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Após fase dramática, Nordeste varia entre estabilização e queda de mortes

Sergipe e Piauí destoam desse cenário, com registros preocupantes de aumento nas estatísticas

Por Giulia Vidale - Atualizado em 15 jul 2020, 19h50 - Publicado em 15 jul 2020, 19h30

A dimensão continental do Brasil faz dele um país com diversos “micro países” em seu território. A lógica se encaixa à perfeição no atual cenário da epidemia do novo coronavírus. Algumas regiões podem ter realidades completamente diferentes. Neste quesito, o Nordeste chama muito a atenção por ter maior heterogeneidade entre os estados.

Após uma fase mais dramática, com capitais como Fortaleza e Recife com alto número de casos já no início do ano, a média móvel de novos casos e óbitos por coronavírus se estabilizou, em comparação com os dados de duas semanas atrás. Por outro lado, enquanto alguns estados e principalmente capitais já podem respirar mais aliviados, outros começam a enfrentar a ascensão da epidemia.

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A disparidade era esperada e é normal. “Não há uma única explicação. Vários fatores contribuem para essa característica como o comportamento do vírus em si, que tende a migrar em ondas para locais onde tem pessoas suscetíveis; os cuidados que as pessoas de cada local tomam, as medidas de distanciamento e flexibilização adotadas pelos governantes, a capacidade do sistema de saúde e a questão política que, no Brasil, desempenha um papel muito forte no desfecho dessa epidemia”, explica o epidemiologista e infectologista Bruno Scarpellini, da PUC do Rio de Janeiro.

Desde o começo da pandemia, Fortaleza e Recife, por exemplo, começaram a ver a curva de infectados aumentar em um período semelhante ao de capitais de outras regiões como São Paulo e Manaus. Hoje, essas cidades começam a respirar.

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Nesta quarta-feira, 15, a média móvel de óbitos em Fortaleza nos últimos sete dias chegou a 14, quase quatro vezes menor do que a taxa registrada no dia 15 de junho, quanto bateu 53,7. No mesmo período, a capital cearense também apresentou melhora significativa no número de casos: a taxa desta quarta-feira é de 129, contra 451 há um mês.

Após medidas rígidas de distanciamento que ajudaram a conter a epidemia, Fortaleza avançou na flexibilização e retomada da economia. A cidade, que chegou a instituir lockdown por algumas semanas, permitiu nesta semana a reabertura das barracas de praia no horário de almoço.

Já em Recife, a média móvel de óbitos nos últimos sete dias chegou a 10. A redução em relação à taxa registrada em 15 de junho, quando bateu em 38,3 de média móvel, foi semelhante à de Fortaleza. Por outro lado, no mesmo período, a média móvel de casos da capital pernambucana aumentou ligeiramente, saindo de 185,1 em 15 de junho para 191,6 nesta quarta-feira, 15. Mesmo assim, como a vizinha cearense, Recife permitiu a reabertura dos quiosques na praia, da feirinha de artesanato e autorizou o banho de mar em áreas seguras.

Salvador, que recentemente se tornou um novo centro do estudo fase 3 da vacina de Oxford no Brasil, também apresenta redução de novos óbitos e casos de Covid-19. A média móvel desta quarta-feira para óbitos na cidade é de 16,7, contra 18,6 há um mês. Já os casos caíram de 616,4 para 523,9.

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Por outro lado, Aracaju, João Pessoa e Natal, veem o número de vítimas fatais aumentando. A média móvel de óbitos nos últimos sete dias nesta capitais chegou a 8,6, 12,7 e 8,3, respectivamente, nesta quarta-feira. No dia 15 do mês passado, as taxas eram 6,7 em Aracaju, 6,6 em João Pessoa e 6,3 em Natal.

“A tragédia existiu de forma diferente em algumas cidades. Salvador, por exemplo, assim como São Paulo, conseguiu achatar a curva. Platô significa achatamento, pois se tem platô, não tem pico e a epidemia é melhor controlada”, diz o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz.

Atualmente, a maioria dos estados do Nordeste – Alagoas, Ceará, Paraíba, Maranhão e Pernambuco – apresenta estabilização na média móvel de novos casos e mortes por Covid-19 em comparação com duas semanas trás. Entre os quatro restantes, Bahia e Rio Grande do Norte estão em queda em número de novas infecções. Mas apenas o Rio Grande do Norte apresenta queda nas mortes. Na Bahia, a situação é considerada estável.

Por outro lado, Sergipe e Piauí destoam dos bons resultados de seus vizinhos e apresentam alta nos dois índices. Um dos fatores que podem explicar esse fenômeno é que a epidemia nestes estados ganhou força apenas em meados de maio, disparando no início de junho. Ou seja, mais de um mês depois dos demais estados da região.

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“As diferenças estão associadas ao trânsito de pessoas de outros países e estados”, explica o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz. “Fortaleza, por exemplo, tem mais conexões com a Europa do que Recife e Salvador. Por isso, no Nordeste, o vírus foi introduzido lá primeiro. Logo apos essa primeira onda, onde teve essa introdução do vírus, o deslocamento diminuiu, o que de certa forma atrasou a interiorização da epidemia.”

Brasil

Nesta quarta-feira, 15, o Brasil registrou uma média móvel de novos casos de coronavírus de 36.226,9, um número estável em relação aos dados das últimas duas semanas. Por outro lado, a média móvel de óbitos preocupa. O novo índice foi de 1057,4, o segundo maior de toda a pandemia, o que indica que as mortes estão crescendo no país. O recorde foi no dia 23 de junho: 1057,7. A data também marcou o período com mais óbitos em 24 horas até aqui, com 1.374 mortes.

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