‘A crise climática já impacta os serviços de saúde’, alerta presidente do Einstein
Em entrevista exclusiva, Sidney Klajner fala sobre os desafios do sistema para reduzir o impacto ambiental e lidar com as vítimas do aquecimento global
Entre o consultório, a sala de cirurgia e a gestão de um dos maiores ecossistemas de saúde do mundo, o coloproctologista Sidney Klajner ainda convive com outra preocupação em mente. Uma preocupação das grandes, mas que muitas vezes é tratada, de forma míope, como algo distante da nossa rotina. É a crise climática.
Poucos médicos e lideranças na área da saúde no Brasil levam o problema ambiental tão a sério como o presidente do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. Klajner, na realidade, está fazendo o dever de casa, ciente de que os centros hospitalares também participam da emissão de gases e resíduos que contribuem para os transtornos planetários.
Entusiasta da tecnologia e atento ao fato de que o aquecimento global já bateu à nossa porta, o executivo esteve na última edição do South by Southwest (SXSW), fórum de inovação realizado em Austin, nos EUA, onde participou, junto ao diretor de emergências da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), Ciro Ugarte, e à editora da revista científica Nature, Sophie McClarty, do painel de debate “Clima em crise, saúde em risco: tecnologia como elemento vital”.
Em entrevista exclusiva a VEJA, o presidente do Einstein fala sobre os desafios em jogo, das iniciativas da operação que comanda voltadas ao meio ambiente e das repercussões da crise climática que já se fazem presentes nos consultórios e hospitais.
Cada vez mais se tem falado sobre o impacto ambiental das emissões e recursos utilizados pelo sistema hospitalar público e privado. O que é prioritário na gestão dos hospitais e centros de saúde hoje para mitigar esses efeitos? O setor de saúde, de maneira geral, tem um impacto ambiental relevante, seja pelo consumo de energia, pelo uso intensivo de água ou pela geração de resíduos complexos, que exigem tratamento adequado. O setor é responsável hoje por cerca de 5% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo estudo publicado na Lancet Planetary Health. Isso significa que, se fosse um país, seria o quinto maior emissor mundial. É importante que as organizações reconheçam esse impacto.
O que o Einstein, que foi reconhecido como o melhor hospital da América Latina recentemente, tem feito para lidar com essa questão? A sustentabilidade ambiental é uma preocupação do Einstein há mais de duas décadas. Em 2011, a organização lançou o plano diretor de sustentabilidade, que é recorrentemente atualizado. Além disso, publica desde 2010 seu inventário de emissões com verificação externa, consolidando dados para identificar oportunidades de redução e orientar ações de mitigação e adaptação. Já em 2021, aderiu ao compromisso global Net Zero e à campanha Race to Zero, assumindo metas de reduzir suas emissões em pelo menos 50% até 2030 e alcançar carbono neutro até 2050, conforme parâmetros internacionais. A estimativa, porém, é a de já atingir o objetivo de 50% de redução em 2028.
E quanto ao uso de energia renovável, o que vocês têm feito? Em 2025, o Einstein passou a operar com 100% de energia proveniente de fontes renováveis, neutralizando integralmente as emissões associadas ao consumo de eletricidade. Esse avanço consolida a transição energética como eixo estruturante da estratégia climática, fortalece o cumprimento das metas assumidas no compromisso Net Zero e reforça a integração entre descarbonização, eficiência operacional e gestão responsável de recursos.
Mas outros hospitais, com menos recursos, conseguiriam seguir esse caminho? Para que essa agenda avance de forma consistente nos hospitais e centros de saúde, é fundamental que haja engajamento da liderança e que a sustentabilidade esteja incorporada à cultura organizacional. Isso passa por investimentos em inovação e em tecnologias capazes de reduzir o impacto ambiental das operações hospitalares, mas também por uma atuação colaborativa com outros hospitais, fornecedores e o poder público para ampliar a escala das boas práticas. Até porque um dos mais impactados pelas mudanças climáticas é o próprio setor, que precisa de respostas tanto para a grande demanda por atendimento durante eventos climáticos quanto para a resiliência das operações em situações extremas.
A tecnologia é apontada inúmeras vezes como solução para os impasses ecológicos, inclusive na indústria da saúde. Contudo, autores e pesquisas recentes indicam que o impacto energético e ambiental do desenvolvimento de supercomputadores e de sistemas de inteligência artificial (IA) é significativo. Como equacionar esse dilema? A energia é hoje o principal custo da IA, tanto no desenvolvimento quanto no uso. Modelos de grande escala exigem uma grande infraestrutura computacional, o que faz com que até 70% do custo total esteja concentrado na fase de treinamento das ferramentas. Em resposta a esse cenário, começam a surgir alternativas mais eficientes. A DeepSeek, por exemplo, demonstrou ser possível criar modelos de alto desempenho usando apenas uma fração da potência computacional necessária aos modelos equivalentes, evidenciando que há caminhos para reduzir a pegada ambiental da IA. Ao mesmo tempo, a corrida pela Inteligência Artificial Geral (IAG) eleva ainda mais a demanda energética: trata-se de projetos que exigem volumes massivos de computação e estão impulsionando transformações profundas na infraestrutura global de energia. Nesse sentido, pode-se dizer que a IA já remodela a matriz energética mundial, tanto pelo crescimento acelerado da demanda quanto pela busca de fontes estáveis e limpas para sustentá-la.
Então a própria indústria da IA precisa se aperfeiçoar para se tornar sustentável? Para mitigar esse impacto, é consenso que não haverá solução única. Entre os caminhos mais promissores estão o desenvolvimento de modelos mais leves e eficientes, reduzindo o custo por token; arquiteturas inteligentes, como as que ativam apenas partes do modelo por consulta, economizando energia; e avanços em “IA criando IA”, com sistemas capazes de projetar modelos menores e mais sustentáveis. No Einstein, já avançamos nessa direção com o desenvolvimento de modelos multimodais leves para três aplicações, visando reduzir custo e ter maior aplicabilidade da ferramenta no SUS.
Falamos muito sobre os riscos futuros à saúde das pessoas devido às mudanças climáticas. Mas, no presente, seja no consultório, seja no hospital, vocês já observam essas repercussões? Sim. A crise climática já impacta diretamente o cotidiano dos serviços de saúde. Entre os principais efeitos observados estão o aumento de atendimentos e internações relacionados a ondas de calor, poluição do ar e períodos de seca prolongada e queimadas. Dados do Ministério da Saúde mostram que, durante os episódios mais intensos de queimadas em 2024, houve aumento significativo na procura por atendimento, com alguns estados registrando alta de até 191% em sintomas associados à exposição à fumaça, além de relatos que apontam crescimento de até 60% na demanda por serviços de saúde relacionados à má qualidade do ar. E incluímos mais camadas a esse impacto quando falamos de eventos extremos, seja pelo aumento de doenças infecciosas como leptospirose ou por quadros de saúde mental.
É um cenário de crise? A OMS estima que 489 mil pessoas tenham morrido por exposição ao calor em todo o mundo entre 2000 e 2019. Outra pesquisa, publicada na Environmental Epidemiology, aponta que o Brasil registrou mais de 142 mil mortes relacionadas a temperaturas extremas entre 1997 e 2018. Já nos Estados Unidos, as ondas de frio foram associadas a um aumento de 3,8% nos casos de doenças respiratórias (cerca de 60 mil casos adicionais). O mesmo estudo identificou um aumento de 5,2% nas doenças cardiovasculares, representando aproximadamente 345 mil casos adicionais.
Quando se fala de sustentabilidade hoje, transpondo a teoria para a prática, o que considera o ponto mais nevrálgico e a medida mais urgente a ser tomada em grande escala? Apesar da crescente evidência científica sobre o tema, ainda existe uma discrepância importante entre a magnitude do impacto das mudanças climáticas na saúde e o espaço que a saúde ocupa nas discussões e nos investimentos relacionados ao clima. Muitas vezes, a saúde ainda é tratada como uma consequência da crise climática, quando na realidade deveria ser considerada um dos pilares centrais das políticas de adaptação e de preparação das sociedades para esse novo cenário. Segundo a ONU, mesmo que grande parte dos países identifique a saúde como um setor prioritário vulnerável às alterações climáticas, menos de 2% do financiamento multilateral para mudança climática vai para projetos de saúde.
O setor de saúde não pode estar fora do debate e das tomadas de decisão, correto? Sim, e esse é inclusive um dos pontos que têm pautado a participação do Einstein em fóruns globais como o SXSW. Ao longo dos últimos anos, a organização vem compartilhando experiências desenvolvidas no Brasil, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade, com o objetivo de mostrar que muitas dessas soluções são replicáveis em outras regiões do mundo com desafios semelhantes. Ao mesmo tempo, esses espaços reforçam a importância da colaboração internacional para acelerar o desenvolvimento de soluções em saúde, inovação e tecnologia.
Mas quais são as demandas mais urgentes hoje? Elenco algumas. Primeiro, fortalecer a capacidade de dados e monitoramento, ao ampliar o investimento na coleta, organização e governança de dados relacionados à saúde e ao clima. Segundo, expandir a rede de estações climáticas e sensores ambientais no país, permitindo medições mais precisas de variáveis como temperatura, umidade e qualidade do ar. Esses dados precisam ser integrados às bases de saúde já existentes, como informações sobre internações, mortalidade e dados epidemiológicos. Temos um exemplo que está ainda em desenvolvimento pelo Einstein, que é o MAIS (Meio Ambiente e Impacto na Saúde), que integra informações ambientais (temperatura, poluição, umidade), de saúde (internações, óbitos, doenças) e socioeconômicas e traz um painel interativo com dados de mais de 5.500 municípios com o objetivo de gerar informações qualificadas capazes de apoiar gestores públicos na tomada de decisões e na preparação dos sistemas de saúde para eventos extremos.
Como se preparar para esses eventos climáticos extremos? É preciso desenvolver sistemas de saúde resilientes, aqueles capazes de antecipar, enfrentar e responder ao estresse relacionado ao clima, ou seja, um sistema adaptado a essa nova realidade. Isso passa pela formação e capacitação dos profissionais de saúde. O Einstein tem equipes especializadas em resposta a desastres climáticos, que treina e capacita equipes para atuar em missões programadas ou em situações de emergência, como vimos no litoral norte de São Paulo e no sul do Brasil. Nesse contexto, também é importante investir em desenvolvimento tecnológico para levar mais acesso e equidade, especialmente às populações em situação de vulnerabilidade, que são as que mais sofrem com as mudanças climáticas. Por fim, é preciso firmar e cumprir os compromissos para a descarbonização das operações de saúde, como já mencionei antes.





