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É possível um Macron brasileiro

Estrategista da campanha do presidente francês afirma que, apesar da instabilidade, há terreno fértil para o surgimento do “novo”, sem a âncora do populismo

Por Sofia Fernandes
Atualizado em 4 jun 2024, 20h26 - Publicado em 3 nov 2017, 06h00

Guillaume Liegey tem no currículo duas campanhas eleitorais que marcaram época: participou como coadjuvante da equipe que elegeu Barack Obama, em 2008, e comandou o exército de engajados do movimento En Marche!, na França, que levou à Presidência o candidato de centro, Emmanuel Macron, em maio passado. Liegey estará no Brasil em 6 de novembro para prospectar clientes. No Rio de Janeiro, ele se reunirá com o Agora!, movimento que tem entre seus membros o apresentador Luciano Huck. Também terá conversas em São Paulo e Brasília. Seu interesse nas eleições de 2018 tem razão de ser. Ele acredita que o país mostra ter condições para ungir um candidato de centro capaz de quebrar a polarização. “Estou convencido de que é possível começar alguma coisa do zero no Brasil”, afirmou. A seguir, os principais trechos de sua entrevista a VEJA, feita por telefone, de Paris.

O Brasil tem chance de parir um exemplar de Emmanuel Macron em 2018? É fácil dizer “adaptem o discurso de Macron à realidade brasileira”, mas pôr isso em prática é difícil. Minha intuição é que muitas pessoas estão pensando em concorrer, mas ainda não declararam. O discurso de Macron era fazer política de um jeito diferente do que fazem os velhos partidos que têm se revezado no poder há décadas. Funcionou na França porque havia muitos voluntários mobilizados. Foi preciso montar uma operação profissional de captação de recursos independente de fundos partidários e organizar o partido usando ferramentas de dados. Estou convencido de que é possível começar algo do zero no Brasil e, se o projeto vingar, aumentar a chance de vitória de 0,1% para 10%, como no caso de Macron.

Qual foi a grande inovação? Mandamos voluntários à casa das pessoas para fazer perguntas sobre a França: o que funciona e o que não funciona no país, o que dá esperança e o que preocupa em relação ao futuro? Entendo que, tradicionalmente, gasta-­se muito dinheiro em TV e usam-se mídias sociais de forma antiquada. Se as pessoas quiserem ser inovadoras, como o momento pede, sim, haverá espaço para uma campanha como a de Macron. Bater à porta das pessoas no Brasil não é tão fácil assim, pela dimensão do país, pela desigualdade. Mas dá para criar um sistema em que se possam ouvir as pessoas, levando em conta sua opinião na hora de fazer uma campanha.

É possível engajar o eleitor de centro? A parcela das pessoas que votam por um vínculo partidário é cada vez menor. Isso significa que há oportunidade para candidatos sem posicionamento ideológico claro. Nesse caso, o que importa são os valores incorporados. Se um candidato quiser atrair os eleitores perdidos do centro, é necessário que faça campanha sobre sua personalidade e caráter, e não apenas sobre pontos programáticos detalhados. Especialmente no Brasil, onde políticos já não têm crédito, é preciso que as pessoas tenham fé no indivíduo.

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Como financiar um candidato com pequena base partidária num país onde o financiamento privado é proibido? Assim como no Brasil, na França temos financiamento público proporcional ao número de cadeiras no Parlamento. Quando Macron começou a campanha, o partido não tinha cadeira nem candidatos eleitos. A única forma de levantar recursos era por meio de pessoas físicas. A campanha agiu em duas frentes: com uma abordagem de massa e com pessoas de altíssima renda. No primeiro caso, construímos o maior banco de dados possível e enviamos toneladas de e-mails testando qual mensagem funcionaria melhor. O princípio-chave é: se uma pessoa doa uma vez, vai doar duas, três vezes. No outro caso, juntamos uma lista com potenciais financiadores de alta renda e partimos para o corpo a corpo, com a organização de eventos, jantares. Enquanto a pessoa não disser sim nem não, você continua perturbando, até que ela diga sim ou “nunca mais fale comigo”. No começo da campanha, fizemos um café da manhã com Macron e vinte empresários muito ricos, e, depois de uma hora, eles não doaram nada. Com o decorrer da campanha e a insistência, isso mudou.

O vazio na política pode viabilizar uma candidatura extremista e populista. Há vacinas contra isso?  Não. No Brasil, há bastante instabilidade, poderosos na prisão e um novo sistema de financiamento. Acho que há espaço para o novo. Mas também entendo que a falta de credibilidade na política pode ter o potencial de impulsionar a campanha de candidatos populistas. Neste ano, 34% dos eleitores franceses votaram em Marine Le Pen, a candidata anti-imigrantes que nunca teve cargo executivo. Trata-se do dobro do número de cinco anos atrás, o que reflete o crescente descrédito dos políticos. O populismo está ganhando terreno na França e no mundo, e a maior razão para isso é que partidos tradicionais não mudaram sua forma de atuar. Políticos são autocentrados, o que os afasta da população.

Como Macron combateu o discurso populista? Ele entendeu que a oportunidade para uma visão moderada se abria e juntou um pequeno time que, até então, ninguém julgava capaz de crescer a ponto de chegar à Presidência em um ano. Usamos a tecnologia e a abordagem de porta em porta de forma eficiente. Na vitória de Macron, talvez tenha sido exatamente isso que o colocou em primeiro, e não em segundo lugar. A vitória é uma combinação de bons candidatos, boa organização de dados e corpo a corpo. Essa ideia, não por acaso, vem de pesquisas nos Estados Unidos que provam que, quando se fala cara a cara, a chance de que o eleitor mude de ideia é muito maior do que quando se utiliza qualquer outra técnica. O primeiro candidato a usar isso em larga escala foi Barack Obama. Ele é a inspiração inicial.

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Até que ponto as fake news atrapalharam a campanha? O impacto delas é superestimado. Vou mencionar um exemplo específico: houve o boato de que pedófilos se reuniram em Wa­shing­ton, acobertados pelo Partido Democrata. Quem acreditou que Hillary Clinton apoiaria uma rede de pedofilia já estava predisposto a pensar assim. Se você fosse um apoiador de Hillary, nunca acreditaria nessa informação e a descartaria. É possível que as fake news mudem alguns votos, mas não vejo isso funcionando em larga escala.

O senhor vem ao Brasil e vai se encontrar com o Agora!, apoiado pelo apresentador Luciano Huck. Tem algum potencial cliente em vista? Não posso revelar nomes, por confidencialidade, mas vou sondar clientes e estou de cabeça aberta. Fomos procurados por algumas pessoas e vou encontrá-las. Ao final, saberei se haverá trabalho para mim.

Publicado em VEJA de 8 de novembro de 2017, edição nº 2555

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