Carta ao Leitor: Uma semente promissora
Ainda que de forma mais lenta, o Brasil vem seguindo a tendência mundial que comprova efeitos positivos do uso medicinal da 'Cannabis'
Um dos registros mais antigos a respeito das qualidades farmacêuticas da Cannabis remonta ao ano 2700 a.C. e é atribuído ao imperador Shen Nung, que ficou conhecido como o pai da medicina chinesa. Segundo ele, a planta seria capaz de tratar “reumatismo, malária, constipação e distúrbios femininos”, mas, se tomada em excesso, “pode provocar visões”. Embora várias civilizações antigas tenham propagandeado os benefícios da erva para a saúde, somente no século XX o tema voltou a entrar no radar dos cientistas. Estudos comprovaram efeitos positivos da Cannabis nos tratamentos de epilepsia e de esclerose múltipla. Sabe-se hoje que é também útil no alívio de dores crônicas e na redução de náuseas provocadas pela quimioterapia em pacientes com câncer. Novos levantamentos podem ampliar ainda mais o leque de utilidades com eficácia cientificamente comprovada, pois o interesse em torno do assunto só vem aumentando nos últimos anos.
As pesquisas abriram as portas para a criação de um novo mercado de medicamentos. Hoje, o setor de produtos feitos à base de Cannabis e de seus derivados movimenta globalmente mais de 30 bilhões de dólares por ano. O Canadá tornou-se, em 2001, o primeiro país a regularizar terapias conduzidas com esses medicamentos, sendo seguido por outras nações. Em paralelo, o uso recreativo da maconha deixou de ser caso de polícia em número cada vez maior de países. Em alguns deles, como Uruguai e Canadá, o consumo foi legalizado já há alguns anos. Mais recentemente, a Alemanha juntou-se a esse grupo. Nos Estados Unidos, legislações estaduais do Colorado e da Califórnia adotaram políticas parecidas.
Ainda que de forma mais lenta, o Brasil vem seguindo a tendência mundial, conforme VEJA já destacou em várias reportagens de capa. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal julgou que o porte de maconha para uso pessoal não devia mais ser enquadrado como crime. A Corte reafirmou esse entendimento em 2025. No caso da Cannabis medicinal, houve na semana passada um grande avanço com a publicação de novas regras da Anvisa relacionadas a essa família de produtos, tema de reportagem edição. Entre outros pontos, a agência governamental liberou o plantio da erva para ser utilizada como matéria-prima de remédios e criou normas claras para a realização de pesquisas sobre o assunto no país. A produção de conhecimento é o melhor antídoto contra preconceitos e desinformação.
Publicado em VEJA de 6 de fevereiro de 2026, edição nº 2981





