramento fez com que a receita gerada por canção aumentasse em 30%.

A Kobalt rapidamente ganhou o aval de milhares de músicos. A empresa representa os cantores e compositores que ocupam 40% do ranking de 100 músicas e álbuns mais tocados nos Estados Unidos e Inglaterra. Entre os nomes de destaque, além do ex-Beatle, estão Maroon 5, Adele, Foo Figthers, Sam Smith e Skrillex. E a taxa de retenção dos clientes é de 98,5%. Melhor que lutar inutilmente contra a era da músicas digital, é se adaptar a ela. E os músicos parecem ter finalmente encontrado a ajuda que precisavam.