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Crônica de uma morte anunciada

García Márquez, Shakespeare e as mazelas da educação pública

Por João Cezar de Castro Rocha
6 jul 2017, 13h52 • Atualizado em 4 jun 2024, 19h50
  • Crônica de uma Morte Anunciada, romance de Gabriel García Márquez, publicado em 1981, acompanha os últimos momentos de Santiago Nasar — um cabra marcado para morrer. Ninguém move um dedo para salvá-lo.

    • O governo do PMDB mantém sitiada uma das mais importantes universidades da América Latina: a Uerj. Verbas básicas de manutenção são sequestradas e seus funcionários amargam três meses de atraso em seus salários.

    Tênue esperança: por que a Justiça não obriga o estado a cumprir sua obrigação, como sempre faz no caso de juízes e procuradores estaduais?

    • García Márquez ficcionalizou um acontecimento ocorrido em 1951, em Sucre, na Colômbia. Esperou três décadas para buscar respostas à pergunta­­-chave: por que ninguém esboçou um gesto para evitar o assassinato?

    • Em 1958, Carlos Lacerda tentou contrabandear um aditivo à Lei de Diretrizes e Bases da Educação, promulgada em 1961. O aditivo favorecia a privatização das escolas públicas. Em Júlio César, de Shakespeare, os senadores executam César covardemente. Porém, na frase só-lâmina de Marco Antônio, “são todos homens honrados”. Lacerda traduziu a peça.

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    • No início de Crônica de uma Morte Anunciada, uma carta anônima é deixada na casa de Santiago Nasar, prevenindo-o do risco iminente. Só foi encontrada quando o destinatário já não podia lê-la.

    • Anísio Teixeira, um dos cérebros mais poderosos da cultura brasileira, opôs-se frontalmente a Carlos Lacerda. Seu discípulo, Darcy Ribeiro, fiel à pioneira vocação performática, pôs a boca no trombone. Desafiou o Corvo para um debate público e angariou apoio na intelectualidade uspiana. O aditivo de Carlos Lacerda foi rechaçado.

    • O tradutor de Shakespeare foi derrotado. Mas a escola pública realmente venceu o duelo? A partir do golpe militar de 1964, principiou o sucateamento do ensino público, cujas consequências dramáticas são óbvias. Em quatro décadas, a escola pública foi praticamente destruída. Pois bem: o governo federal e alguns governos estaduais — o Rio de Janeiro e o Paraná na vanguarda do retrocesso — arriscam covardemente os primeiros passos para levar adiante idêntico projeto no ensino universitário. Mas, é claro, são todos homens honrados.

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    • Esqueço a ironia: o projeto de privatização é uma vergonha! Façam as contas: a Uerj tem aproximadamente 35 000 alunos. Ora, cobrar mensalidades desse Maracanã de estudantes renderá mais recursos escusos do que a própria “reforma” do estádio. Multiplique o cálculo pelos milhões de alunos de todas as universidades públicas. Trata-se da mais escandalosa crônica da corrupção anunciada da história política brasileira.

    • A Uerj está viva. Cada aula ministrada, apesar de tudo, é uma carta endereçada à sociedade. E, ao contrário da tragédia de Santiago Nasar, sua mensagem tem sido lida e reproduzida em voz alta. Os governantes de plantão não contavam com a nossa astúcia. As cartas estão na mesa. Vamos virar o jogo e vencer essa partida?

    Publicado em VEJA de 5 de julho de 2017, edição nº 2537

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