Escola americana oferece aprendizado individualizado com IA
Ferramenta não dispensa professores reais, que continuam essenciais no desenvolvimento socioemocional dos alunos

Nunca fui boa de gramática. O que parecia simples para os meus colegas era, e ainda é, bastante confuso e um grande sofrimento para mim. Regras que não fazem sentido lógico e detalhes que exigem atenção minuciosa sempre foram um desafio para meu cérebro mais generalista. Agora imagine se, ao perceber estas dificuldades, uma professora tivesse dedicado mais tempo aos meus desafios. E se tivesse conseguido adaptar o ensino ao meu jeito de aprender, criando lógicas e exemplos que fizessem mais sentido? O aprendizado teria sido outro. É essa personalização que a inteligência artificial começa a oferecer para a educação. Ela tem o potencial de entender a forma única com que cada criança aprende e adaptar os caminhos até a compreensão. A personalização do aprendizado não é uma ideia nova, mas com o avanço da IA generativa está cada vez mais refinada, responsiva e dinâmica.
Tive a oportunidade de conhecer uma escola no Vale do Silício que está aplicando essa tecnologia de maneira inovadora. As manhãs são dedicadas ao aprendizado individualizado, com cada aluno em seu computador, guiado por uma assistente de IA, que personaliza o conteúdo. À tarde, os estudantes se dedicam a atividades como esportes, música, teatro e artes. O final do dia é reservado para projetos em grupo, desenvolvendo habilidades de colaboração e convivência.
Estamos apenas no começo. A tendência é que esses tutores se tornem cada vez mais especializados — não apenas em conteúdo, mas em desenvolvimento socioemocional. No livro de contos futuristas 2041, dos especialistas em IA, Kai-Fu Lee e Chen Qiufan, uma das histórias é sobre um mundo onde crianças aprendem com tutores holográficos, que acompanham seu progresso de forma integrada e com apoio emocional e conversas significativas. Parece ficção científica, mas está cada vez mais perto.
Ensino híbrido
Ao olharmos para o Brasil, vemos que ainda há uma distância considerável em relação a esta realidade. Há um debate equivocado, que opõe tecnologia e professores. A verdade é que a IA só vai cumprir seu potencial transformador se for aplicada com intencionalidade — e, principalmente, com a presença humana. Diversos estudos sobre o uso de IA na educação deixam claro que a interação com os professores continua sendo essencial para o sucesso do processo de aprendizado. Nenhuma ferramenta, por mais avançada que seja, substitui a presença humana.
O olhar atento de uma educadora, sua capacidade de fazer perguntas certeiras, criar conexões significativas e contextos para o aluno aprender são fundamentais. Se quisermos que a IA transforme a educação no Brasil, precisamos, mais do que nunca, investir em nossas professoras. É preciso capacitá-las para esse novo papel, onde possam extrair o máximo das ferramentas tecnológicas e reconhecer seu papel central no processo ensino-aprendizagem. Será necessário garantir infraestrutura, conectividade e dispositivos, mas não apenas. O elemento essencial continuará sendo o humano. Nenhuma tecnologia mudará a educação se não estivermos dispostos a investir de maneira séria nas pessoas que fazem a educação acontecer todos os dias. No final das contas, a verdadeira promessa da inteligência artificial será cumprida ao enfrentarmos o desafio de formar, capacitar, investir e valorizar nossas professoras. Somente assim a educação brasileira poderá se beneficiar dessa revolução.
*Deputada estadual (Rede -SP), formada em administração pública e autora da lei de restrição dos celulares nas escolas do estado paulista.