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O tempo horrorizado

A proteção da paisagem urbana deveria estar além das ideologias

Por José Francisco Botelho
10 ago 2018, 07h00 • Atualizado em 4 jun 2024, 17h45
  • “Todos os seres humanos têm uma atração secreta pelas ruínas”, escreveu François-René de Chateaubriand, romântico andarilho de lugares devastados, em O Gênio do Cristianismo, de 1802. Na época, o fervor dos escombros poéticos lavrava entre os europeus ilustrados; o próprio Chateaubriand contemplou os destroços dos séculos e avaliou-os com sutilezas de enólogo durante diversas viagens pela Europa e um célebre percurso de Paris a Jerusalém. Para esse connoisseur das desolações arquitetônicas, existem dois tipos de ruína, muito diferentes entre si. “Algumas ruínas são obra do tempo, outras são obra dos homens. As primeiras nada têm de desagradáveis, porque nelas a natureza trabalha ao longo dos anos; ocupada eternamente em se reproduzir, ela adorna a morte com as mais doces ilusões da vida. Já as ruínas feitas pelos homens oferecem apenas a imagem do nada, sem nenhuma potência reparadora. Frutos do infortúnio e não dos anos, elas parecem cabelos brancos na fronte da juventude. A destruição praticada por mãos humanas é mais violenta e completa que a efetuada pelas eras: estas solapam, aquelas desvirtuam… E o tempo, horrorizado, nos vê aniquilar num piscar de olhos o que ele próprio levaria séculos para destruir.”

    Os românticos do século XIX amavam as ruínas criadas pelo tempo; mas o Brasil do século XXI é atormentado pelo segundo tipo de devastação — aquela que nós mesmos praticamos, cortejando a decadência e atropelando a ação dos anos, como se ansiássemos por nosso próprio fim. Por décadas, políticas urbanas desastradas mutilaram grande parte de nosso patrimônio histórico; para rematar a catástrofe, os sobreviventes da hecatombe são assolados pela crescente cegueira do vandalismo. Apenas entre janeiro e julho de 2017, Belo Horizonte suportou mais de 500 ataques contra seu patrimônio; em Porto Alegre — capital que já teve mais chafarizes franceses que Paris! —, 50% dos monumentos públicos sofreram algum tipo de depredação. Tão assustadores quanto esses números são os aplausos que às vezes vêm celebrá-los: não falta quem enxergue algo de heroico ou romântico — perdão, Chateaubriand! — nessa febre aniquiladora capaz de deixar o próprio Tempo horrorizado.

    Digo-o por experiência: no Brasil, quem defende o patrimônio histórico contra avanços predatórios e modernizações mal-ajambradas será tachado, cedo ou tarde, de inimigo do mercado e traidor do progresso; de outro lado, quem ouse se manifestar contra a depredação de monumentos históricos — ou o que restou de nossas maravilhas arquitetônicas — verá grudada em si a pecha de reacionário, ou outra nomenclatura à la mode. Enquanto os rótulos giram, a arte, a memória e a alma de nossas cidades continuam alvejadas num fogo cruzado que se dispara às cegas e cuja principal vítima é a posteridade. A defesa de nossas paisagens urbanas não é questão ideológica, mas causa humanista: urge compreender isso agora, já, para que não deixemos às gerações futuras apenas os frutos de nosso infortúnio emoldurando a imagem do nada.

    Publicado em VEJA de 15 de agosto de 2018, edição nº 2595

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