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O que se sabe sobre o novo surto de gripe aviária, o pior desde os anos 90

Mortes de mamíferos e a confirmação de casos em humanos reforçam a preocupação com um vírus de potencial pandêmico. É preciso agir já

Por Diego Alejandro
15 abr 2023, 08h00

O alarme de Tedros Adhanom Ghe­breye­sus, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), soou em fevereiro deste ano: deveríamos nos preparar para uma possível epidemia de gripe aviária. A mensagem não foi exagerada. O vírus influenza H5N1, causador da doença, virou um pesadelo entre diversas espécies animais. Desde outubro de 2021, foram registrados mais de 42 milhões de casos da infecção em aves. Nesse período, 15 milhões de animais domésticos morreram e outros 193 milhões tiveram de ser sacrificados. Trata-se do pior surto de gripe aviária desde os anos 1990.

O apelido da doença pode levar a enganos: ela não afeta apenas aves que vivem na natureza ou em granjas. Mamíferos também estão sendo infectados, e em proporções inusuais. No Peru, 585 leões-marinhos morreram em decorrência da moléstia. Na Espanha, um surto eclodiu numa fazenda de visons (parentes da doninha criados em cativeiro). No Reino Unido, o microrganismo foi encontrado em lontras e raposas. E o ser humano, pode contrair o vírus? Há registros recentes, que exigem atenção. Nas últimas duas semanas, houve a confirmação do primeiro caso de H5N1 em humanos no Chile e a morte de uma mulher na China devido a outro subtipo viral e menos comum, o H3N8.

O salto de micróbios entre espécies não é algo incomum. Seis em cada dez doenças infecciosas que assolam seres humanos hoje são provocadas por patógenos que aprenderam a migrar de outros animais para o nosso organismo. Como demonstram estudos recentes, a Covid-19 também percorreu esse itinerário — os hospedeiros naturais do coronavírus são os morcegos. Mas, antes mesmo de o mundo conhecer o SARS-CoV-2, virologistas já se preocupavam com uma possível doença de origem zoonótica capaz de se espalhar entre gente como a gente. O influenza sempre foi o principal candidato por trafegar entre várias espécies e ser altamente transmissível. Mas o temor rondava particularmente a gripe aviária por causa de sua letalidade. De 2003 a 2023, 873 casos humanos e 458 mortes foram reportados em 21 países. E, circulando pelo planeta, o vírus pode sofrer mutações que lhe conferem novas habilidades para se disseminar.

DISSEMINAÇÃO - Outros bichos: vírus foi identificado neste ano em visons
DISSEMINAÇÃO - Outros bichos: vírus foi identificado neste ano em visons (Ole Jensen/Getty Images)

Ainda que o perigo esteja no ar, não há motivo para pânico. “Os contágios atuais não fornecem evidências de que o vírus está prestes a se espalhar massivamente para seres humanos”, diz o virologista Paulo Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP). O agente infeccioso precisaria subir alguns graus na escada que leva a uma pandemia. O motivo principal é que o H5N1 ainda não está adaptado para ser transmitido de pessoa para pessoa. Os episódios pontuais registrados em humanos se restringem por ora a indivíduos que tiveram contato direto com aves contaminadas. O que não significa que devemos baixar a guarda, claro.

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Por enquanto, a grande ameaça da gripe aviária envolve a produção alimentícia. Desde meados dos anos 1950, quando a avicultura começou a se industrializar, mais de 50 bilhões de galinhas são criadas anualmente como fonte de carne e ovos, o que as torna a espécie de vertebrados mais abundante no planeta. Para manter números desse porte, uma rede enorme de fazendas, laboratórios e frigoríficos é movimentada. Com o alastramento da doença entre as aves, pode ocorrer a devastação de uma cadeia produtiva, gerando falências, desemprego e prejuízos econômicos. Em última instância, a falta de frango e ovo desataria aumentos exponenciais no preço da comida.

Para conter o problema, nações como China e França já estão vacinando as galinhas. Estados Unidos, Argentina e Uruguai pretendem começar em breve. Outros países preferem aguardar, pois já há um cerceamento nas exportações dos produtos avícolas e regras rígidas de confinamento vêm sendo adotadas. O Brasil, ainda livre da moléstia, adota essa estratégia, e reforçou a vigilância ativa. De qualquer forma, o vírus H5N1 está no radar dos cientistas. E não se trata apenas de cuidado com a proteção animal. O Instituto Butantan, de São Paulo, iniciou estudos para criar uma vacina voltada a humanos. “Já iniciamos a produção dos bancos virais. E as próximas etapas estão em fase de elaboração”, diz Ricardo Oliveira, diretor do Centro Bioindustrial da entidade paulistana. É prudente nos anteciparmos ao inimigo. Como a pandemia de Covid-19 e outras epidemias já provaram, ao longo da história, a evolução dos vírus pode ser imprevisível.

Hora de se vacinar

CAMPANHA - Governo pretende bater meta de 90% na vacinação
CAMPANHA - Governo pretende bater meta de 90% na vacinação (Tomaz Silva/Agência Brasil)

O Ministério da Saúde acaba de dar início à campanha de imunização contra a gripe comum — um problema de saúde pública que responde por um grande número de internações e mortes no país. A vacina é aplicada anualmente para proteger as pessoas dos vírus influenza mais comuns em cada temporada. O produto disponível gratuitamente pelo SUS cobre três tipos do patógeno. O governo prioriza, nessa primeira fase da imunização, alguns grupos, como gestantes, idosos, crianças de 6 meses a 6 anos e trabalhadores da área da saúde. Eles estão mais vulneráveis à contaminação e a complicações pela infecção respiratória. A meta é vacinar até 31 de maio 90% de cada público-alvo, o que, no total, representa mais de 80 milhões de brasileiros.

Há, contudo, um desafio pela frente, já que em 2022 a cobertura vacinal para a gripe não bateu os 70%. Além do imunizante oferecido pelo SUS, a rede privada oferece a vacina tetravalente, que cobre uma quarta cepa dominante de influenza. Mais recentemente, foi lançada uma versão turbinada do produto especialmente para pessoas acima de 60 anos. O fundamental, de qualquer forma, é não deixar de se vacinar — pelo bem individual e coletivo.

Publicado em VEJA de 19 de abril de 2023, edição nº 2837

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