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Progresso ilusório

O planejamento soviético chegou a inspirar políticas do mundo capitalista, mas hoje há o consenso de que o sistema, além de injusto, era inviável

Encerrada a II Guerra, ainda era vivo na memória dos países ocidentais o trauma da Grande Depressão de 30. Na Europa em ruínas, havia o temor de um desemprego em massa. Para muitos, a resposta aos males do capitalismo propenso a crises estava no mundo comunista. A estabilidade da economia planificada, com metas de produção e emprego, seduziu economistas influentes do mundo capitalista. O poderio tecnológico soviético também impressionava, atingindo seu auge quando Yuri Gagarin se tornou, em 1961, o primeiro homem a viajar pelo espaço. O economista Paul Samuelson, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), chegou a prever que a União Soviética iria fatalmente superar os Estados Unidos. “A economia soviética é a prova de que, ao contrário do ceticismo de muitos, uma economia socialista pode funcionar e até mesmo prosperar”, disse Samuelson. Ele não era nenhum radical esquerdista. Ganhador do Nobel, foi conselheiro de dois presidentes democratas nos anos 1960: John Kennedy e Lyndon Johnson. Mas, como ficaria escancarado mais tarde, os números vendidos pela propaganda comunista eram uma mistificação. O sucesso da economia stalinista era, em grande medida, miragem.

O ponto de partida, sob o aspecto econômico, era um patamar muito baixo. Em 1917, os bolcheviques assumiram o governo de uma nação atrasada, com ferrovias e fábricas destruídas, com comida racionada. Em Petrogrado, o consumo médio diário de alimentos atingia metade do nível pré-­guerra. Assustada com a revolução, boa parte da pequena elite empresarial fugiu para outros países. A diáspora teria chegado a 2 milhões de pessoas. Tudo isso, somado à falta de gente capacitada, obviamente, dificultou a reconstrução da Rússia. Ainda assim, nos anos iniciais de euforia com a revolução, o esforço cooperativo foi capaz de restituir, lentamente, a produção industrial aos níveis anteriores à guerra. Havia, entretanto, uma crise no campo. A nacionalização das propriedades rurais derrubou a oferta de alimentos. Os agricultores maiores e mais produtivos, os kulaks, relutavam em aderir à revolução. Lenin decidiu, então, dar um passo atrás e reverter parcialmente a coletivização ao criar, em 1921, a Nova Política Econômica, ou Novaya Ekonomicheskaya Politika, conhecida pela sigla NEP. As propriedades rurais e as pequenas indústrias voltaram ao controle privado. O recuo, segundo Lenin, era necessário para consolidar a revolução. A mudança deu um alento temporário aos produtores.

Fome - A expropriação de terras derrubou a produção agrícola e matou milhões de pessoas (Roger Viollet/AFP)

Com a morte de Lenin, em 1924, tudo mudou. Stalin prevaleceu sobre os reformistas que defendiam a manutenção de parte das atividades em mãos privadas, a NEP foi desmantelada e a política econômica passou a ser regida pelos planos quinquenais, com metas predefinidas. O primeiro plano, válido pelo período de 1928 a 1932, teve como prioridade produzir ferro e aço. No campo, deu-se uma guinada. Em 1928, 97% da área cultivável era controlada por kulaks e camponeses. Quatro anos mais tarde, 62% das terras privadas eram coletivizadas. Em 1937, o porcentual chegou a 93%. Os kulaks foram expulsos e obrigados a trabalhar na indústria pesada. Resultado: houve, novamente, queda na produção em algumas das áreas mais férteis do território soviético, nos vales da Ucrânia e do Cazaquistão. A população teve de enfrentar mais um episódio traumático. Holodomor (“matar pela fome”) foi a palavra usada para descrever a tragédia humanitária de 1932 e 1933 provocada pela intervenção de Stalin. Estimativas do historiador americano Timothy Snyder, da Universidade Yale, falam em pelo menos 3,3 milhões de mortos, sobretudo na Ucrânia. Para alguns pesquisadores, foi um genocídio deliberado para estrangular opositores.

Mas a indústria, comandada sob o rigor militar, prosperou — ainda que na base dos trabalhos forçados nos gulags. Houve um salto na produção de aço, petróleo, carvão e armas. E o desempenho soviético na II Guerra demonstrou ao mundo que a Rússia não era mais a nação atrasada assumida pelos bolcheviques. Foi assim que, no pós-guerra, o Ocidente começou a ver a União Soviética como um império ascendente, atraindo países para a sua zona de influência, e aparentemente imune a crises. Daí a sedução exercida pela economia planificada. Na Inglaterra e na França, houve um aumento da intervenção do governo na economia, inclusive com a nacionalização de empresas e a criação de planejamentos inspirados no estilo soviético. Em diversos países, as políticas sociais foram alargadas. Houve, claro, a providencial ajuda do Plano Marshall: os americanos, para evitar que mais nações migrassem para a esfera soviética, financiaram a reconstrução de seus aliados e adotaram políticas destinadas a manter a coesão social e servir de vacina contra o avanço de movimentos comunistas. A longo prazo, essas iniciativas deram mais do que certo. As economias capitalistas entraram em uma fase de prosperidade, enquanto a URSS passaria por dificuldades crescentes.

Os soviéticos criaram uma elite científica, colocaram cosmonautas no espaço e desenvolveram equipamentos de guerra notáveis (entre eles os temíveis fuzis AK-47 e os caças MiG). A indústria militar, afinal, enfrentava a concorrência estrangeira, tinha clientes exigentes e precisava ser eficaz. No resto, a economia era um oceano de ineficiência. Em 1987, nos estertores da experiência soviética, a produtividade dos trabalhadores equivalia a um quarto da dos americanos e era inferior até mesmo à dos brasileiros. A ineficiência era também a norma em outros países da antiga Cortina de Ferro. Um alemão-­oriental produzia menos de um terço que um alemão-ocidental. A União Soviética, enquanto consumia as suas energias na corrida nuclear e armamentista, ficou irremediavelmente para trás no desenvolvimento tecnológico. Era um sistema que formava atletas admiráveis, mas mal conseguia alimentar adequadamente a maior parte da população. O modelo soviético havia chegado a um beco sem saída não meramente por questões éticas e humanitárias. A sua crise final foi retardada em decorrência das polpudas receitas obtidas da exportação de petróleo e gás.

O colapso soviético não ocorreu simplesmente pelas despesas militares. O sistema autoritário era hostil ao empreendedorismo. Sem mercados livres e competitivos, não existia a interação entre a academia, a indústria, o comércio e os próprios consumidores. As virtudes dos Estados Unidos tinham todos os sinais trocados na URSS. Tome-se o exemplo da internet, do GPS e de outras tecnologias originalmente criadas pela indústria de guerra americana: o uso comercial desses recursos não foi decidido de cima para baixo, pelo alto-comissariado, mas sim pelos empresários e pelos consumidores. Plano quinquenal nenhum teria desenvolvido a moderna tecnologia da informação, produto da inovação, da interação e da colaboração de milhões de pessoas em todo o planeta.

Passo atrás – Cartaz louva a nova política de permitir propriedades rurais privadas: recuo temporário (Biblioteca Nacional de Moscou/VEJA)

Os comunistas chineses acompanharam de perto o colapso soviético e se esforçam para não cair no mesmo erro: mantêm um equilíbrio delicado entre abertura econômica e autoritarismo político. Deng Xiaoping teve a presciência de que “a chave para atingir a modernização é o desenvolvimento da tecnologia” e foi pragmático em expor a China à competição internacional, no lugar de mantê-la sob a proteção de uma muralha ou de uma cortina de ferro.

Para os filhos de camponeses e servos que ascenderam da miséria, a URSS certamente trouxe algum ganho. As transformações em oito décadas não foram poucas. Antes da revolução, mais da metade da população era analfabeta, praticamente não existiam indústrias e a maioria das pessoas cultivava apenas o suficiente para sobreviver. Mas outros países tiveram muito mais sucesso em se desenvolver no mesmo período e sem a necessidade de sacrificar milhões de cidadãos em nome de uma causa. O crescimento da renda média (PIB per capita) da URSS foi apenas ligeiramente superior ao constatado no Brasil e ficou muito aquém ao obtido por Japão, Coreia do Sul e outras nações asiáticas que seguiram o caminho das reformas e da abertura ao comércio internacional.

A Revolução Russa ocupou por muito tempo um lugar na inspiração para movimentos sociais de todo o mundo e contribui, ao menos indiretamente, para forçar os países capitalistas a expandir suas políticas sociais. Mas mesmo entre intelectuais de esquerda o fascínio pela experiência soviética parece ter ficado no passado. “Os valores e instituições importantes para a esquerda — da igualdade perante a lei ao fornecimento de serviços públicos como questão de direito — nada devem ao comunismo”, escreveu o historiador inglês Tony Judt. “Setenta anos de ‘socialismo real’ em nada contribuíram para o bem conjunto da humanidade. Em nada.”

O capitalismo passa agora por mais uma crise de confiança, motivada pelo aumento na desigualdade. Permanece um fosso enorme entre ricos e pobres. Há muito a ser feito para ampliar as oportunidades de ascensão social e dirimir injustiças. Mas nem os esquerdistas radicais sonham com a ressurreição de um Stalin. A União Soviética real sempre esteve distante daquela mitificada.

Publicado em VEJA de 11 de outubro de 2017, edição nº 2551

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